Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Minha bolha cor-de-rosa

Toda vez que eu venho ao Brasil acabo ficando mais ativa nas redes sociais. Meus poucos amigos alemães que utilizam Facebook, vivem reclamando que eu só posto em português e eles não podem acompanhar nada. Mas eu tenho uma explicação: meus amigos brasileiros são mais ativos nas redes sociais, compartilham mais, comentam mais, curtem mais. Olhar o Facebook acaba sendo uma experiência massa, como um grande bate-papo com a galera.



Ao ficar mais ativa no Face (já peguei até intimidade, tá vendo?), comecei a perceber os tantos outros usos legais desse meio que não só brincar e ficar trocando bobagens com os amigos. Comecei a fazer parte de comunidades e grupos de discussão e com isso ler mais, conhecer mais, estudar mais. E não foi só isso. Quando perdi a timidez nas redes sociais e passei a comentar também, voltei a exercitar a habilidade de debater e de argumentar. Como se isso já não fosse muito bom, conheci muita gente bacana que hoje me arrisco até a chamar de amigos, apesar de alguns deles só conhecer mesmo pelas fotos disponibilizadas em suas páginas.



Mas isso é o que me dá a certeza de que atrás da imaterialidade do Facebook, existem pessoas de verdade, com estórias de vida, famílias, empregos, dramas e tudo mais, iguaizinhos a mim e a você. Essas pessoas, assim como nós, riem sofrem e se ofendem. Por isso eu realmente me assusto muito ao ver o nível de crueldade de certos comentários e posts no Facebook.



A sensação de segurança e anonimidade que as pessoas tem atrás de seus computadores lhes dá um certo sentimento de segurança, então elas terminam por sentirem à vontade pra digitar coisas que não diriam da mesma forma se a conversa fosse cara a cara. E aí começa o festival dos horrores. É gente desejando a morte alheia, culpando vítimas de estupro por terem sido estupradas, dizendo que não viram racismo quando ele está mais do que óbvio, chamando vítimas de discriminação de paranóicas, falando que a luta feminista é mimimi e muita, mas muita baixaria mesmo.



Mesmo quando a pessoa tem um posicionamento que eu considere reacionário ou que de qualquer outra forma não coincida com meu ponto de vista, é interessante discutir. Na verdade esses são os verdadeiros debates. É importante ouvir outras visões de mundo, nem que isso sirva somente pra fortalecermos nossos argumentos. Mas tudo isso pode e deve ser feito com repeito, pelamordedeus!!!



Quando eu vejo a agressividade com a qual as pessoas reagem aos posts umas das outras eu percebo que todos esses anos eu vivi em uma bolha cor-de-rosa na qual só existiam amigos e pessoas tranquilas, que sabem discordar e expor suas opiniões contrárias sem ofender. De repente estou dando de cara com um mundo cruel, cheio de pessoas mal-educadas e insensíveis. Que triste, viu? Quero minha bolha de volta!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lidando com o racismo: os jovens do Instituto JCPM em Salvador

Mês passado fui convidada para um bate-papo com os jovens do Instituto JCPM em Salvador. Este convite, que me pegou de surpresa e me encheu de felicidade, foi feito depois dos educadores do projeto terem trabalhado meu texto "Lidando com o racismo" em sala. Antes de ir falar com eles, eu já tinha lido as cartas que estes jovens escreveram para mim. Nelas, além de relatarem suas impressões sobre meu texto, eles me contaram suas próprias experiências com racismo.

Lá fui eu então conhecer os jovens e falar com eles. Estava meio nervosa, sem saber o que esperar, mas me sentindo extremamente honrada pelo convite e ao mesmo tempo bem ciente do tamanho da responsabilidade que vinha com esta honra. Olhar para eles e ouvir o que tinham a dizer me fez lembrar da adolescente que eu fui, cheia de energia, dilemas e inseguranças próprias dessa fase da vida e, como se isso não fosse suficiente, ainda tendo de lidar com questões de preconceito. O encontro com eles me fez pensar muito sobre os processos que temos de passar ao crescer em uma sociedade hipócrita como a nossa. Depois da conversa com eles, fiquei pensando muito sobre o seguinte:
  1. Questão de identidade racial
O brasileiro é um povo todo misturado. A gente cresce ouvindo isso à exaustão e é verdade mesmo: somos misturados. No entanto, apesar dessa miscigenação toda, na maioria dos casos é possível identificar quem é negro e quem não é, tanto que há discriminação. Ou seja, crescemos ouvindo que somos iguais, mas o mundo nos diz que somos diferentes de uma forma bem negativa.

