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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Motivação

Passei um tempão paradona, sem postar nada, mas não por falta de idéias. Tem dias que estou fazendo as coisas mais rotineiras do mundo, tipo tomando banho ou lavando os pratos e de repente uma idéia ou lembrança chega de fininho e quando menos espero tenho um texto completo, fluindo sem dificuldade alguma em meu pensamento. Nessas horas me vem a vontade de parar tudo e sair correndo postar, mas logo logo desisto de fazer isso por pura falta de motivação. Blogar pra quê?

Mas a motivação tem me intrigado muito nos últimos tempo. Que força poderosa é essa? Uma pessoa motivada é capaz de coisas inacreditáveis. Motivação muitas vezes parece até milagre porque ela faz muitas pessoas conseguirem transformar o impossível.

Claro que existem vários tipos de motivação, mas o que tem me interessado no momento não é exatamente o que nos motiva e sim do que somos capazes quando achamos algo que faça sentido pra gente. De vez em quando estou sem motivação nenhuma. Acho que todo mundo passa por isso uma vez ou outra. Quando isso acontece pra mim fico me sentindo cansada, impaciente com tudo, faço o que tem de ter feito contando os minutos pra acabar. O dia a dia fica meio sem graça...

Quando estou motivada me sinto diferente. Essa diferença está no meu olhar, na forma como falo daquilo que realizo por causa dessa motivação, minha postura muda literalmente. Pode ser besteira, mas gosto mais de mim quando estou motivada. Me sinto mais feliz.

Comecei a perceber motivação (e das boas o que é melhor ainda) por toda parte. Nos meus alunos, que chegam sorrindo pra uma aula às sete da noite depois de um dia inteiro de trabalho, na minha sobrinha linda que me encontra na biblioteca na sexta-feira à tarde depois da escola pra estudar, na minha comadre que depois de um dia inteiro com três crianças pequenas consegue sair e ir treinar pra uma maratona, no meu companheiro que apesar de seu dia a dia cansativo entre escola e sindicato ainda planeja trabalho voluntário nas férias, na mulher desconhecida da academia que vai malhar levando seu bebê no carrinho...

Observar pessoas motivadas assim me inspira. Então à todas as pessoas que conseguem se manter assim, aqui vai minha admiração e muito obrigada por me ajudarem a reencontrar a minha.

P.S.: Jujuba, esse texto na verdade é pra você. Você foi a primeira motivada que comecei a observar e confesso que sua atitude com a sua vida atual e com suas perspectivas para o futuro me inspiraram e me ajudaram a reencontrar minha própria motivação. Estou muito orgulhosa de ver o quanto você está determinada. Sua força de vontade e a forma como você trabalha duro são qualidades admiráveis em qualquer idade e em alguém tão jovem quanto você é simplesmente impressionante. Sua tia aqui torce muito pelo seu sucesso:-)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Minha bolha cor-de-rosa

Toda vez que eu venho ao Brasil acabo ficando mais ativa nas redes sociais. Meus poucos amigos alemães que utilizam Facebook, vivem reclamando que eu só posto em português e eles não podem acompanhar nada. Mas eu tenho uma explicação: meus amigos brasileiros são mais ativos nas redes sociais, compartilham mais, comentam mais, curtem mais. Olhar o Facebook acaba sendo uma experiência massa, como um grande bate-papo com a galera.



Ao ficar mais ativa no Face (já peguei até intimidade, tá vendo?), comecei a perceber os tantos outros usos legais desse meio que não só brincar e ficar trocando bobagens com os amigos. Comecei a fazer parte de comunidades e grupos de discussão e com isso ler mais, conhecer mais, estudar mais. E não foi só isso. Quando perdi a timidez nas redes sociais e passei a comentar também, voltei a exercitar a habilidade de debater e de argumentar. Como se isso já não fosse muito bom, conheci muita gente bacana que hoje me arrisco até a chamar de amigos, apesar de alguns deles só conhecer mesmo pelas fotos disponibilizadas em suas páginas.



