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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pra quem ama Salvador

Quem me conhece sabe que eu amo minha Salvador, minha cidade. Não é amor cego. É amor consciente mesmo. Eu a conheço bem e sei de suas qualidades e seus defeitos. Sou apaixonada por minha cidade e ainda consigo me emocionar quando retorno à meus lugares favoritos. A descida da Contorno e o Solar do Unhão são dois entre tantos. Não canso de dizer: Salvador é linda e emocionante.

Mas nem sempre as emoções que minha cidade do coração me proporcionam são do bem. Infelizmente muitas vezes ao chegar à Salvador, ao invés de ser lembrada das inúmeras histórias que me fazem rir e sorrir neste lugar, o que eu vejo são cenas tristes que deixam claro o quanto esta cidade está abandonada, entregue à própria sorte e porque não dizer, mal amada mesmo.

Ao andar pela cidade, somente uma palavra me vem à mente: abandono. Salvador está abandonada, mal cuidada, esquecida. São inúmeras praças que ninguém frequenta, parques dominados por assaltantes e usuários de crack. Tem muitas ruas desertas, sem iluminação. Muitas calçadas quebradas e pistas esburacadas. A cidade é cheia de beleza mal aproveitada, desperdiçada. A orla é um bom exemplo disso. Nunca vi tanto potencial tão mal aproveitado. A orla dos meus sonhos teria boa iluminação e por isso seria bem movimentada de dia e de noite. Teria a melhor cena noturna de Salvador, com barzinhos e boates para todos os gostos. Teria um calçadão amplo e bem cuidado. Teria policiamento, salva-vidas e sinalização em toda sua extensão.

Essa seria a orla de meus sonhos. Mas infelizmente a realidade está bem distante disso. Hoje pela manhã fui fazer uma caminhada por lá e fiquei triste ao ver a areia da praia cheia de lixo, os urubus fazendo a festa. À noite nem sei, porque já que tenho muito o que perder, não ando dando bobeira por lá. As imagens que vejo na cidade, não só na orla, me enchem de vergonha, às vezes me dão até vontade de chorar, não só de tristeza, de frustração também.

Entra prefeito e sai prefeito e a cidade fica cada vez mais triste. Mas eu sei que o problema da falta de cuidado e abandono de Salvador não é só dos prefeitos. É nosso também. E os soteropolitanos, na minha opinião tem se mostrado péssimos cidadãos. A praia que eu vi cheia de lixo estava assim não só por falta de coleta adequada, como também porque alguém jogou aquele lixo em algum lugar que não devia. A falta de amor dos soteropolitanos com Salvador não para por aí. Além de emporcalhar a cidade, a pessoas picham os monumentos, roubam as estátuas e as lâmpadas dos locais públicos, andam com seus cachorros nas praças e não recolhem as fezes dos bichos e por aí vai.

A conservação dos espaços públicos segue uma lógica interessante. Quanto menos conservado um local for, menos comprometidas as pessoas se sentem com ele. E quanto menor o compromentimento das pessoas com um lugar, maior a predisposição delas para quebrar, destruir e nem se importarem se outra pessoa fizer o mesmo. É um ciclo horroso que foi inclusive testado e comprovado por diversos cientistas. (Zimbardo 1969 e Wilson e Kelling, 1982)

Ciclos como esses, no entanto, podem e devem ser quebrados ou melhor ainda, substituídos por outros mais positivos. Pode-se começar pequeno, devagarzinho, simplesmente não jogando lixo por aí. Quer jogar alguma coisa fora? Procure uma lixeira, ou guarde o papel na bolsa até achar uma. Eu por exemplo ando com um saquinho na bolsa. Cansou de carregar lixo consigo? Vamos exigir da prefeitura mais lixeiras pelas cidade, coletas mais eficientes, explicações sobre como estão investindo o dinheiro de nossos impostos. Mas só dá pra fazer isso se a gente fizer nossa parte, né? Isso é cuidar da nossa casa, de nossa cidade. Você gosta de Salvador? Então demonstre.

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P.S. Em 1969 o time de pesquisa do professor Phillip G. Zimbardo da universidade de Standford nos Estados Unidos, abandonou dois automóveis idênticos e em bom estado em duas cidades com populações bem diferentes. Um foi largado no Bronx em Nova Iorque e o outro em Palo Alto na California. Em questão de horas depois de ser abandonado, o carro do Bronx ja começou a ser saqueado. Durante semanas o carro de Palo Alto permaneceu intacto. 