Como ninguém gosta de ser associado a coisa ruim, é natural que surjam jeitinhos de tentar minimizar a forma negativa como somos percebidos. É aí que entram as tão pervesas estratégias de branqueamento. Desta forma, muito negro acaba virando moreno, moreninho, cabo-verde e por aí vai. Quando perguntei quem dentre eles se considerava negro, um número surpreendente de negros não levantou a mão. É sem dúvida nenhuma uma pena que nossa educação social ainda não tenha encontrado modos de fortalecer a identidade racial de crianças e adolescentes para que ninguém precise se envergonhar de ser quem é.
  1. Auto rejeição
Tanto nas cartas quanto no encontro, os jovens relataram suas experiências chocantes com o racismo. Aquelxs meninxs, entre 16 e 24 anos, já foram seguidos por seguranças de loja e shopping centers, negadxs atendimento em loja, ignoradxs quando tentavam obter algum serviço, abusadxs verbalmente com palavras tão duras que eu me recuso a repetir aqui e humilhadxs de diversas outras formas diferentes, antes mesmo de se tornarem adultos no sentido pleno da palavra e da experiência. Não precisa ser nenhum gênio para entender quantos danos isso pode causar ao emocional e psicológico de um ser humano que cresce tendo de lidar com isso.

Da mesma forma, dá pra entender porque a indústria do alisamento/relaxamento de cabelos movimenta milhões em qualquer lugar do mundo. Tem mães por aí, que com a intenção nobre de proteger e cuidar, ficam contando os dias até finalmente poderem começar a relaxar os cabelos das filhas. E assim, ao invés de aprender a nos amarmos e aceitarmos como somos, acabamos por internalizar a idéia de que nosso cabelo é "ruim" e que precisa ser domado. Como se isso já não fosse suficientemente triste, constatei que muitos daqueles jovens negros consideram as palavras "negro" e "preto" xingamentos. Que triste crescer em uma sociedade que te ensina a rejeitar até mesmo os termos que definem sua identidade.
  1. A negação do problema
Uma das formas mais maquiavélicas de garantir a perpetuação do racismo é negar que ele existe. Esta é uma estratégia cruel porque cega toda a sociedade para o problema e torna o seu combate tarefa impossível. Afinal de contas, como solucionar um problema que não existe? O mais lamentável é perceber que essa armadilha bem montada pega qualquer um, até mesmo nós, os negros. Fiquei comovida ao ouvir um menino dizer que ele sempre achou que nunca tinha sido alvo de racismo, até darem início às discussões sobre o tema em sala. A partir daí ele começou a relembrar situações do passado e pôde constatar que já tinha sido discriminado sim, inúmeras vezes.

O encontro com os educadores e jovens desse instituto foi uma experiência riquíssima em minha vida. Recebi muito carinho e tive a oportunidade de mais uma vez confirmar o quanto é importante despertar a atenção das pessoas para questões sociais e de identidade o quanto antes. É fundamental estimular as crianças desde bem cedo a se amarem e se aceitarem exatamente como são, e a nunca duvidarem de sua importância e do seu valor no mundo. Também é importante estimular o quanto antes o interesse em conhecer a própria história para melhor entender sua realidade atual. A pessoa que cresce sendo incentivada dessa forma, muito provavelmente se tornará um cidadão seguro, consciente de sua importância e sensível para as questões e os dilemas de outros seres humanos. E não é assim que se forma uma sociedade verdadeiramente igualitária?

Para saber mais sobre o instituto clique aqui. Para saber mais detalhes sobre minha visita aos jovens de lá, clique aqui e aqui.

  foto de André Pacheco:-)


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Lidando com o racismo – de outra forma

Um dia, recebi uma ligação de Lubi perguntando se eu estava com tempo. "Sim, claro. Pode falar" e ele começou a me contar uma estória longa que a princípio eu não sabia bem onde ia chegar. Contou que lá no instituto onde ele trabalha, tem uma atividade chamada "Cinema Comentado". Nessa atividade, os jovens assistem um filme e depois discutem sobre os temas abordados. O filme escolhido pela equipe de educadores tinha sido "Escritores da Liberdade" (Freedom Writers) de Richard LaGravenese. Como eu até então ainda não conhecia o filme, ele prossegiu me dando um resumo do que se tratava.



