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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim

Confesso que estava ansiosa pela chegada do fim do mundo. Vivi intensamente, não me arrependo de quase nada e estou basicamente feliz com minha vida em geral. Quando o mundo acabar hoje, vou partir com um sentimento leve e tranquilo, minha única preocupação vai ser com alguma besteira do tipo, ter uma frase de impacto pra dizer na hora. Pra que nem sei, o mundo vai acabar mesmo. É só que eu gosto dessas coisas.

No entanto, até ontem eu estava cheia de questionamentos sobre esse tal fim do mundo. Primeiro eu queria saber se existia uma forma de ter certeza se os antigos Maias estavam realmente se referindo ao final dos tempos e não falando do fim do mundo tipo um lugar longe como a porra. Sei que é bobagem, mas imaginem aí? Todo mundo se preocupando com o fim dos tempos quando na verdade tudo que o cara queria dizer era simplesmente que iríamos finalmente chegar a um lugar. O fim de uma viagem longa pra lugar super distante, pro fim de mundo. Tipo a viagem que se faz em Salvador do Comércio até o Itaigara com o Mirante de Periperi. Mas logo, logo entendi que se tratava de um calendário, então era obviamente o fim dos tempos mesmo. Me poupe viu, Cris...

Mas então tá. É do apocalipse mesmo que estamos falando. Mas ainda me restava entender se era um evento pro dia inteiro ou se tinha uma hora específica pra acontecer. Se tivesse uma hora específica, onde aconteceria primeiro? Se tivesse uma espécie de plano do fim do mundo, estava listado em que site pra eu acompanhar? Bem, todas as respostas que eu precisava me vieram em um sonho e por isso acordei tranquila pra curtir o último dia da humanidade numa boa.

Obviamente o mundo vai acabar as 21 horas e 21 minutos de hoje, horário da Alemanha. Esse horário é simplesmente perfeito pro fim do mundo e fim de papo. Vai ser no horário alemão e por isso vai acontecer aqui primeiro. E vai ser assim porque a Alemanha é famosa por sua organização e pontualidade. O mundo vai acabar aqui no dia e hora marcada e sem bla, bla bla. Eu sugiro a todos que acertem seus relógios com o horário de Berlim e se o fim não chegar exatamente às 21:21 do dia de hoje, podem acabar com o mundo vocês mesmos. A Alemanha nunca se engana e com certeza o apocalipse aqui vai acontecer de forma ordeira, controlada e sem histeria. 

Situações caóticas do tipo gente perdida e desesperada correndo pela rua, coisas caindo do céu, pessoas sem saber se acaba ou não acaba, sendo pegas de surpresa por um terrível apagão em pleno engarrafamento, as operadoras de celular sobrecarregadas e ninguém conseguindo completar suas ligações são típicas de fim de mundo em outros lugares, mas aqui não. Pensando bem, esse cenário que eu acabei de descrever me lembra alguns momentos que eu já vivi em Salvador. Será que o mundo já acabou na capital baiana faz muito tempo em niguém soube de nada? Vou procurar saber e se o mundo ainda existir, amanhã eu conto.


Um excelente fim de mundo pra todos vocês!





 

domingo, 29 de abril de 2012

Aceleradinha

Eu fechei o mês de março com chave de ouro. Vários itens importantes de minha interminável lista de coisinhas a fazer puderam ser riscados. Só quem é viciado em listas vai entender a satisfação que eu senti ao poder riscar itens que estavam há meses me impedindo de arrancar a folha velha do caderno e respirar aliviada com a sensação de mais um dever cumprido. Mas enfim consegui. Afffffe!! Que alívio. Entre as coisas a fazer que durante meses emperraram minha lista, estavam: dar entrada em meu pedido de cidadania, concluir meu mestrado e fazer minha carteira de motorista alemã. 

Quando março terminou e eu percebi que tinha conseguido riscar essas três coisas de minha lista, fiquei super feliz e decidi que eu merecia um presente. Resolvi fazer uma pequena viagem com meu amor e pra comemorar minha recém- tirada carteira de motorista, resolvemos ir de carro, comigo no volante, é claro. Aliás, de carro não, porque aquilo não era mais um carro. Alugamos um Mercedes, que não me lembro exatamente qual era o modelo, porque nunca fui muito ligada em carro, mas me lembro que era algum Mercedes classe "C". Mas não classe "C" que vem depois da "A" e "B", mas classe "C" que com certeza deve significar algo como "corre como a porra!". 

Como já tinha dito, nunca fui muito ligada em carro e nunca gostei muito de dirigir. Pra mim, carro sempre foi um simples meio de transporte e por isso nunca entendi direito a galera que curte falar de carro e admira piloto. Mas de repente, com meu Mercedes alugado, fiquei imaginando minha nova carreira como pilota de Fórmula 1. Aliás, com uma máquina daquelas, eu não teria problema nenhum em virar motorista em tempo integral. De repente comecei a entender porque tanta gente é apaixonada por carro e fiquei imaginando que se tivesse um daqueles ia ter de abandonar meu emprego pra viver só admirando e curtindo meu carrão e com o tempo eu não teria outro papo. Ou seja, viraria uma verdadeira babaca. Tá vendo aí? Deus sabe o que faz...

