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domingo, 22 de junho de 2014

Sem medo de ser triste

Escravo da Alegria é uma música de Toquinho e Vinicius que eu amo, mas que ultimamente tem me irritado um pouco quando escuto. A questão é que hoje em dia, ao contrário do que eles cantam, ser ou (pior ainda) parecer estar feliz, não só é normal como uma verdadeira obrigação. Só que aqui entre nós, isso é uma farsa que além de cansativa, ninguém aguenta manter.




Antes de continuar, deixa eu esclarecer uma coisa: A-D-O-R-O a alegria, acho bacana ser feliz e prefiro o riso ao choro, sempre. Na verdade, não tenho problema nenhum em dizer que me considero uma pessoa hilária e constantemente recebo confirmações disso através de meus amigos e conhecidos. Muita gente ri das besteiras que falo, me diz que eu sou engraçada etc. Minha sogra (vejam bem, MINHA SOGRA!!!) me chama carinhosamente de "Solzinho" porque segundo ela quando eu apareço todos sorriem. Que meigo, né? Pois é. Isso é a prova de que eu sou do time do alto-astral.



Mas mesmo sendo fã da leveza e da felicidade, eu ainda acho que o ser humano tem direito ao mau humor e mais importante ainda, à tristeza e à melancolia. Fazer de conta que esses sentimentos não existem faz mal à saúde e à qualidade dos relacionamentos que temos com outras pessoas. Ao meu ver, viver em um mundo no qual só se pode sorrir e ser feliz, mesmo quando nosso coração nos diz que estamos tristes, faz tão mal à alma quanto quando só se odeia, só se desespera, chora e se fala de coisas ruins.



Nossos sentimentos negativos também tem uma razão de ser. Sou a favor de tentar exergá-los de forma crítica, de tentar entendé-los e significá-los. Acredito que é simplesmente neurótico viver negando suas manifestações e que é mais saudável aceitar que eles existem tanto em nós quanto nos outros e que de vez em quando, temos de lidar com eles e senti-los mesmo.



É interessante que hoje em dia se fala tanto em ser feliz, existem tantos adeptos da alegria contínua e positividade incondicional e que no entanto as pessoas reclamem tanto da vida, dos vizinhos, do trabalho, das festas que frequentam, dos seus relacionamentos... Eu acho que isso é sintoma de uma sociedade meio fútil, que é obcecada com tudo que é rápido e superficial. Não dá tempo de ser ou sentir nada de verdade, só de parecer e de mostrar. Acaba que proibimos nossa tristeza de dar as caras e nossa alegria nem é assim tão feliz quanto parece.



Nossos sentimentos negativos são excelentes professores que se bem observados podem nos ensinar lições valiosíssimas sobre quem verdadeiramente somos. Só que para aprender suas lições é preciso paciência, determinação, disposição para refletir e ir fundo nas questões que vão surgindo desse contato. Mas isso custa tempo, dá trabalho e muitas vezes é doloroso. O que é uma pena, porque quando não negamos nossa tristeza, nossa raiva, nossas confusões, nossas vulnerabilidades, ficamos mais leves, mais completos, mais interessantes e até mais humanos. Sei lá, acho que até nossa felicidade quando vem, é mais autêntica.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Caridade

Recentemente um milionário estadunidense começou uma brincadeira de esconder dinheiro por Los Angeles e São Francisco numa espécie de caça ao tesouro. Tudo que se sabe dele é que tem entre 35 e 45 anos, que sua fortuna vem do setor imobiliário e que ele dá dicas sobre os lugares onde esconde o dindin através de uma conta no tweeter. Um amigo meu estava me contando que muitas das pessoas que encontram a grana, escrevem pra ele agradecendo e contando como usaram o dinheiro. A maioria acaba gastando pelo menos parte dela ou com outros participantes da caçada ou em outras boas ações.



Esse acontecimento acabou virando um assunto recorrente tanto em meu círculo de amigos como em minhas turmas. Comecei a ouvir muita gente criticando e questionando esse tipo de brincadeira e outras formas de caridade. Muita gente acha realmente ridículo e considera duvidosa a motivação por trás desse tipo de atitude. Um aluno iniciou uma discussão, que rendeu pano pra manga, na qual ele debateu calorosamente as questões morais por trás do que leva pessoas, principalmente em países desenvolvidos, a promover eventos de caridade chiquérrimos para arrecadar doações para alguma instituição. Outros deram exemplos de pessoas que fazem trabalhos voluntários só pra se auto-promover e posar de bom moço. Meteram também o pau nas pessoas que ajudam alguma organização somente com o intuito de ter uma coisa social pra colocar no currículo e com isso se destacarem no processo de seleção de alguma universidade de prestígio ou vaga de emprego concorrida.



Eu entendo as críticas. No mundo ideal, nossa motivação para ajudar o próximo deveria ser a mais pura bondade de nossos corações e o desejo genuíno de ajudar alguém e não só se aparecer ou o pensamento de que vantagens aquela experiência irá nos trazer. Mas isso seria em um mundo ideal, que todo mundo sabe, o nosso está longe demais de ser. Senti um certo incômodo durante toda aquela discussão e acabei por me fazer outro questionamento completamente diferente: por que a gente se apressa tanto em julgar a motivação dos outros?