O filme não é nenhuma super produção cinematográfica, mas impressiona por ser um estória surpreendente, baseada em fatos reais. Ele mostra uma professora jovem, recém-formada e bastante idealista, que vai trabalhar em uma escola multicultural na Califórnia em uma época (1992) em que os Estados Unidos estavam fervendo com conflitos raciais. Os alunos de sua turma, são (em sua grande maioria) adolescentes em situação de risco que só concordam um com os outros em duas coisas: primeiro, que todos os outros são inimigos e segundo que a escola é uma merda. Nesse cenário pra lá de hostil pra qualquer processo educacional, ela consegue ajudar esses jovens a mudar de atitude a ponto de virarem escritores.



Não queria mais contar tanto sobre o filme, porque acho que vocês deveriam assistir. É fantástico e inesquecível. É um desses que antes de começar a ver, a gente tem de ter certeza de que se tem muuuuuito lenço de papel por perto. Mas pra que eu possa explicar como essa experiência foi especial pra mim, tenho de contar um pouquinho mais sobre a história do filme, então quem não quiser ter o fator surpresa estragado, pare de ler agora . O que vem a seguir são spoilers.


Os jovens, no filme, são estimulados a ler um livro cuja história se passa bem distante da realidade deles, tanto no tempo, quanto geograficamente falando. No entanto, por também se tratar de uma história verídica, ela de certa forma se relaciona muito com a deles. Eles,  então escrevem cartas para uma personagem fundamental da estória e conseguem fazer com que sejam recebidas e lidas. Como se isso não fosse o bastante, conseguem trazê-la para uma conversa com eles.


Lubis me explicava tudo isso ao telefone e eu só no "ahãn", "sério?" "nossa" "que bacana" sem compreender direito onde ele queria chegar. Até que ele finalmente chega: "Então, nós levamos seu texto "Lidando com o racismo" pra ler e debater com os meninos lá no instituto". Isso gerou GEROU uma série de discussões sobre o tema e aí surgiu a idéia de replicar com eles o ocorrido no filme. 

O que aconteceu depois foi simplesmente inacreditável.
 

Recebi mais ou menos 50 cartas à moda antiga, escritas com caneta e papel, com direito a envelopinhos coloridos, adesivinhos, coraçõeszinhos e floreszinhas desenhadas. Me emocionei. Isso é raro de se ver hoje em dia.
Como se isso já não fosse honra bastante, fui convidada a ir lá, conversar com eles. E o que aconteceu naquele dia, foi muito tocante. Tanto que vou precisar de mais um post pra contar pra vocês tudo que me marcou naquele dia.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Instituto João Carlos Paes Mendonça

Eu tenho a sorte de ser muito amiga de um cara chamado Eduardo Lubisco. Lubi, como ele é carinhosamente conhecido por muitos, além de professor de inglês, é um educador fora de série. Por ser uma pessoa extremanente sensível e preocupada com as questões sociais de nosso tempo, ele está sempre engajado em alguma causa e contribuindo de sua forma, para melhorar o mundo a seu redor. Sabe quando a gente diz assim: "as pessoas deveriam falar menos e agir mais"? Pois é, ele é uma dessas pessoas que agem.

Há mais ou menos dois anos ele trabalha no Instituto JCPM. Até bem recentemente, eu não fazia a menor idéia que esse projeto existia. Aposto que muitos de vocês também não, né? Deixa eu contar do que se trata porque é uma dessas coisas que vale a pena conhecer. O grupo JCPM (responsável por empreendimentos imobiliários e shopping centers espalhados por todo o Brasil) mantém um instituto de compromisso social em áreas carentes próximas a seus empreendimentos em todas as cidades onde se estabelecem. Aqui em Salvador, por exemplo, o Instituto JCPM funciona no Shopping Salvador e atende jovens entre 16 e 24 anos, que sejam moradores ou que frequentem ou tenham frequentado escola pública nos bairros de Pernambués e Saramandaia.

