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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Dia da Mulher Afro- Latino-Americana e Caribenha

Em 1992 o dia de hoje foi instituído pela ONU como o dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha durante a primeira conferência de mulheres dessas etnias na República Dominicana. Sendo hoje também, meu aniversário, sei que a data me toca duplamente. Aproveito, portanto meu dia hoje pra refletir sobre o que é pra mim ser uma mulher negra latino americana.

Eu valorizo quem eu sou e minha história. Me orgulho de minha família e das dificuldades que algumas vezes enfrentamos pois reconheço que a forma como lidamos com essas situações complicadas modela nosso carater, nos dá força. Adoro o fato de saber que minha história é feita de vários pedacinhos de vários lugares da Europa, do Brasil e da Africa. No conjunto de fatores que fazem de mim quem eu sou, o que não falta é coisa para escolher e aprender, culinária pra experimentar, tradições pra conhecer, idiomas pra falar. Dentro de minha família, uma família só, o que não falta são cores diferentes de olhos e peles, texturas e cores diferentes de cabelos, formas diferentes de corpos. Isso é muito lindo, porque de repente é como se eu pudesse me identificar com o mundo todo.

Mas por mais orgulho que minha história me dê, ela também me traz muita dor. Ser uma mulher negra latino americana infelizmente também significa que as pessoas às vezes se sentem incomodadas com minha presença, seja por não saberem como se comportar comigo e ficarem tensos porque querem parecer não racistas, ou por não desejarem minha presença mesmo e pronto. Significa que de vez em quando eu sou completamente ignorada em uma conversa. A minha história infelizmente também acaba fazendo com que muitas vezes eu seja a única em qualquer lugar que eu vá. A única negra do mestrado, a única negra no restaurante que não está trabalhando como babá, correndo atrás de uma criança que não é sua. É ser tratada como animal exótico, que pode ter bunda grande, ser sensual e saber dançar, mas causar estranheza quando digo que meu trabalho é com o cérebro. É ter de aguentar pessoas próximas insistirem que a discriminação que eu vivo na pele não é racismo, é qualquer outra coisa, que eu estou paranóica, exagerando, procurando cabelo em ovo. É crescer ouvindo pessoas na minha própria família dizerem que meu cabelo é ruim e feio e ser pressionada a vida inteira pra alisar, prender e domar meu piau, minha bucha, minha vassoura de palha.

Mas o 25 de Julho foi criado para ser um marco de luta e resistência. Assim como a data pede eu resisto a esteriótipos e questiono quem quer que queira me limitar. Quando tentam me calar eu faço mais barulho, quando tentam me dominar eu esperneio e quanto mais luto, mais me fortaleço. Parabéns a todas as nós Negras, a todas nós Latino Americanas e todas as Caribenhas. Vamos fazer barulho em nosso dia. Apesar de tudo a gente sempre supera e arrasa sempre!

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Este texto faz parte da I Blogagem Coletiva 25 de julho, organizada pelas Blogueiras Negras.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Chegando em casas

A palavra Heimat em alemão significa lugar de origem, mas ao mesmo tempo é muito mais do que só isso. Significa também o lugar onde você se sente em casa. Como a essa altura do campeonato eu já me sinto tão à vontade aqui em Bremen quanto em Salvador eu acredito que tenha duas "Heimats". Só acho uma pena que em alemão não exista plural pra palavra Heimat. Aí fica parecendo que a Alemanha faz questão que a gente tenha só uma, mesmo que isso na prática seja missão impossível pra alguém que, assim como eu, vive lá e cá. Eu já tentei me manter com  uma mas sei que não dá. Tenho duas casas e pronto.

Hoje em dia, quando saio de Salvador é com um misto de tristeza e alegria sempre. Começo a sentir falta de meus amigos já uma semana antes de nossa despedida, mas é mais ou menos nessa época que a ansiedade de rever meus amigos distantes, dessa vez na Alemanha, bate mais forte. Começo a contar os dias até poder voltar a vê-los e aí bate a tristeza porque me lembro daqueles em Salvador que vou ter de esperar um bocado pra poder ver outra vez. Como eu disse antes: não é nada fácil ter o coração em duas cidades, em dois países, em dois continentes.

Ainda mais quando esses dois lugares me oferecem dois pacotes completamente diferentes de felicidade. Salvador me acolhe porque quando chego lá, normalmente estou cansadona das 11, 12 horas de vôo, mas meus amigos vão logo pro aeroporto me encontrar, me dão abraços fortes de tirar o fôlego, vão lá pra casa, onde minha chegada é entendida como se fosse um evento especial, e por isso rola logo uma cerveja, uma comida diferente e bem trabalhosa, pra me esperar. Isso espanta o cansaço, me energiza. Sem contar que lá é o lugar onde tudo é rápido e barulhento, no qual eu posso sentar numa mesa de bar e conversar com todo mundo ao mesmo tempo, inclusive com quem estiver sentado na ponta oposta a minha.  Lá eu posso relaxar e soltar esse lado mais elétrico meu, que eu tento controlar um pouco mais quando estou aqui.

Já Bremen me acolhe de outra forma, porque quando chego aqui, normalmente estou cansadona das 11, 12 horas e vôo e parece que a cidade entende e respeita isso. Todas as filas são rápidas, todos os atendimentos são sem agonia, porém eficientes. E os sons da cidade parecem que me embalam em uma nuvem de algodão. No aeroporto de Frankfurt, por exemplo, se passa um fenômeno que eu não vou entender nunca. Milhões de pessoas circulam ali por dia. Milhares ao mesmo tempo, algumas delas com pressa em meio a veículos motorizados e bicicletas. No entanto pra mim aquele aeroporto ainda consegue ser um dos lugares mais silenciosos do mundo. Como assim? Eu fico me perguntando toda vez. Em Salvador, duas pessoas juntas conversando uma ao lado da outra já conseguem fazer mais barulho do que o que se ouve naquele aeroporto. Exageros à parte, nas ruas de Bremen a gente mal consegue ouvir os sons dos motores dos carros. Esse silêncio e ritmo mais tranquilo daqui, me chocam à principio, mas sempre acho muito legal essa oportunidade de desacelerar um pouco, depois de minhas estadias sem Salvador onde a vida vai a mil por hora.

Ter um pouquinho de cada coisa é maravilhoso e acho que todo mundo gosta. Só fica complicado quando suas casas diferentes querem dar um nó em sua cabeça e começam a trocar as bolas pra te confudir. Por exemplo, hoje logo depois de chegar em Bremen, entro no carro de meu sogro e fico sem entender nada ao ouvir o "tche tche rere tche tche" de Gusttavo Lima tocando na radio. Aí pra completar foi chegar em  casa e encontar minhas amigas que vieram, trazendo bebibas cuidadosamente escolhidas pra ter a ver com meu nome, petiscos, abraços apertados, sorrisos, estórias e saudades. Me senti em casa de novo. Uma outra casa, como num sonho. Se isso for sonho mesmo, espero não acordar nunca. Amigas - e nesse caso quero dizer Flora, Sil e Stela - obrigada por misturar as minhas casas e por obrigar a Alemanha a aceitar que a minha casa, minha Heimat, tem plural sim e ponto final.
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P.S. Galzinha, faltou você nesse reencontro. Mas a gente fala tão alto que você deve ter nos ouvido em Santa Isaber...