Teóricos conservadores se deleitaram porque puderam dizer com base científica que quanto mais pobre a região, maior a predisposição ao vandalismo. Só que aí professor Zimbardo foi lá e deu umas marretadas no carro de Palo Alto. O resultado foi que no mesmo dia pessoas (brancas de classe média, diga-se de passagem) começaram a fazer o mesmo que o pessoal do Bronx. Este experimento foi repetido por outros psicólogos, sociólogos e criminalistas, todos mostrando resultados semelhantes. Até que os sociólogos James Q. Wilson e e George L. Kelling lançaram a Teoria das Janelas Quebradas em 1982 que resumidamente diz que quanto mais descuidado um local for, maior a probabilidade da ação de vândalos. Quando o descuido de uma região acaba "expulsando" o cidadão comum, com o tempo ele passa a ser ocupado por desordeiros. Muito interessante, vale à pena ler.:

KELLING, George; COLES, Catherine M. Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities. New York: Free Press, 2003.

Zimbardo, P. G., (1969). The human choice: Individuation, reason, and order versus deindividuation, impulse, and chaos. Nebraska Symposium on Motivation, 17, 237-307.


sábado, 27 de julho de 2013

Happy Birthday

Em 1980 Steve Wonder lançou o que acabaria se tornando a minha música de aniversário favorita. Quando penso no aniversário de alguma pessoa querida ou no meu próprio, é sempre essa musica que me vem à cabeça. Quando ela foi lançada eu era uma pequena peruinha de quatro anos de idade e por isso não tinha noção que além de linda, essa música tem um significado muito especial. Hoje em dia, não só gosto da música, como me arrepio toda vez que escuto.

O aniversariante da música é Martin Luther King Jr., líder religioso e do movimento por igualdade racial nos Estados Unidos. Ele estava à frente da Marcha à Washington onde fez o celebrado discurso (I Have a Dream) que anos depois viraria mantra das aspirações sociais no mundo inteiro. Em 1968 ele foi assassinado e desde então começaram a surgir diversas campanhas pedindo um dia dedicado a sua homenagem.

Não me perguntem por que, mas no início os americanos resistiam em aceitar o feriado com o nome de Martin Luther King's Day. Aliás eu sei porque, mas deixa quieto por enquanto que neste post eu só queria mesmo falar de uma música de aniversário que eu adoro. O fato é que durante anos, alguns estados comemoravam essa data apenas com o nome de Civil Rights Day. Várias campanhas prosseguiram tentando convencer as pessoas a adotar o feriado com o nome que ele tem hoje - dia de Martin Luther King -  e essa música de Steve Wonder faz parte dessa campanha. Em 2000, finalmente o feriado passou a ser comemorado em todo os Estados Unidos com o nome do homenageado.




segunda-feira, 15 de julho de 2013

Racismo: também está quando você não vê - por Larissa Santiago

A notícia foi de cinco dias atrás, mas repreduzo mesmo assim porque ainda está me indignando. Colei abaixo o texto de Larissa Santiago. Leiam e pasmem...


A notícia de hoje (10/07/2013) do Jornal Tribuna Hoje informa que a UFMG instaurou um processo administrativo contra 198 estudantes da Faculdade de Direito que participaram, em 15 de maço desse ano, de um trote na mesma Faculdade.

O curioso é que nenhuma menção a racismo, preconceito ou nazismo foi utilizada na processo. Os 198  estudantes serão processados por comercialização e distribuição de bebida alcoólica.
 Isso mesmo, senhores! A comissão da sindicância formada por três professores da Faculdade de Direito e analisada pela Advocacia Geral da União elaboraram um documento em que NADA do que aconteceu é mencionado/relacionado à racismo ou crime de ódio.

Apagamento também é racismo: quando a sociedade tenta, em resposta a uma atitude racista, esquecer, apagar ou diluir a discussão sem dar voz as pessoas que foram e são vítimas e reconhecem o preconceito, ela também está sendo racista. Negar o fato e esquecer que o que aconteceu faz parte de um histórico de regime colonial, separando o Trote do seu contexto sócio-cultural também é racismo. Não se retratar, não admitir o erro ou reconhecer que existe na estrutura de qualquer e toda instituição ou pessoa resquícios de um passado escravista também é racismo.