Lá nesse instituto, eles tem aulas de matemática, português, inglês e informática além de treinamento e auxílio para ingressar no mercado de trabalho. Dia 19 de novembro eu estive lá pela primeira vez e foi um dia que vai ficar pra sempre marcado em minha memória e meu coração. Querem saber por quê? Aguardem o próximo post...

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Desrespeito com máscara de admiração



A primeiríssima vez que fui a Bremen, na Alemanha, foi em 1999. Cheguei meio cabreira, assustada, com medo de racismo e das tantas estórias de horror que eu ouvia de estrangeiros na Europa e fui surpreendida com a abertura e tranquilidade com as quais eu fui recebida. E essa forma de me acolher permaneceu por muito tempo, tanto que demorou bastante até eu começar a notar um  monstro feio mostrando suas garras.


Antes de eu contar como isso aconteceu, deixa eu explicar uma coisa: apesar da Alemanha ser um país pequeno se comparada ao Brasil, sua diversidade cultural também é imensa. As diversas regiões tem geografia, costumes, culinária (e cervejas) diferentes e as pessoas apreciam essa diferença. Eles só dizem que são alemães quando não tem jeito, mas estufam o peito com orgulho ao dizer que são de determinada cidade ou região. 


Tendo esclarecido isso, acrescento que o que eu vou contar aqui tem muito a ver com o que se vive no norte da Alemanha. Pode ser bem diferente em outras regiões. Mas voltando a 1999, Bremen me tratou muito bem. Fui recebida por pessoas sorridentes e interessadas em  saber como eu pensava, como era minha cidade, minha vida, as comidas no Brasil, como eu me sentia na Alemanha. No início era como se eu fosse uma espécie de celebridade. Era o centro das atenções em qualquer festa. Nas rodinhas de apresenção em eventos, se eu não tomasse cuidado, era a única a falar porque todos queriam me ouvir, saber de mim. Tendo sido criada como filha única mimadíssima, adorava aquilo tudo. Fiquei ainda mais comunicativa, fiz um monte de amigos e tinha certeza que tinha encontrado o paraíso mundial da tolerância e boa convivência entre as pessoas. 


Mas o tempo foi passando. Minha vida foi ficando mais normal, tomando cara de vida de cidadã e menos de turista recém-chegada. E com essa mudança de rotina comecei a perceber que minha popularidade não era assim somente linda e maravilhosa. Existia uma coisa meio estranha naquela atenção toda que recebia, eu só não conseguia saber exatamente o quê. 


Comecei a perceber que as pessoas se interesavam muito pelo meu cabelo. Achavam lindo, mas sempre queriam saber se era de verdade (?), se dava trabalho de cuidar, que produtos eu usava. Perguntavam se podiam pegar. Quando se tratava de pessoas com as quais eu tinha mais contato, pessoas mais ou menos próximas, eu muitas vezes dizia que sim e aí elas se espantavam e comentavam que a textura de meu cabelo não correspondia com o que elas estavam esperando. E os elogios não paravam. A impressão que eu tinha é que sempre demorava um pouquinho demais pra eu conseguir mudar o assunto da conversa depois que o tema caia em meu cabelo. Ou em minha pessoa de forma geral. Isso começou a fazer com que eu parasse de apreciar aquela atenção toda. Tem dias que a gente só quer entrar e sair de um lugar, mas comigo parecia que era impossível. Comecei a me sentir, sei lá...super exposta, invadida.


Queria muito entender porque a cordialidade das pessoas em algumas situações de repente começava a me incomodar. Será que eu estava pirando? Precisava entender porque eu estava me sentindo assim, até que um estranho me ofereceu a última peça que faltava pro meu quebra-cabeças. Esse estranho, que esperava a vez dele depois de mim e meu marido em uma fila de supermercado, me lança a seguinte pergunta depois de me ver sorrindo „Ei, os seus dentes são de verdade?“ Fiquei olhando pro tal homem com cara de interrogação. Meu marido não se conteve e foi mais direto querendo logo saber que tipo de comentário era aquele. O rapaz explica que seria um elogio e naquele exato momento percebo que na Alemanha muitas vezes é como se eu fosse um animal exótico.