Tudo bem, doar dinheiro pra uma organização porque a gente sabe que vai poder abater do imposto de renda pode até soar meio egoísta. Eu de fato acho uma pena que nós chegamos a um nível de egoísmo tal que ajudar alguém só entra em questão se pudermos de alguma forma tirar proveito da situação, mas ainda assim, eu nunca ouvi dizer que uma intituição de caridade já tenha recusado um cheque de alguém por que soube que a intenção de quem estava doando era meio mesquinha

Muitas instituições dedicadas a ajudar lidam com falta de recusos e não com excesso de doações e ajuda de pessoas egoístas, só interessadas em tirar onda. Uma vez entrei em contato com uma organização que eu queria ajudar e sem eu ter perguntado qualquer coisa, eles foram bem rapidinhos em me informar todas as vantagens que eu poderia ter ao dar minha contribuição. Ou seja, uma espécie de "pouco me importa qual a sua intenção, me ajude por favor! Vai ser bom pra você também".



Nosso mundo anda muito carente de boas ações. A gente passa muito tempo fazendo e se ocupando de inutilidades e enquanto isso as questões importantes do mundo estão aí se multiplicando e passando da hora de receberem atenção de verdade. Muita gente usa e abusa da capacidade de refletir e criticar. Nos habituamos a ficar procurando o que há por trás de tudo como se os eventos da vida fossem uma interminável fila indiana e nesse processo esquecemos de adicionar um pouco de ação ao processo todo. Nossa habilidade de pensar de forma crítica vira julgamento e já que esses julgamentos que fazemos dos outros quase nunca vem acompanhados de sugestões de como proceder melhor, o resultado é esse que temos aqui: uma classe média e elite mundial altamente arrogante super rápida ao julgar os outros, mas inerte, inútil e pouco crítica em relação a si mesma.



Talvéz eu esteja sendo ingênua em acreditar que se comprometer com a alguma causa ou com alguém que precise de ajuda seja mais importante do que os motivos que levam alguém a fazer isso. Eu prefiro ser ingênua do que amarga. Mas como sei que fazer julgamentos faz parte do ser humano, aqui vai o meu: acho a maior besteira essa mania de criticar tudo, e olha que eu adoro criticar também. Criticar é bom e todo mundo gosta, mas a gente precisa aprender a determinar prioridades. Já que não dá pra se ter boa intenção e boa ação ao mesmo tempo, permitam que pelo menos as boas ações continuem sendo feitas. E ao invés de ficar parado, só criticando motivações dos outros, que tal descer do pedestal, arregaçar as mangas e ajudar também?

sábado, 17 de maio de 2014

Outra discussão

Uma das coisas mais gostosas deste mundo é filosofar com os amigos. As boas discussões nos enriquecem, nos fazem crescer, abrem portas para outros mundos. Nos bons debates um fala, o outro realmente escuta e logo depois contribui com o seu ponto de vista, que quanto mais diferente melhor! Uma boa discussão não precisa terminar com as duas partes concordando. Só precisa mesmo que elas se escutem e se respeitem.

A impressão que eu tenho é que o ser humano perdeu a habilidade de discutir. Quantas e quantas vezes participo ou observo conversas nas quais as pessoas acham que estão tendo uma discussão, mas não estão. São aqueles momentos em que você nota que a pessoa não está dando a menor bola pro que você está falando e sim articulando em sua cabeça o próximo contra argumento pra derrubar o seu. Isso não é discussão e sim monólogo. Tem tanta gente tão convencida da própria opinião que não importa quanto tempo vocês discutam, nada chega do outro lado, nada do que se diz deixa rastros de curiosidade ou espaço pra os questionamentos se formarem. Na minha opinião esses são os convencidos e arrogantes.Pessoas assim acham que discutir é tentar catequizar os outros e impor suas opiniões. Quem é assim normalmente vê as discussões como um jogo ou uma guerra que precisam vencer custe o que custar.

Além dos doutrinadores de plantão, existem os mal educados que acham que discutir é xingar, baixar o nível, desejar o mal aos outros. Desses aí a internet anda cheia! É o que mais se vê nas redes socias. Alguém comenta alguma coisa e sempre aparece alguém que tem uma opinião contrária, chamando o outro de ignorante, imbecil e outras coisas piores. As vezes dá o maior desanimo de conversar com gente assim.

Mas não acho bom se deixar levar pelo desânimo e contantemente fugir desses confrontos. Sempre se isentar de opinar e contradizer, muitas vezes tem o mesmo efeito que concordar com uma opinião contrária. Então o que temos de fazer é saber escolher bem os momentos de nos expressar e reaprender a discutir. O problema é que pra saber discutir bem a gente primeiro precisa saber no que a gente acredita, mas ao mesmo tempo ter humildade de reconhecer que mesmo muitas de nossas convicções mais fortes tem o potencial de estarem equivocadas em algum contexto diferente.