O que a comunidade de mulheres negras quer saber é: até quando o protecionismo, o negacionismo e o falso mito de democracia racial reinará sobre a justiça e equidade?
Até quando mascarar as atitudes racistas arraigadas no cotidiano das Universidades e Instituições públicas vai fazer com que as feridas deixadas pela opressão se fechem?
Onde chegaremos enquanto o corporativismo mesquinho entre instituições públicas fazem questão de varrer para debaixo do tapete o lixo tóxico do preconceito e ódio racial que está mais que aparente naquele trote?

Não nos calaremos até que a resposta seja justa. Não deixaremos de falar até que a UFMG trate com seriedade e justiça o caso do último 15 de março.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Virando alemã - Parte II Nome Sujo

Onde eu estava mesmo? Ah tá, eu estava sentada na frente de uma funcionária bem sisuda no departamento de naturalização, tendo uma insana discussão sobre acentos. Quem ainda não sabe como essa estória começou, pode ler a primeira parte da estória aqui. Depois de ter mostrado minha certidão de casamento na tentativa de convencê-la de que meu nome nunca tinha sido escrito com um acento a tal funcionária insistiu que não poderia consertar meu nome e pronto e o motivo foi inacreditável.

Algum inseto alado (que deus o tenha) encontrou seu final trágico, provavelmente esmagado pelo peso de algum livro ou coisa semelhante (a exata causa mortis nunca será esclarecida) bem em cima de minha certidão de casamento. Em seus últimos momentos de vida, o pobre coitado teve parte de seu corpo arrancada. Onde ele foi parar, nunca saberei, mas um fragmento do que uma dia tinha sido sua asinha ficou alí, colado em meu documento e se alguém quisesse muito, poderia confundi-la com um acento. E parece que funcionária que me atendeu queria.

Insisti "isso é uma mancha" ao que a sisuda funcionária retrucou "é um acento". Depois de vários "é claramente uma mancha", "não, é óbviamente um acento",  o poder da autoridade venceu. Recebi um papel com uma série de instruções burocráticas que deveria seguir para ter meu nome corrigido, uma cópia da constituição alemã, um sorriso forçado porém aberto demais e um aperto de mão demasiadamente firme, acompanhado da seguinte frase :"Com isso te declaro cidadã alemã. Parabéns." Depois disso, a funcionária, que eu vou passar a chamar de Gretel pra facilitar, me estendeu o certificado com meu nome sujo e me deu um olhar que queria dizer "ok, este atendimento está encerrado. Por favor se retire pra que eu possa tomar meu café em paz".

Saindo dali, percebi que o tempo todo estava fazendo um esforço enorme para conter o riso diante do ridículo da situação inteira. Os motivos que Gretel achou pra se recusar a corrigir meu nome foram realmente surreais e pra mim foi como uma verdadeira comédia de erros. Fale sério: primeiro ela se recusa a corrigir meu nome porque existem acentos agudos pelo mundo. Depois porque o mesmo acento que eu estava me negando a aceitar constava no nome da cidade na qual meu marido nasceu e finalmente porque confundiu sujeira com acento. Na moral, essas coisas só acontecem comigo. Na saga kafkaniana que se seguiu até que eu conseguisse limpar meu nome, TODOS os funcionários para os quais tive de explicar minha situação deram muita risada às minhas custas e no final da saga uma delas me disse que Gretel foi uma filha da mãe por não ter corrigido minha certidão logo de cara. E disse mesmo "Minha colega foi bem intransigente, hein? Se eu tivesse lhe atendido teria corrigido. Uma coisa dessas se faz em menos de cinco minutos".

Bem, deixa pra lá. Vai ver que Gretel no fundo sabia que eu tenho um blog e que adoro contar estórias. O final desta, pelo menos é feliz. Voltei a ser Cristiane sem h, sem acento e sem inseto. De nome limpo, brasileira, baiana, soterolopolitana e ainda posso acrescentar, cidadã alemã de Bremen.