Tudo chama atenção, tudo desperta a curiosidade e as pessoas estão constantemente analisando tudo. Meus dentes, meu cabelo, minha pele, meu sotaque, meu intelecto, minha forma de andar, meu corpo inteiro. Ficam na expectativa pra ver como eu vou me comportar,  se e como vou dançar, em que idioma me comunico com meu marido. Como se não bastasse, sentem a necessidade de comentar todas as coisas que observam sobre mim, sem fazer uso de qualquer filtro que seja e se decepcionam se minhas respostas ou comportamentos não correspondem ao que esperam. 


Comecei a me cansar de despertar sempre o mesmo assunto da conversa. Passei a recusar certos convites por perceber que minha presença serviria de troféu pra consciência de quem me convidou. Era como se eu estivesse ali somente para representar a cota afro descendente e estrangeira em um grupo que nunca se incomodou em ser maioria e nunca prestou atenção pro fato de que no mundo existem pessoas diferentes delas, que podem ter vidas bem mais complicadas que as suas.


É difícil a mulher negra (ou brasileira de qualquer cor) escapar dessa super exposição na Alemanha. Confesso que já me deu vontade de sair de burca. Mas sabe de uma coisa? Quem tem de se esconder não sou eu. E quem tem de ser exposta é essa forma de pensar estigmatizante. Por isso resolvi pagar com a mesma moeda. Comecei a criar o hábito de devolver os „elogios“ sem noção com a mesma simpatia, insistência e falta de lógica. Os resultados são surpreeendentes. Pessoas desacostumadas a serem alvo constante das atenções sem noção, mudam de assunto, acham estranho, querem saber exatamente porque o „elogio“. Percebo pelas reações que tenho razão de me sentir ofendida com certos comentários disfarçados de elogio que me objetificam e super expõem. 


É interessante ver como as pessoas reagem sensíveis quando o jogo vira. Na Bahia, a gente costuma dizer „pimenta nos olhos dos outros é refresco“. Para os adeptos da intolerância, ultrapassagem de limites, invasão do espaço alheio, super exposição e objetificação dos outros é  elogio ou admiração.
______________________________
Para As Blogueiras Negras no dia 31 de Outubro de 2013. 

sábado, 21 de setembro de 2013

Necessidades Normais

Há dez anos minha mãe foi diagnosticada com Parkinson e com isso passou a fazer parte dos quase 14,5 % dos brasileiros que tem necessidades especiais. Fazer parte desse grupo não é nada fácil. Exige paciência, tolerância, grana e muito poder de se adaptar. Mas nem tudo é só triste e negativo.Ter algum tipo de deficiência oferece também inúmeras chances de reflexão e crescimento emocional e espiritual tanto para a pessoa, quanto para seus familiares. Uma coisa muito difícil, no entanto é ver como além do círculo familiar e dos amigos, muitas vezes rola uma falta de jeito das pessoas ao lidar com pessoas com essas necessidades.

Isso fica bem claro, por exemplo, quando saio com minha mãe por aí e vejo gente se impacientando quando ela está na fila abrindo a bolsa pra pegar o dinheiro pra pagar algo. Nessas situações, chovem perguntas e sugestões do tipo "Ajude ela!", "Abra a bolsa dela!" "Você não sabe a senha dela, não? Digite aí pra ela!" "Pra que você trouxe ela?" Nem sempre dá pra responder tudo isso na hora, por isso eu vou tentar responder aqui.

Vou começar pelo mais óbvio. Existem tipos diferentes de necessidades especiais e as formas dxs cuidadores ajudarem essas pessoas devem ser compatíveis com o tipo de dificuldades que elas enfrentam. A minha mãe, por exemplo, tem dificuldades motoras, mas seu raciocínio continua em cima, ou seja, não tem porque eu atropelar seu poder de se expressar e decidir nada por ela. Ela pode portanto, decidir se e quando quer ajuda e solicitar se preciso.