Hoje em dia, com toda a facilidade e rapidez com a qual a gente pode obter e divulgar informações é absolutamente fundamental treinar nossa habilidade de refletir e processar aquilo que chega até nosso conhecimento antes de sair por aí professando nossas "verdades". É o antigo "parar um pouco pra pensar" para só depois disso integar esses novos conceitos a nosso repertório de certezas. Depois de estar consciente daquilo que a gente acredita, chega a hora de exercitar o hábito de ouvir o outro com ouvidos, mentes e corações abertos. No final ainda nos restam algumas escolhas, como por exemplo, reconhecer que o ponto de visa do outro faz mais sentido do que o nosso e mudar nossa forma de pensar, fazer algumas adaptações no que acreditamos ou deixar tudo como está.

Quanto a gente consegue atingir esse nível de responsabilidade com nossas opiniões e respeito com a dos outros, debater se torna uma atividade interessante, educativa e renovadora. Mas infelizmente em nossos tempos de correria, falta de amor e respeito ao próximo, nossa arrogância e superficialidade não nos permite perder muito tempo com isso. A única coisa que importa é achar a forma mais rápida de terminar a discussão que nos contraria nos sentindo vitoriosos. Quer forma mais fácil de conseguir isso do que dizer: "É nisso que eu acredito e quem não pensa igual a mim é idiota, portanto que vá tomar naquele canto e fim de papo"?


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Motivação

Passei um tempão paradona, sem postar nada, mas não por falta de idéias. Tem dias que estou fazendo as coisas mais rotineiras do mundo, tipo tomando banho ou lavando os pratos e de repente uma idéia ou lembrança chega de fininho e quando menos espero tenho um texto completo, fluindo sem dificuldade alguma em meu pensamento. Nessas horas me vem a vontade de parar tudo e sair correndo postar, mas logo logo desisto de fazer isso por pura falta de motivação. Blogar pra quê?

Mas a motivação tem me intrigado muito nos últimos tempo. Que força poderosa é essa? Uma pessoa motivada é capaz de coisas inacreditáveis. Motivação muitas vezes parece até milagre porque ela faz muitas pessoas conseguirem transformar o impossível.

Claro que existem vários tipos de motivação, mas o que tem me interessado no momento não é exatamente o que nos motiva e sim do que somos capazes quando achamos algo que faça sentido pra gente. De vez em quando estou sem motivação nenhuma. Acho que todo mundo passa por isso uma vez ou outra. Quando isso acontece pra mim fico me sentindo cansada, impaciente com tudo, faço o que tem de ter feito contando os minutos pra acabar. O dia a dia fica meio sem graça...

Quando estou motivada me sinto diferente. Essa diferença está no meu olhar, na forma como falo daquilo que realizo por causa dessa motivação, minha postura muda literalmente. Pode ser besteira, mas gosto mais de mim quando estou motivada. Me sinto mais feliz.

Comecei a perceber motivação (e das boas o que é melhor ainda) por toda parte. Nos meus alunos, que chegam sorrindo pra uma aula às sete da noite depois de um dia inteiro de trabalho, na minha sobrinha linda que me encontra na biblioteca na sexta-feira à tarde depois da escola pra estudar, na minha comadre que depois de um dia inteiro com três crianças pequenas consegue sair e ir treinar pra uma maratona, no meu companheiro que apesar de seu dia a dia cansativo entre escola e sindicato ainda planeja trabalho voluntário nas férias, na mulher desconhecida da academia que vai malhar levando seu bebê no carrinho...

Observar pessoas motivadas assim me inspira. Então à todas as pessoas que conseguem se manter assim, aqui vai minha admiração e muito obrigada por me ajudarem a reencontrar a minha.

P.S.: Jujuba, esse texto na verdade é pra você. Você foi a primeira motivada que comecei a observar e confesso que sua atitude com a sua vida atual e com suas perspectivas para o futuro me inspiraram e me ajudaram a reencontrar minha própria motivação. Estou muito orgulhosa de ver o quanto você está determinada. Sua força de vontade e a forma como você trabalha duro são qualidades admiráveis em qualquer idade e em alguém tão jovem quanto você é simplesmente impressionante. Sua tia aqui torce muito pelo seu sucesso:-)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Minha bolha cor-de-rosa

Toda vez que eu venho ao Brasil acabo ficando mais ativa nas redes sociais. Meus poucos amigos alemães que utilizam Facebook, vivem reclamando que eu só posto em português e eles não podem acompanhar nada. Mas eu tenho uma explicação: meus amigos brasileiros são mais ativos nas redes sociais, compartilham mais, comentam mais, curtem mais. Olhar o Facebook acaba sendo uma experiência massa, como um grande bate-papo com a galera.



Ao ficar mais ativa no Face (já peguei até intimidade, tá vendo?), comecei a perceber os tantos outros usos legais desse meio que não só brincar e ficar trocando bobagens com os amigos. Comecei a fazer parte de comunidades e grupos de discussão e com isso ler mais, conhecer mais, estudar mais. E não foi só isso. Quando perdi a timidez nas redes sociais e passei a comentar também, voltei a exercitar a habilidade de debater e de argumentar. Como se isso já não fosse muito bom, conheci muita gente bacana que hoje me arrisco até a chamar de amigos, apesar de alguns deles só conhecer mesmo pelas fotos disponibilizadas em suas páginas.