Mas isso é o que me dá a certeza de que atrás da imaterialidade do Facebook, existem pessoas de verdade, com estórias de vida, famílias, empregos, dramas e tudo mais, iguaizinhos a mim e a você. Essas pessoas, assim como nós, riem sofrem e se ofendem. Por isso eu realmente me assusto muito ao ver o nível de crueldade de certos comentários e posts no Facebook.



A sensação de segurança e anonimidade que as pessoas tem atrás de seus computadores lhes dá um certo sentimento de segurança, então elas terminam por sentirem à vontade pra digitar coisas que não diriam da mesma forma se a conversa fosse cara a cara. E aí começa o festival dos horrores. É gente desejando a morte alheia, culpando vítimas de estupro por terem sido estupradas, dizendo que não viram racismo quando ele está mais do que óbvio, chamando vítimas de discriminação de paranóicas, falando que a luta feminista é mimimi e muita, mas muita baixaria mesmo.



Mesmo quando a pessoa tem um posicionamento que eu considere reacionário ou que de qualquer outra forma não coincida com meu ponto de vista, é interessante discutir. Na verdade esses são os verdadeiros debates. É importante ouvir outras visões de mundo, nem que isso sirva somente pra fortalecermos nossos argumentos. Mas tudo isso pode e deve ser feito com repeito, pelamordedeus!!!



Quando eu vejo a agressividade com a qual as pessoas reagem aos posts umas das outras eu percebo que todos esses anos eu vivi em uma bolha cor-de-rosa na qual só existiam amigos e pessoas tranquilas, que sabem discordar e expor suas opiniões contrárias sem ofender. De repente estou dando de cara com um mundo cruel, cheio de pessoas mal-educadas e insensíveis. Que triste, viu? Quero minha bolha de volta!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Lidando com o racismo – de outra forma

Um dia, recebi uma ligação de Lubi perguntando se eu estava com tempo. "Sim, claro. Pode falar" e ele começou a me contar uma estória longa que a princípio eu não sabia bem onde ia chegar. Contou que lá no instituto onde ele trabalha, tem uma atividade chamada "Cinema Comentado". Nessa atividade, os jovens assistem um filme e depois discutem sobre os temas abordados. O filme escolhido pela equipe de educadores tinha sido "Escritores da Liberdade" (Freedom Writers) de Richard LaGravenese. Como eu até então ainda não conhecia o filme, ele prossegiu me dando um resumo do que se tratava.



O filme não é nenhuma super produção cinematográfica, mas impressiona por ser um estória surpreendente, baseada em fatos reais. Ele mostra uma professora jovem, recém-formada e bastante idealista, que vai trabalhar em uma escola multicultural na Califórnia em uma época (1992) em que os Estados Unidos estavam fervendo com conflitos raciais. Os alunos de sua turma, são (em sua grande maioria) adolescentes em situação de risco que só concordam um com os outros em duas coisas: primeiro, que todos os outros são inimigos e segundo que a escola é uma merda. Nesse cenário pra lá de hostil pra qualquer processo educacional, ela consegue ajudar esses jovens a mudar de atitude a ponto de virarem escritores.



Não queria mais contar tanto sobre o filme, porque acho que vocês deveriam assistir. É fantástico e inesquecível. É um desses que antes de começar a ver, a gente tem de ter certeza de que se tem muuuuuito lenço de papel por perto. Mas pra que eu possa explicar como essa experiência foi especial pra mim, tenho de contar um pouquinho mais sobre a história do filme, então quem não quiser ter o fator surpresa estragado, pare de ler agora . O que vem a seguir são spoilers.


Os jovens, no filme, são estimulados a ler um livro cuja história se passa bem distante da realidade deles, tanto no tempo, quanto geograficamente falando. No entanto, por também se tratar de uma história verídica, ela de certa forma se relaciona muito com a deles. Eles,  então escrevem cartas para uma personagem fundamental da estória e conseguem fazer com que sejam recebidas e lidas. Como se isso não fosse o bastante, conseguem trazê-la para uma conversa com eles.