Muitas vezes sem querer e cheios de boas intenções, a gente acaba infantilizando e coisificando pessoas com necessidades especiais. Como você se sentiria se alguém metesse a mão na sua bolsa e pegasse seu dinheiro? Se alguém, mesmo que fosse de sua família, tomasse a sua frente na hora de pagar e digitasse sua senha na maquininha? Se do nada, alguém pegasse em qualquer parte do seu corpo? Acho que todo mundo concorda que não se faz nada disso com uma pessoa que não viva com nenhum tipo de deficiência por pura questão de bom senso e respeito ao espaço pessoal do outro. Porque não estender isso a quem tem necessidades especiais? Então eu pergunto se a pessoa quer que eu ajude antes de ajudar, pergunto se eu posso pegar nela ou nas coisas dela antes de pegar e se a pessoa diz "não" eu repeito. Acho que isso responde porque em algumas situações eu não ajudo, não abro a bolsa ou digito a senha da minha mãe.

A outra pergunta que me fazem muito, "porque você trouxe ela?" tem muito a ver como o que eu acabei de explicar também, mas vai além. Pessoas com necessidades especiais não devem ficar trancadas em casa sentadas/deitadas na frente da TV, inertes como se fossem parte do mobiliário da casa. Se elas podem de alguma forma se locomover, devem fazê-lo, se podem cuidar de si mesmas, resolver suas coisas, idem. Arrancar todas as tarefas e responsabilidades das mãos dessas pessoas, ao invés de ajudar até atrapalha.Todo mundo gosta de se sentir no controle da própria vida, não é mesmo? Isso sem contar que esconder certas pessoas em casa porque elas não correspondem ao padrão que todo mundo gosta de ver, é coisa da era medieval e do nazismo. Minha mãe gosta de sair, tem dificuldade de locomoção, é adulta e tem contas a pagar. Por isso eu a levo mesmo e vou continuar levando enquanto ela puder se mexer e quiser ir.

Hoje é Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência. Vamos aproveitar essa data para refletir sobre a forma como tratamos essas pessoas. A inclusão delas na sociedade passa por, mas vai muito mais além que construir rampas de acesso a transporte e locais públicos. É também (e talvéz em primeiro lugar) uma questão de passar aceitar que essas pessoas, assim como todos nós, querem ser tratadas com respeito, tem direito e querem administrar as próprias vidas quando possível e com suas habilidades variáveis, conseguem fazer algumas coisas e não conseguem ou tem dificuldade de fazer outras. E o que é isso senão absolutamente normal?


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sound of da Police - O som da polícia

Tem um blog alemão de humor e variedade que eu adoro futucar nas horas vagas. Ele junta vários videos interessantes e engraçados que pessoas do mundo todo mandam pra ele. Os comentários são ótimos e boa parte dos vídeos também. Essa semana encontrei um (enviado por Theo bat schandorff), que primeiro me fez sorrir e depois me colocou pra pensar muito. Assistam:


Pra quem não entendeu nada, se trata do festival Roskilde na Dinamarca, e o que vocês podem ver é uma patrulha policial. A "viatura" é uma espécie de boombox gigante, empurrada por uma pessoa e puxada por outra, provavelmente participantes do festival. Em cima do carro uma reporter pega carona com seu instrumento de trabalho. Ao lado dela, dois policiais sorridentes vão curtindo o som de KRS One – Sound of da Police.

Nos comentários abaixo do post no blog, se lê pessoas confirmando que o clima lá nesse festival é assim mesmo. Todo mundo relaxado e engraçadinho inclusive a polícia. Conversando com uma professora dinamarquesa lá da escola onde trabalho, ela me disse que a polícia deles tem fama de ser assim mesmo: leve, super tranquila e muito, mas muito educada mesmo. Sei que é covardia querer comparar Dinamarca com Brasil, mas não pude deixar de pensar em nossa polícia e como tudo é diferente por lá.

Eu sei que existem vários fatores que fazem a polícia brasiliera ser do jeito que é. Sempre tem. História, péssimos salários, formação ruim, falta de investimento em especializações, péssimo treinamento, falta de incentivo e reconhecimento dentro da corporação, condições de trabalho precárias e extremamente perigosas e a lista não para. Eu sei que não é fácil ser policial no Brasil. Mas também sei que não é fácil ser cidadã/o e depender dessa instituição. Quando vejo a forma como nossa polícia tem lidado com manifestantes e a imprensa, e principalmente como lida com a população negra de baixa renda, fico assustada. Não queria pensar assim, mas na verdade a máxima que diz "não sei se tenho mais medo de ladrão ou de polícia" é a mais pura verdade.