Mas isso é o que me dá a certeza de que atrás da imaterialidade do Facebook, existem pessoas de verdade, com estórias de vida, famílias, empregos, dramas e tudo mais, iguaizinhos a mim e a você. Essas pessoas, assim como nós, riem sofrem e se ofendem. Por isso eu realmente me assusto muito ao ver o nível de crueldade de certos comentários e posts no Facebook.



A sensação de segurança e anonimidade que as pessoas tem atrás de seus computadores lhes dá um certo sentimento de segurança, então elas terminam por sentirem à vontade pra digitar coisas que não diriam da mesma forma se a conversa fosse cara a cara. E aí começa o festival dos horrores. É gente desejando a morte alheia, culpando vítimas de estupro por terem sido estupradas, dizendo que não viram racismo quando ele está mais do que óbvio, chamando vítimas de discriminação de paranóicas, falando que a luta feminista é mimimi e muita, mas muita baixaria mesmo.



Mesmo quando a pessoa tem um posicionamento que eu considere reacionário ou que de qualquer outra forma não coincida com meu ponto de vista, é interessante discutir. Na verdade esses são os verdadeiros debates. É importante ouvir outras visões de mundo, nem que isso sirva somente pra fortalecermos nossos argumentos. Mas tudo isso pode e deve ser feito com repeito, pelamordedeus!!!



Quando eu vejo a agressividade com a qual as pessoas reagem aos posts umas das outras eu percebo que todos esses anos eu vivi em uma bolha cor-de-rosa na qual só existiam amigos e pessoas tranquilas, que sabem discordar e expor suas opiniões contrárias sem ofender. De repente estou dando de cara com um mundo cruel, cheio de pessoas mal-educadas e insensíveis. Que triste, viu? Quero minha bolha de volta!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lidando com o racismo: os jovens do Instituto JCPM em Salvador

Mês passado fui convidada para um bate-papo com os jovens do Instituto JCPM em Salvador. Este convite, que me pegou de surpresa e me encheu de felicidade, foi feito depois dos educadores do projeto terem trabalhado meu texto "Lidando com o racismo" em sala. Antes de ir falar com eles, eu já tinha lido as cartas que estes jovens escreveram para mim. Nelas, além de relatarem suas impressões sobre meu texto, eles me contaram suas próprias experiências com racismo.

Lá fui eu então conhecer os jovens e falar com eles. Estava meio nervosa, sem saber o que esperar, mas me sentindo extremamente honrada pelo convite e ao mesmo tempo bem ciente do tamanho da responsabilidade que vinha com esta honra. Olhar para eles e ouvir o que tinham a dizer me fez lembrar da adolescente que eu fui, cheia de energia, dilemas e inseguranças próprias dessa fase da vida e, como se isso não fosse suficiente, ainda tendo de lidar com questões de preconceito. O encontro com eles me fez pensar muito sobre os processos que temos de passar ao crescer em uma sociedade hipócrita como a nossa. Depois da conversa com eles, fiquei pensando muito sobre o seguinte:
  1. Questão de identidade racial
O brasileiro é um povo todo misturado. A gente cresce ouvindo isso à exaustão e é verdade mesmo: somos misturados. No entanto, apesar dessa miscigenação toda, na maioria dos casos é possível identificar quem é negro e quem não é, tanto que há discriminação. Ou seja, crescemos ouvindo que somos iguais, mas o mundo nos diz que somos diferentes de uma forma bem negativa.

Como ninguém gosta de ser associado a coisa ruim, é natural que surjam jeitinhos de tentar minimizar a forma negativa como somos percebidos. É aí que entram as tão pervesas estratégias de branqueamento. Desta forma, muito negro acaba virando moreno, moreninho, cabo-verde e por aí vai. Quando perguntei quem dentre eles se considerava negro, um número surpreendente de negros não levantou a mão. É sem dúvida nenhuma uma pena que nossa educação social ainda não tenha encontrado modos de fortalecer a identidade racial de crianças e adolescentes para que ninguém precise se envergonhar de ser quem é.
  1. Auto rejeição
Tanto nas cartas quanto no encontro, os jovens relataram suas experiências chocantes com o racismo. Aquelxs meninxs, entre 16 e 24 anos, já foram seguidos por seguranças de loja e shopping centers, negadxs atendimento em loja, ignoradxs quando tentavam obter algum serviço, abusadxs verbalmente com palavras tão duras que eu me recuso a repetir aqui e humilhadxs de diversas outras formas diferentes, antes mesmo de se tornarem adultos no sentido pleno da palavra e da experiência. Não precisa ser nenhum gênio para entender quantos danos isso pode causar ao emocional e psicológico de um ser humano que cresce tendo de lidar com isso.