Lubis me explicava tudo isso ao telefone e eu só no "ahãn", "sério?" "nossa" "que bacana" sem compreender direito onde ele queria chegar. Até que ele finalmente chega: "Então, nós levamos seu texto "Lidando com o racismo" pra ler e debater com os meninos lá no instituto". Isso gerou GEROU uma série de discussões sobre o tema e aí surgiu a idéia de replicar com eles o ocorrido no filme. 

O que aconteceu depois foi simplesmente inacreditável.
 

Recebi mais ou menos 50 cartas à moda antiga, escritas com caneta e papel, com direito a envelopinhos coloridos, adesivinhos, coraçõeszinhos e floreszinhas desenhadas. Me emocionei. Isso é raro de se ver hoje em dia.
Como se isso já não fosse honra bastante, fui convidada a ir lá, conversar com eles. E o que aconteceu naquele dia, foi muito tocante. Tanto que vou precisar de mais um post pra contar pra vocês tudo que me marcou naquele dia.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dois mundos de felicidade

O prédio do parlamento/câmara dos vereadores de Bremen
Pra quem ainda não sabe, eu vivo entre dois mundos. Entre duas cidades de dois continentes. Bremen e Salvador. Amo as duas com a mesma intensidade por motivos diferentes e sou muito grata por poder viver essa experiência. Dividir a vida entre dois países não é muito fácil, mas ao mesmo tempo é muito interessante. Não vou poder reclamar de tédio nunca. No início eu era simplesmente fascinada pelas coisas novas que descobria em Bremen. Hoje em dia eu me fascino não só por isso, como também com a constante redescoberta de minha casa, de minha cidade, de meu país.

Atrás do Farol da Barra em Salvador
Eu normalmente volto ao Brasil uma vez por ano e fico um pouco mais do que outros expatriados se permitem ficar nessas voltas à casa. Por isso acabo tendo uma visão de Salvador, não de turista na própria casa e sim de alguém que está voltando, que tem dia-à dia e coisas pra fazer apesar de estar de "férias". Eu adoro isso. Sinto como se eu tivesse recebido um presente. Uma situação de vida que me permite estar sempre deslumbrada, sempre descobrindo coisas novas, nunca me permitindo viver no automático, sem prestar atenção às coisas que vejo. Resumindo, eu deixo de ter a possibilidade de viver ao lado das pessoas que eu amo sempre, mas ganho em troca um olhar sempre vivo diante da vida. Isso sem contar que minhas muitas despedidas e retornos me oferecem muitas demonstrações de carinho de meus amigos e família sempre. Como isso me faz feliz.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Baianidade

Tenho recebido vários videos hilários de amigos diferentes sobre os mais variados temas. Nem sempre dou conta de ver e comentar todos, mas sempre que acho um tempinho, começo a assistir e como se diz em Salvador, me poco de dar risada. Como rir é bom, decidi que de agora em diante vou começar a compartilhar os meus favoritos aqui no blog para todos que, assim como eu, curtem um bom besteirol. É uma boa forma de movimentar isso aqui entre uma crônica e outra.

Recebi o video de hoje de uma amiga maravilhosa que apesar de longe, sempre se faz presente. Anginha, muito obrigada, por mais uma vez arrancar risadas minhas. Assistam se quiserem se sentir em Salvador.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Chegando em casas

A palavra Heimat em alemão significa lugar de origem, mas ao mesmo tempo é muito mais do que só isso. Significa também o lugar onde você se sente em casa. Como a essa altura do campeonato eu já me sinto tão à vontade aqui em Bremen quanto em Salvador eu acredito que tenha duas "Heimats". Só acho uma pena que em alemão não exista plural pra palavra Heimat. Aí fica parecendo que a Alemanha faz questão que a gente tenha só uma, mesmo que isso na prática seja missão impossível pra alguém que, assim como eu, vive lá e cá. Eu já tentei me manter com  uma só mas sei que não dá. Tenho duas casas e pronto.