Assisto novamente o video desse festival dinamarquês e fico pensado em como a imagem é surreal. Policiais felizes, provavelmente bem treinados e ganhando bem, podendo exercer sua profissão sem medo, integrados no ambiente no qual tem de trabalhar, fazendo seu trabalho sem assustar ninguém. O pessoal no video parece estar curtindo a piada e não morrendo de receio de ser aleiatoriamente vítima de violência policial. A ironia da cena vem do fato que a letra da música que eles estão ouvindo tão despreocupados, lembra mais a realidade de outros cantos do mundo do que a deles próprios. KRS One canta sobre os Estados Unidos, mas bem que poderia estar cantando sobre o Brasil.

Na música o rapper compara o policial com um "overseer", um feitor "e faz uma exigência: "First show a little respect, change your behavior/ Change your attitude, change your plan" que traduzindo fica assim: demonstre um pouco de respeito, mude seu comportamento, mude sua atitude, mude seu plano. E é verdade, né? Nem nos Estados Unidos, nem no Brasil, a comunidade negra carente pode contar com proteção policial. Pelo contrário, este grupo social é vítima constante de constragimentos e humilhação ao lidar com a polícia, normalmente já de cara sendo tratados como suspeitos e eternas vítimas do racismo institucionalizado do Brasil. A sociedade, por sua vez, é conivente com esse quadro, quando prefere ignorar que a grande maioria das vítimas de mortes violentas no país tem um perfil mais do que claro: morador de periferia, jovem e negro.

Me dá medo quando percebo que além de não se indignar com essa situação, nossa sociedade ainda começa a defender medidas drásticas como a diminuição da idade penal. Se isso algum dia isso virar realidade, o perfil dos alvos favoritos da polícia mudaria de jovens negros entre 19 e 24 anos para ainda mais jovens e isso é assustador. Minha tendência é achar que a solução para quase todos os problemas sociais do planeta é educação. Uma sociedade bem educada conhece bem seus direitos e deveres e por isso sabe acompanhar o trabalho de seus representantes e quando necessário exigir mudanças. Uma sociedade bem educada também sabe que é importante estar atento e envolvido em diversas questões sociais e não somente com aquelas que tem a ver com o próprio umbigo.Uma força policial bem educada, por sua vez, conhece bem a população a qual tem de servir, seus problemas e a melhor forma de lidar com eles. Uma polícia bem educada sabe que seu lugar não é acima da lei e sabe que eles não são pagos pra coagir ninguém.

Educação faz as pessoas mais críticas e menos dispostas a seguir ordens cegamente. Mais educação significa menos vítimas de qualquer coisa, seja de crimes violentos, opressão ou destino. Com educação o ser humano fica mais firme pra fazer as próprias escolhas e aceitar as consequências delas e discursões se tornam hábito, atividade corriqueira.

Não dá mais pra evitar discutir sobre a polícia brasileira. Já passou da hora de toda sua estrutura, treinamento, atitude e filosofia serem colocadas em questão. Mas enquanto a gente preferir acreditar que cadeia é melhor que escola e que as mortes da periferia não tem nada a ver com a gente, as frases que eu retirei do rap de KRS One (e esse rap é de 1993), infelizmente sempre corresponderão à nossa (vergonhosa) realidade.

"I know this for a fact, you don't like how I act
Eu sei que isso é um fato, você não gosta de como eu ajo
The overseer rode around the plantation
O feitor cavalgava pela plantação
The officer is off patroling all the nation
O policial tá por aí patrulhando a nação
The overseer could stop you what you're doing
O feitor podia parar o que você está fazendo
if you fought back, the overseer had the right to kill
Se você se defendesse, o feitor tinha o direito de matar
The officer has the right to arrest
O policial tem o direito de prender
And if you fight back they put a hole in your chest!
E se você se defender eles metem bala em seu peito
They both ride horses
Os dois andam a cavalo
After 400 years, I've got no choices!
400 anos mais tarde eu não tenho escolha!
My grandfather had to deal with the cops
Meu avô tinha ade lidar com policiais
My great-grandfather dealt with the cops
Meu bisavô tinha de lidar com policiais
And then my great, great, great, great... when it's gonna stop?!
O meu tataravô ... quando isso vai acabar?