Verdade seja dita, ter começado de repente a achar graça em dirigir, não foi causado apenas pela paixonite que eu tive pelo carrão. Teve também o fato de que o trânsito alemão é bem diferente do brasileiro. Tudo é tão bem organizado (e as pessoas no geral conhecem bem e seguem as regras) que é praticamente impossível você criar um acidente. E as estradas? Essas aí são tão lisinhas que você não sente nem um tombinho por mais leve que seja. Ao sinal da mínima impefeição no asfalto, eles começam logo a consertar. Com estradas perfeitas assim, não é de se admirar que a velocidade nas auto-estradas não sejam limitadas. Existe sim, um limite mínimo recomendado (120 km/h), mas o limite máximo quem determina é o carro e a habilidade do motorista. E eu meti o pé! acelerei até 200 km/h e então comecei a me borrar de medo. Diminuí pra 180 e essa foi minha velocidade média durante a viagem. Nos trechos nos quais eu era obrigada a diminuir pra 120 (onde haviam obras, por exemplo), ficava com a sensação de estar dirigindo super devagar - como se estivesse indo a 60 km/h.

Adorei minha experiência com a velocidade nas rodovias alemãs e comecei até a achar que dirigir é divertido. Mas hoje também posso entender melhor porque eu não gostava disso tudo antes. Sem querer cuspir no prato que comi, e ainda como, desafio qualquer um a gostar de dirigir diariamente um Fiat UNO basicão e sem ar condicionado desviando dos buracos no trânsito de Salvador.
O carro que me fez gostar de dirigir

Eu feliz da vida com meu carro por dois dias

 

sábado, 10 de outubro de 2009

Teste de idiotice

Quando cheguei em Salvador, estava curiosa pra ver como as pessoas estavam lidando com a Lei Seca. Logo que ela começou a valer, meus amigos comentaram que não estavam mais saindo pra beber porque o controle estava grande. A alternativa era só beber em casa. Sair pra tomar uma, só mesmo levando alguém que sabia que não ia beber, porque estava encarregado de levar a galera toda pra casa depois da farra. Fiquei impressionada e vibrei de alegria. Finalmente as leis estavam começando a valer de verdade no Brasil. Mas como na nossa terrinha as leis nem sempre são levadas muito à serio, fiquei na expectativa e curiosa pra ver com meus próprios olhos como estava a situação.

A minha impress
ão foi que, como sempre, no Brasil a gente fala mais do que o que faz. A lei existe, as pessoas falam sobre ela, mas na prática todo mundo continua indo pros bares, bebendo e dirigindo. A única diferença é que agora as pessoas sabem que estão correndo risco de pagarem multa e que caminhos evitarem em quais dias e horários. Como o brasileiro tem muito jogo de cintura, também nem me admirei quando de repente no bar um amigo revela:"Ói galera! tá tendo blitz em frente ao Tereza!!!". Tinha recebido um torpedo de alguém que tinha acabado de passar por lá. Ou seja, a lei existe e parece que está sendo cumprida, mas todo cachaceiro que se preze tem muito amigo. E esses amigos sempre sabem onde está a blitz, de forma que durante o tempo em que estive em Salvador, não soube de ninguem que saiu pra tomar uma e foi pego pela polícia...

Aqui na Alemanha o quadro é outro. Como os alem
ães são os reis da lógica, eles se tocaram que nem adiantava criar uma Lei Seca, que não funcionaria. Optaram por serem realistas e tolerantes e a coisa funciona bem. Aqui na Alemanha existe uma tolerância de até 0,5 decigramas de álcool para cada litro de sangue. Isso significa que dá pra dar uma saidinha, tomar duas cervejas e ainda voltar dirigindo pra casa (1). No entanto, a lei aqui pode não ser seca, mas é muito dura e por isso se o bafo do bebum (ôpa foi mal aí) do motorista, revelar mais que a quantidade de álcool permitida, a carteira de habilitação é suspensa na hora. Por quanto tempo,o vai depender do tamanho da besteira que o motorista criou, assim como também da quantidade de álcool que ingeriu. E não para por aí: para reaver o direito de dirigir, a pessoa tem de passar por uma verdadeira humilhação, mas conhecida como "Idiotentest".

É isso mesmo: vocês n
ão leram errado, nem se trata de um falso cognato. É claro que esse teste tem um outro nome oficial, mas que ninguém usa (2). O termo empregado é o "Idiotentest" mesmo. Acho que isso já é feito de propósito pra matar a pessoa de vergonha e reinforçar que se você está na situação em que está, com a carteira de motorista retida por ter bebido alcoolizado, só porque foi muito idiota mesmo. A pessoa que passa por isso fica com esse carimbo pelo resto da vida, não só na sua ficha policial, como também entre seus amigos, que farão piadinhas sobre isso por toda eternidade. Por temerem tamanha humilhação as pessoas aqui evitam beber e dirigir apesar da lei ser até tolerante. Aqui as pessoas parecem ter consciência de que um copo puxa outro e pra evitar estrapolar o limite, nem começam a beber se tem de dirigir(3). Claro que pessoas irresponsáveis existem em qualquer canto do planeta e portanto existem aqueles que contam com a sorte, bebem e dirigem. Mas se um dia a sorte falha e eles se encontram com a polícia, as consequências são de fazer qualquer um ficar sóbrio imediatamente.

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(1) Amigos alem
ães me disseram que essa tolerância já foi de até 0,8!!! O suficiente pra, no meu caso, sair do bar trocando as pernas!!!

(2)Pra quem ficou curioso, o nome oficial do teste para idiotas é „Begutachtung der Fahreignung“ ou "Medizinisch-Psychologische Untersuchung". É mais fácil chamar de idiota...

(3) Muita gente simplesmente deixa o carro em casa. Mas isso é fácil em um país onde o sistema público de transporte é maravilhoso. Mas isso é assunto pra um outro post...