Meu kit alemã: caneca de cerveja (BierMass), camisa da seleção e meu novo passaporte.






domingo, 23 de janeiro de 2011

Verdadeiro ou Falso - Transporte Público

Conforme prometido no meu post anterior, acaba de ser inaugurada aqui a seção Verdadeiro ou Falso. Com essa brincadeira eu pretendo oferecer algumas informações práticas e meu ponto de vista sobre certos assuntos que parecem meio confusos pra quem não conhece a Alemanha tão bem. Espero também com isso  gerar discussões e questionar esteriótipos. 

Tansporte Público:

O que dizem por aí: "Os metrôs na Alemanha não tem catraca nem cobrador. Você compra passagem se quiser. Ninguém tá nem aí se você comprou ou não o bilhete."

Falso e pode doer no bolso. Os transportes públicos na Alemanha realmente não tem catraca nem cobrador, mas têm essa maquininhas dentro dos bondes e de alguns ônibus.
Máquina onde se pode comprar a passagem com um cartão especial.
Máquina onde se pode validar a passagem.

Caso no ônibus não haja uma dessas máquinas, o passageiro deve dirigir-se ao mototrista e comprar a passagem diretamente com ele. Depois de adquirido o ticket com o motô, ele deve ser validado através de um carimbo da segunda máquina, a vermelhina. Aqui em Bremen o sistema está em transição.  A intenção é de automatizar todo o processo de compra de bilhetes e por isso os ônibus mais novos tem as máquinas de compra e os mais velhos muitas vezes não. Detalhe que muitas dessas maquininhas de compra - a azul, só lhe vende a passagem se você tiver um cartão especial para esse fim. Caso não tenha, tem de comprar a passagem com o motô também e não se esquecer de validar.

Comprar uma passagem de ônibus ou bonde aqui em Bremen é uma coisa extremamente confusa e impossível para um turista que não fala alemão decifrar. São raros os postos de informações, o caminho para chegar até eles só é indicado em uma pequena área do centro da cidade e é raro achar alguma informação em inglês. Em defesa da Alemanha tenho a dizer que eles tem se esforçado bastante pra melhorar isso em  cidades menores como Bremen e nas maiores como Berlim, Colônia ou Hamburgo creio que inglês não seja um problema. Mas os ônibus e bondes sim!

Apesar de não ter um cobrador dentro dos ônibus e bondes, existe aqui o que se chama de Kontrolleur nos bondes e ônibus ou Schaffner nos trens. Eles são os controladores de passagem e entram nos transportes públicos em grupos de três a cinco e passam conferindo se os passageiros tem bilhete de um por um. Caso  alguém não tenha, quando eles estiverem controlando, se ferrou. Além de ser convidado a sair do ônibus no exato momento, o individuo vai ser multado num valor de mais ou menos 60 Euros (o valor exato varia de cidade pra cidade, do tipo de transporte e se você não comprou mesmo ou esqueceu se ticket em casa . Ainda tem essa...).

Resumindo, não é bem assim que a compra da passagem é opcional e as pessoas compram somente porque tem a consciência de que é o certo a se fazer. Compram porque contam com a possibilidade de encontrarem um controlador no caminho e faz muito mais sentido pagar entre 1,70 à 2,50 Euros do que correr o risco de pagar tão caro pela passagem.

Quando minha mãe veio me visitar aqui, passou  15 dias circulando toda Bremen de ônibus, comprando passagem e não encontrou um só controlador durante todo esse tempo. Saiu daqui  também com a sensação de que a compra da passagem era opcional. Mas como vocês agora sabem, não é, portanto quando vierem a Alemanha procurem rapidinho se informar, de preferência logo na rodoviária quanto custa o bilhete. Existe uma variedade de opções também; desde os que valem por um dia inteiro aos que valem por um mês sem limite de quantas viagens fizerem. Existem bilhetes  individuais e família. Procurem  se informar logo na estação antes de desbravarem a cidade, porque como eu falei, nem sempre é fácil encontrar informação depois que se sai dos centros de movimento e para a mentalidade alemã ignorância não isenta ninguém das consequências. Ou seja, se for pego pelo controlador sem bilhete, dizer que não sabia, que não estava sinalizado, que o funcionário não explicou direito, não vai te livrar de receber a multa. Para o alemão se a informação está disponível em algum lugar, cabe a você descobrí-la e agir de acordo com ela.