Da mesma forma, dá pra entender porque a indústria do alisamento/relaxamento de cabelos movimenta milhões em qualquer lugar do mundo. Tem mães por aí, que com a intenção nobre de proteger e cuidar, ficam contando os dias até finalmente poderem começar a relaxar os cabelos das filhas. E assim, ao invés de aprender a nos amarmos e aceitarmos como somos, acabamos por internalizar a idéia de que nosso cabelo é "ruim" e que precisa ser domado. Como se isso já não fosse suficientemente triste, constatei que muitos daqueles jovens negros consideram as palavras "negro" e "preto" xingamentos. Que triste crescer em uma sociedade que te ensina a rejeitar até mesmo os termos que definem sua identidade.
  1. A negação do problema
Uma das formas mais maquiavélicas de garantir a perpetuação do racismo é negar que ele existe. Esta é uma estratégia cruel porque cega toda a sociedade para o problema e torna o seu combate tarefa impossível. Afinal de contas, como solucionar um problema que não existe? O mais lamentável é perceber que essa armadilha bem montada pega qualquer um, até mesmo nós, os negros. Fiquei comovida ao ouvir um menino dizer que ele sempre achou que nunca tinha sido alvo de racismo, até darem início às discussões sobre o tema em sala. A partir daí ele começou a relembrar situações do passado e pôde constatar que já tinha sido discriminado sim, inúmeras vezes.

O encontro com os educadores e jovens desse instituto foi uma experiência riquíssima em minha vida. Recebi muito carinho e tive a oportunidade de mais uma vez confirmar o quanto é importante despertar a atenção das pessoas para questões sociais e de identidade o quanto antes. É fundamental estimular as crianças desde bem cedo a se amarem e se aceitarem exatamente como são, e a nunca duvidarem de sua importância e do seu valor no mundo. Também é importante estimular o quanto antes o interesse em conhecer a própria história para melhor entender sua realidade atual. A pessoa que cresce sendo incentivada dessa forma, muito provavelmente se tornará um cidadão seguro, consciente de sua importância e sensível para as questões e os dilemas de outros seres humanos. E não é assim que se forma uma sociedade verdadeiramente igualitária?

Para saber mais sobre o instituto clique aqui. Para saber mais detalhes sobre minha visita aos jovens de lá, clique aqui e aqui.

  foto de André Pacheco:-)


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Meu mundo imperfeito

Virei fã de Elizabeth Gilbert assim que li Comer, Rezar e Amar. Tanto que não hesitei em clicar "curtir" em sua página do Facebook, apesar de achar que esse negócio de seguir celebridades é uma das maiores babaquices do universo. Recentemente Liz Gilbert postou uma coisa em sua página que me tocou profundamente. É um texto que fala do amor incondicional da escritora Courtney A. Walsh.

O texto dela é uma cartinha endereçada a nós humanos que nos estimula a esquecer essa coisa de amor incondicional porque o que a gente precisa mesmo é de amor pessoal, amor universal que é suficiente e dispensa complementos. Ainda segundo ela, a beleza desse amor está extamente em ser bagunçado, imperfeito, cheio de tentativas, erros e acertos. E ela não tem toda razão?

Eu vou ainda mais além. Não é só no amor que a gente precisa aprender a abraçar as imperfeições e sim em todos os aspectos de nossa experiência humana. Isso não é uma apologia aos maus hábitos e aos defeitos que nos paralisam e impedem de crescer como seres humanos. É só que faz bem tentar ser mais normal e menos perfeitinho. É bom ser um ser humano mais completo, cheio de qualidades e defeitos.

É uma pena que hoje em dia muita gente ache que a vida tenha de ser levada como se vivessem em um mundo de faz de contas. Num lugar onde tudo na vida só pode ser bonito, chique, elegante e digno de ser fotografado pra depois ser compartilhado em redes sociais, não há espaço pra entrar em contato com nossa imperfeição. E no final das contas ela é uma grande mestra nas nossas vidas. Se a gente não consegue assumir as próprias imperfeições qual seria a alternativa? Tentar ser super humano? Infalível? Deus? É muito pesado!
"Ninguém é perfeito". Acho que a gente não reflete realmente sobre o que isso significa quando repete essa frase por aí. Mas ela é um lembrete importante. Se ninguém é perfeito, porque que a gente tem mania de ficar querendo que o outro seja? Por que a gente tem tanto medo das nossas imperfeições? Hoje estou chata e bateu a preguiça de escrever mais. Mas minha chatice e preguiça são bem vindas. Elas são parte de mim e portanto, bem aceitas também.
P.S. Essa música do Pato Fu é a perfeita trilha pra isso aqui. A qualidade do video está bem imperfeita, igual ao post. 
 
Video de Rafael Amorim

Mas pra quem tem o defeito de não aceitar bem o imperfeito, aqui neste link dá pra ouvir a música direitinho e ainda acompanhar a letra.

 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Desrespeito com máscara de admiração



A primeiríssima vez que fui a Bremen, na Alemanha, foi em 1999. Cheguei meio cabreira, assustada, com medo de racismo e das tantas estórias de horror que eu ouvia de estrangeiros na Europa e fui surpreendida com a abertura e tranquilidade com as quais eu fui recebida. E essa forma de me acolher permaneceu por muito tempo, tanto que demorou bastante até eu começar a notar um  monstro feio mostrando suas garras.