Hoje em dia, quando saio de Salvador é com um misto de tristeza e alegria sempre. Começo a sentir falta de meus amigos já uma semana antes de nossa despedida, mas é mais ou menos nessa época que a ansiedade de rever meus amigos distantes, dessa vez na Alemanha, bate mais forte. Começo a contar os dias até poder voltar a vê-los e aí bate a tristeza porque me lembro daqueles em Salvador que vou ter de esperar um bocado pra poder ver outra vez. Como eu disse antes: não é nada fácil ter o coração em duas cidades, em dois países, em dois continentes.

Ainda mais quando esses dois lugares me oferecem dois pacotes completamente diferentes de felicidade. Salvador me acolhe porque quando chego lá, normalmente estou cansadona das 11, 12 horas de vôo, mas meus amigos vão logo pro aeroporto me encontrar, me dão abraços fortes de tirar o fôlego, vão lá pra casa, onde minha chegada é entendida como se fosse um evento especial, e por isso rola logo uma cerveja, uma comida diferente e bem trabalhosa, pra me esperar. Isso espanta o cansaço, me energiza. Sem contar que lá é o lugar onde tudo é rápido e barulhento, no qual eu posso sentar numa mesa de bar e conversar com todo mundo ao mesmo tempo, inclusive com quem estiver sentado na ponta oposta a minha.  Lá eu posso relaxar e soltar esse lado mais elétrico meu, que eu tento controlar um pouco mais quando estou aqui.

Já Bremen me acolhe de outra forma, porque quando chego aqui, normalmente estou cansadona das 11, 12 horas e vôo e parece que a cidade entende e respeita isso. Todas as filas são rápidas, todos os atendimentos são sem agonia, porém eficientes. E os sons da cidade parecem que me embalam em uma nuvem de algodão. No aeroporto de Frankfurt, por exemplo, se passa um fenômeno que eu não vou entender nunca. Milhões de pessoas circulam ali por dia. Milhares ao mesmo tempo, algumas delas com pressa em meio a veículos motorizados e bicicletas. No entanto pra mim aquele aeroporto ainda consegue ser um dos lugares mais silenciosos do mundo. Como assim? Eu fico me perguntando toda vez. Em Salvador, duas pessoas juntas conversando uma ao lado da outra já conseguem fazer mais barulho do que o que se ouve naquele aeroporto. Exageros à parte, nas ruas de Bremen a gente mal consegue ouvir os sons dos motores dos carros. Esse silêncio e ritmo mais tranquilo daqui, me chocam à principio, mas sempre acho muito legal essa oportunidade de desacelerar um pouco, depois de minhas estadias sem Salvador onde a vida vai a mil por hora.

Ter um pouquinho de cada coisa é maravilhoso e acho que todo mundo gosta. Só fica complicado quando suas casas diferentes querem dar um nó em sua cabeça e começam a trocar as bolas pra te confudir. Por exemplo, hoje logo depois de chegar em Bremen, entro no carro de meu sogro e fico sem entender nada ao ouvir o "tche tche rere tche tche" de Gusttavo Lima tocando na radio. Aí pra completar foi chegar em  casa e encontar minhas amigas que vieram, trazendo bebibas cuidadosamente escolhidas pra ter a ver com meu nome, petiscos, abraços apertados, sorrisos, estórias e saudades. Me senti em casa de novo. Uma outra casa, como num sonho. Se isso for sonho mesmo, espero não acordar nunca. Amigas - e nesse caso quero dizer Flora, Sil e Stela - obrigada por misturar as minhas casas e por obrigar a Alemanha a aceitar que a minha casa, minha Heimat, tem plural sim e ponto final.
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P.S. Galzinha, faltou você nesse reencontro. Mas a gente fala tão alto que você deve ter nos ouvido em Santa Isaber...