Para um turista desavisado parece cruel, mas na vida prática tira o peso de muitas intituições e coloca o poder e responsabilidade diretamente nas mãos dos cidadãos. Então é isso, vou ficar por aqui e para todos vocês uma boa viagem!

sábado, 10 de outubro de 2009

Teste de idiotice

Quando cheguei em Salvador, estava curiosa pra ver como as pessoas estavam lidando com a Lei Seca. Logo que ela começou a valer, meus amigos comentaram que não estavam mais saindo pra beber porque o controle estava grande. A alternativa era só beber em casa. Sair pra tomar uma, só mesmo levando alguém que sabia que não ia beber, porque estava encarregado de levar a galera toda pra casa depois da farra. Fiquei impressionada e vibrei de alegria. Finalmente as leis estavam começando a valer de verdade no Brasil. Mas como na nossa terrinha as leis nem sempre são levadas muito à serio, fiquei na expectativa e curiosa pra ver com meus próprios olhos como estava a situação.

A minha impress
ão foi que, como sempre, no Brasil a gente fala mais do que o que faz. A lei existe, as pessoas falam sobre ela, mas na prática todo mundo continua indo pros bares, bebendo e dirigindo. A única diferença é que agora as pessoas sabem que estão correndo risco de pagarem multa e que caminhos evitarem em quais dias e horários. Como o brasileiro tem muito jogo de cintura, também nem me admirei quando de repente no bar um amigo revela:"Ói galera! tá tendo blitz em frente ao Tereza!!!". Tinha recebido um torpedo de alguém que tinha acabado de passar por lá. Ou seja, a lei existe e parece que está sendo cumprida, mas todo cachaceiro que se preze tem muito amigo. E esses amigos sempre sabem onde está a blitz, de forma que durante o tempo em que estive em Salvador, não soube de ninguem que saiu pra tomar uma e foi pego pela polícia...

Aqui na Alemanha o quadro é outro. Como os alem
ães são os reis da lógica, eles se tocaram que nem adiantava criar uma Lei Seca, que não funcionaria. Optaram por serem realistas e tolerantes e a coisa funciona bem. Aqui na Alemanha existe uma tolerância de até 0,5 decigramas de álcool para cada litro de sangue. Isso significa que dá pra dar uma saidinha, tomar duas cervejas e ainda voltar dirigindo pra casa (1). No entanto, a lei aqui pode não ser seca, mas é muito dura e por isso se o bafo do bebum (ôpa foi mal aí) do motorista, revelar mais que a quantidade de álcool permitida, a carteira de habilitação é suspensa na hora. Por quanto tempo,o vai depender do tamanho da besteira que o motorista criou, assim como também da quantidade de álcool que ingeriu. E não para por aí: para reaver o direito de dirigir, a pessoa tem de passar por uma verdadeira humilhação, mas conhecida como "Idiotentest".

É isso mesmo: vocês n
ão leram errado, nem se trata de um falso cognato. É claro que esse teste tem um outro nome oficial, mas que ninguém usa (2). O termo empregado é o "Idiotentest" mesmo. Acho que isso já é feito de propósito pra matar a pessoa de vergonha e reinforçar que se você está na situação em que está, com a carteira de motorista retida por ter bebido alcoolizado, só porque foi muito idiota mesmo. A pessoa que passa por isso fica com esse carimbo pelo resto da vida, não só na sua ficha policial, como também entre seus amigos, que farão piadinhas sobre isso por toda eternidade. Por temerem tamanha humilhação as pessoas aqui evitam beber e dirigir apesar da lei ser até tolerante. Aqui as pessoas parecem ter consciência de que um copo puxa outro e pra evitar estrapolar o limite, nem começam a beber se tem de dirigir(3). Claro que pessoas irresponsáveis existem em qualquer canto do planeta e portanto existem aqueles que contam com a sorte, bebem e dirigem. Mas se um dia a sorte falha e eles se encontram com a polícia, as consequências são de fazer qualquer um ficar sóbrio imediatamente.

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(1) Amigos alem
ães me disseram que essa tolerância já foi de até 0,8!!! O suficiente pra, no meu caso, sair do bar trocando as pernas!!!

(2)Pra quem ficou curioso, o nome oficial do teste para idiotas é „Begutachtung der Fahreignung“ ou "Medizinisch-Psychologische Untersuchung". É mais fácil chamar de idiota...

(3) Muita gente simplesmente deixa o carro em casa. Mas isso é fácil em um país onde o sistema público de transporte é maravilhoso. Mas isso é assunto pra um outro post...