Antes de eu contar como isso aconteceu, deixa eu explicar uma coisa: apesar da Alemanha ser um país pequeno se comparada ao Brasil, sua diversidade cultural também é imensa. As diversas regiões tem geografia, costumes, culinária (e cervejas) diferentes e as pessoas apreciam essa diferença. Eles só dizem que são alemães quando não tem jeito, mas estufam o peito com orgulho ao dizer que são de determinada cidade ou região. 


Tendo esclarecido isso, acrescento que o que eu vou contar aqui tem muito a ver com o que se vive no norte da Alemanha. Pode ser bem diferente em outras regiões. Mas voltando a 1999, Bremen me tratou muito bem. Fui recebida por pessoas sorridentes e interessadas em  saber como eu pensava, como era minha cidade, minha vida, as comidas no Brasil, como eu me sentia na Alemanha. No início era como se eu fosse uma espécie de celebridade. Era o centro das atenções em qualquer festa. Nas rodinhas de apresenção em eventos, se eu não tomasse cuidado, era a única a falar porque todos queriam me ouvir, saber de mim. Tendo sido criada como filha única mimadíssima, adorava aquilo tudo. Fiquei ainda mais comunicativa, fiz um monte de amigos e tinha certeza que tinha encontrado o paraíso mundial da tolerância e boa convivência entre as pessoas. 


Mas o tempo foi passando. Minha vida foi ficando mais normal, tomando cara de vida de cidadã e menos de turista recém-chegada. E com essa mudança de rotina comecei a perceber que minha popularidade não era assim somente linda e maravilhosa. Existia uma coisa meio estranha naquela atenção toda que recebia, eu só não conseguia saber exatamente o quê. 


Comecei a perceber que as pessoas se interesavam muito pelo meu cabelo. Achavam lindo, mas sempre queriam saber se era de verdade (?), se dava trabalho de cuidar, que produtos eu usava. Perguntavam se podiam pegar. Quando se tratava de pessoas com as quais eu tinha mais contato, pessoas mais ou menos próximas, eu muitas vezes dizia que sim e aí elas se espantavam e comentavam que a textura de meu cabelo não correspondia com o que elas estavam esperando. E os elogios não paravam. A impressão que eu tinha é que sempre demorava um pouquinho demais pra eu conseguir mudar o assunto da conversa depois que o tema caia em meu cabelo. Ou em minha pessoa de forma geral. Isso começou a fazer com que eu parasse de apreciar aquela atenção toda. Tem dias que a gente só quer entrar e sair de um lugar, mas comigo parecia que era impossível. Comecei a me sentir, sei lá...super exposta, invadida.


Queria muito entender porque a cordialidade das pessoas em algumas situações de repente começava a me incomodar. Será que eu estava pirando? Precisava entender porque eu estava me sentindo assim, até que um estranho me ofereceu a última peça que faltava pro meu quebra-cabeças. Esse estranho, que esperava a vez dele depois de mim e meu marido em uma fila de supermercado, me lança a seguinte pergunta depois de me ver sorrindo „Ei, os seus dentes são de verdade?“ Fiquei olhando pro tal homem com cara de interrogação. Meu marido não se conteve e foi mais direto querendo logo saber que tipo de comentário era aquele. O rapaz explica que seria um elogio e naquele exato momento percebo que na Alemanha muitas vezes é como se eu fosse um animal exótico.


Tudo chama atenção, tudo desperta a curiosidade e as pessoas estão constantemente analisando tudo. Meus dentes, meu cabelo, minha pele, meu sotaque, meu intelecto, minha forma de andar, meu corpo inteiro. Ficam na expectativa pra ver como eu vou me comportar,  se e como vou dançar, em que idioma me comunico com meu marido. Como se não bastasse, sentem a necessidade de comentar todas as coisas que observam sobre mim, sem fazer uso de qualquer filtro que seja e se decepcionam se minhas respostas ou comportamentos não correspondem ao que esperam. 


Comecei a me cansar de despertar sempre o mesmo assunto da conversa. Passei a recusar certos convites por perceber que minha presença serviria de troféu pra consciência de quem me convidou. Era como se eu estivesse ali somente para representar a cota afro descendente e estrangeira em um grupo que nunca se incomodou em ser maioria e nunca prestou atenção pro fato de que no mundo existem pessoas diferentes delas, que podem ter vidas bem mais complicadas que as suas.


É difícil a mulher negra (ou brasileira de qualquer cor) escapar dessa super exposição na Alemanha. Confesso que já me deu vontade de sair de burca. Mas sabe de uma coisa? Quem tem de se esconder não sou eu. E quem tem de ser exposta é essa forma de pensar estigmatizante. Por isso resolvi pagar com a mesma moeda. Comecei a criar o hábito de devolver os „elogios“ sem noção com a mesma simpatia, insistência e falta de lógica. Os resultados são surpreeendentes. Pessoas desacostumadas a serem alvo constante das atenções sem noção, mudam de assunto, acham estranho, querem saber exatamente porque o „elogio“. Percebo pelas reações que tenho razão de me sentir ofendida com certos comentários disfarçados de elogio que me objetificam e super expõem. 


É interessante ver como as pessoas reagem sensíveis quando o jogo vira. Na Bahia, a gente costuma dizer „pimenta nos olhos dos outros é refresco“. Para os adeptos da intolerância, ultrapassagem de limites, invasão do espaço alheio, super exposição e objetificação dos outros é  elogio ou admiração.
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Para As Blogueiras Negras no dia 31 de Outubro de 2013

sábado, 21 de setembro de 2013

Necessidades Normais

Há dez anos minha mãe foi diagnosticada com Parkinson e com isso passou a fazer parte dos quase 14,5 % dos brasileiros que tem necessidades especiais. Fazer parte desse grupo não é nada fácil. Exige paciência, tolerância, grana e muito poder de se adaptar. Mas nem tudo é só triste e negativo.Ter algum tipo de deficiência oferece também inúmeras chances de reflexão e crescimento emocional e espiritual tanto para a pessoa, quanto para seus familiares. Uma coisa muito difícil, no entanto é ver como além do círculo familiar e dos amigos, muitas vezes rola uma falta de jeito das pessoas ao lidar com pessoas com essas necessidades.

Isso fica bem claro, por exemplo, quando saio com minha mãe por aí e vejo gente se impacientando quando ela está na fila abrindo a bolsa pra pegar o dinheiro pra pagar algo. Nessas situações, chovem perguntas e sugestões do tipo "Ajude ela!", "Abra a bolsa dela!" "Você não sabe a senha dela, não? Digite aí pra ela!" "Pra que você trouxe ela?" Nem sempre dá pra responder tudo isso na hora, por isso eu vou tentar responder aqui.

Vou começar pelo mais óbvio. Existem tipos diferentes de necessidades especiais e as formas dxs cuidadores ajudarem essas pessoas devem ser compatíveis com o tipo de dificuldades que elas enfrentam. A minha mãe, por exemplo, tem dificuldades motoras, mas seu raciocínio continua em cima, ou seja, não tem porque eu atropelar seu poder de se expressar e decidir nada por ela. Ela pode portanto, decidir se e quando quer ajuda e solicitar se preciso.

Muitas vezes sem querer e cheios de boas intenções, a gente acaba infantilizando e coisificando pessoas com necessidades especiais. Como você se sentiria se alguém metesse a mão na sua bolsa e pegasse seu dinheiro? Se alguém, mesmo que fosse de sua família, tomasse a sua frente na hora de pagar e digitasse sua senha na maquininha? Se do nada, alguém pegasse em qualquer parte do seu corpo? Acho que todo mundo concorda que não se faz nada disso com uma pessoa que não viva com nenhum tipo de deficiência por pura questão de bom senso e respeito ao espaço pessoal do outro. Porque não estender isso a quem tem necessidades especiais? Então eu pergunto se a pessoa quer que eu ajude antes de ajudar, pergunto se eu posso pegar nela ou nas coisas dela antes de pegar e se a pessoa diz "não" eu repeito. Acho que isso responde porque em algumas situações eu não ajudo, não abro a bolsa ou digito a senha da minha mãe.

A outra pergunta que me fazem muito, "porque você trouxe ela?" tem muito a ver como o que eu acabei de explicar também, mas vai além. Pessoas com necessidades especiais não devem ficar trancadas em casa sentadas/deitadas na frente da TV, inertes como se fossem parte do mobiliário da casa. Se elas podem de alguma forma se locomover, devem fazê-lo, se podem cuidar de si mesmas, resolver suas coisas, idem. Arrancar todas as tarefas e responsabilidades das mãos dessas pessoas, ao invés de ajudar até atrapalha.Todo mundo gosta de se sentir no controle da própria vida, não é mesmo? Isso sem contar que esconder certas pessoas em casa porque elas não correspondem ao padrão que todo mundo gosta de ver, é coisa da era medieval e do nazismo. Minha mãe gosta de sair, tem dificuldade de locomoção, é adulta e tem contas a pagar. Por isso eu a levo mesmo e vou continuar levando enquanto ela puder se mexer e quiser ir.

Hoje é Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência. Vamos aproveitar essa data para refletir sobre a forma como tratamos essas pessoas. A inclusão delas na sociedade passa por, mas vai muito mais além que construir rampas de acesso a transporte e locais públicos. É também (e talvéz em primeiro lugar) uma questão de passar aceitar que essas pessoas, assim como todos nós, querem ser tratadas com respeito, tem direito e querem administrar as próprias vidas quando possível e com suas habilidades variáveis, conseguem fazer algumas coisas e não conseguem ou tem dificuldade de fazer outras. E o que é isso senão absolutamente normal?


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pra quem ama Salvador

Quem me conhece sabe que eu amo minha Salvador, minha cidade. Não é amor cego. É amor consciente mesmo. Eu a conheço bem e sei de suas qualidades e seus defeitos. Sou apaixonada por minha cidade e ainda consigo me emocionar quando retorno à meus lugares favoritos. A descida da Contorno e o Solar do Unhão são dois entre tantos. Não canso de dizer: Salvador é linda e emocionante.

Mas nem sempre as emoções que minha cidade do coração me proporcionam são do bem. Infelizmente muitas vezes ao chegar à Salvador, ao invés de ser lembrada das inúmeras histórias que me fazem rir e sorrir neste lugar, o que eu vejo são cenas tristes que deixam claro o quanto esta cidade está abandonada, entregue à própria sorte e porque não dizer, mal amada mesmo.

Ao andar pela cidade, somente uma palavra me vem à mente: abandono. Salvador está abandonada, mal cuidada, esquecida. São inúmeras praças que ninguém frequenta, parques dominados por assaltantes e usuários de crack. Tem muitas ruas desertas, sem iluminação. Muitas calçadas quebradas e pistas esburacadas. A cidade é cheia de beleza mal aproveitada, desperdiçada. A orla é um bom exemplo disso. Nunca vi tanto potencial tão mal aproveitado. A orla dos meus sonhos teria boa iluminação e por isso seria bem movimentada de dia e de noite. Teria a melhor cena noturna de Salvador, com barzinhos e boates para todos os gostos. Teria um calçadão amplo e bem cuidado. Teria policiamento, salva-vidas e sinalização em toda sua extensão.

Essa seria a orla de meus sonhos. Mas infelizmente a realidade está bem distante disso. Hoje pela manhã fui fazer uma caminhada por lá e fiquei triste ao ver a areia da praia cheia de lixo, os urubus fazendo a festa. À noite nem sei, porque já que tenho muito o que perder, não ando dando bobeira por lá. As imagens que vejo na cidade, não só na orla, me enchem de vergonha, às vezes me dão até vontade de chorar, não só de tristeza, de frustração também.

Entra prefeito e sai prefeito e a cidade fica cada vez mais triste. Mas eu sei que o problema da falta de cuidado e abandono de Salvador não é só dos prefeitos. É nosso também. E os soteropolitanos, na minha opinião tem se mostrado péssimos cidadãos. A praia que eu vi cheia de lixo estava assim não só por falta de coleta adequada, como também porque alguém jogou aquele lixo em algum lugar que não devia. A falta de amor dos soteropolitanos com Salvador não para por aí. Além de emporcalhar a cidade, a pessoas picham os monumentos, roubam as estátuas e as lâmpadas dos locais públicos, andam com seus cachorros nas praças e não recolhem as fezes dos bichos e por aí vai.

A conservação dos espaços públicos segue uma lógica interessante. Quanto menos conservado um local for, menos comprometidas as pessoas se sentem com ele. E quanto menor o compromentimento das pessoas com um lugar, maior a predisposição delas para quebrar, destruir e nem se importarem se outra pessoa fizer o mesmo. É um ciclo horroso que foi inclusive testado e comprovado por diversos cientistas. (Zimbardo 1969 e Wilson e Kelling, 1982)

Ciclos como esses, no entanto, podem e devem ser quebrados ou melhor ainda, substituídos por outros mais positivos. Pode-se começar pequeno, devagarzinho, simplesmente não jogando lixo por aí. Quer jogar alguma coisa fora? Procure uma lixeira, ou guarde o papel na bolsa até achar uma. Eu por exemplo ando com um saquinho na bolsa. Cansou de carregar lixo consigo? Vamos exigir da prefeitura mais lixeiras pelas cidade, coletas mais eficientes, explicações sobre como estão investindo o dinheiro de nossos impostos. Mas só dá pra fazer isso se a gente fizer nossa parte, né? Isso é cuidar da nossa casa, de nossa cidade. Você gosta de Salvador? Então demonstre.

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P.S. Em 1969 o time de pesquisa do professor Phillip G. Zimbardo da universidade de Standford nos Estados Unidos, abandonou dois automóveis idênticos e em bom estado em duas cidades com populações bem diferentes. Um foi largado no Bronx em Nova Iorque e o outro em Palo Alto na California. Em questão de horas depois de ser abandonado, o carro do Bronx ja começou a ser saqueado. Durante semanas o carro de Palo Alto permaneceu intacto. 

Teóricos conservadores se deleitaram porque puderam dizer com base científica que quanto mais pobre a região, maior a predisposição ao vandalismo. Só que aí professor Zimbardo foi lá e deu umas marretadas no carro de Palo Alto. O resultado foi que no mesmo dia pessoas (brancas de classe média, diga-se de passagem) começaram a fazer o mesmo que o pessoal do Bronx. Este experimento foi repetido por outros psicólogos, sociólogos e criminalistas, todos mostrando resultados semelhantes. Até que os sociólogos James Q. Wilson e e George L. Kelling lançaram a Teoria das Janelas Quebradas em 1982 que resumidamente diz que quanto mais descuidado um local for, maior a probabilidade da ação de vândalos. Quando o descuido de uma região acaba "expulsando" o cidadão comum, com o tempo ele passa a ser ocupado por desordeiros. Muito interessante, vale à pena ler.:

KELLING, George; COLES, Catherine M. Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities. New York: Free Press, 2003.

Zimbardo, P. G., (1969). The human choice: Individuation, reason, and order versus deindividuation, impulse, and chaos. Nebraska Symposium on Motivation, 17, 237-307.