Eu me pergunto o mesmo. Quando esse ciclo doente vai parar? Quando as pessoas começarão a apreciar o componente africano de nossa cultura em qualquer época do ano e não somente no carnaval? Quando vão parar de ignorar que a desigualdade social no Brasil está intimamente ligada com o racismo e parar de ficar investindo tanta energia em negar que ele existe?Quando vamos nos indignar com essa polícia repressora, despreparada e assassina da juventude negra? Quando vamos finalmente entender que não existe desenvolvimento verdadeiro enquanto existirem grupos que são deixados pra trás? Quando?
------------------------------------------------------------------------------
Post para As Blogueiras Negras. Postado dia 02 de Agosto de 2013.

sábado, 27 de julho de 2013

Happy Birthday

Em 1980 Steve Wonder lançou o que acabaria se tornando a minha música de aniversário favorita. Quando penso no aniversário de alguma pessoa querida ou no meu próprio, é sempre essa musica que me vem à cabeça. Quando ela foi lançada eu era uma pequena peruinha de quatro anos de idade e por isso não tinha noção que além de linda, essa música tem um significado muito especial. Hoje em dia, não só gosto da música, como me arrepio toda vez que escuto.

O aniversariante da música é Martin Luther King Jr., líder religioso e do movimento por igualdade racial nos Estados Unidos. Ele estava à frente da Marcha à Washington onde fez o celebrado discurso (I Have a Dream) que anos depois viraria mantra das aspirações sociais no mundo inteiro. Em 1968 ele foi assassinado e desde então começaram a surgir diversas campanhas pedindo um dia dedicado a sua homenagem.

Não me perguntem por que, mas no início os americanos resistiam em aceitar o feriado com o nome de Martin Luther King's Day. Aliás eu sei porque, mas deixa quieto por enquanto que neste post eu só queria mesmo falar de uma música de aniversário que eu adoro. O fato é que durante anos, alguns estados comemoravam essa data apenas com o nome de Civil Rights Day. Várias campanhas prosseguiram tentando convencer as pessoas a adotar o feriado com o nome que ele tem hoje - dia de Martin Luther King -  e essa música de Steve Wonder faz parte dessa campanha. Em 2000, finalmente o feriado passou a ser comemorado em todo os Estados Unidos com o nome do homenageado.




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Dia da Mulher Afro- Latino-Americana e Caribenha

Em 1992 o dia de hoje foi instituído pela ONU como o dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha durante a primeira conferência de mulheres dessas etnias na República Dominicana. Sendo hoje também, meu aniversário, sei que a data me toca duplamente. Aproveito, portanto meu dia hoje pra refletir sobre o que é pra mim ser uma mulher negra latino americana.

Eu valorizo quem eu sou e minha história. Me orgulho de minha família e das dificuldades que algumas vezes enfrentamos pois reconheço que a forma como lidamos com essas situações complicadas modela nosso carater, nos dá força. Adoro o fato de saber que minha história é feita de vários pedacinhos de vários lugares da Europa, do Brasil e da Africa. No conjunto de fatores que fazem de mim quem eu sou, o que não falta é coisa para escolher e aprender, culinária pra experimentar, tradições pra conhecer, idiomas pra falar. Dentro de minha família, uma família só, o que não falta são cores diferentes de olhos e peles, texturas e cores diferentes de cabelos, formas diferentes de corpos. Isso é muito lindo, porque de repente é como se eu pudesse me identificar com o mundo todo.

Mas por mais orgulho que minha história me dê, ela também me traz muita dor. Ser uma mulher negra latino americana infelizmente também significa que as pessoas às vezes se sentem incomodadas com minha presença, seja por não saberem como se comportar comigo e ficarem tensos porque querem parecer não racistas, ou por não desejarem minha presença mesmo e pronto. Significa que de vez em quando eu sou completamente ignorada em uma conversa. A minha história infelizmente também acaba fazendo com que muitas vezes eu seja a única em qualquer lugar que eu vá. A única negra do mestrado, a única negra no restaurante que não está trabalhando como babá, correndo atrás de uma criança que não é sua. É ser tratada como animal exótico, que pode ter bunda grande, ser sensual e saber dançar, mas causar estranheza quando digo que meu trabalho é com o cérebro. É ter de aguentar pessoas próximas insistirem que a discriminação que eu vivo na pele não é racismo, é qualquer outra coisa, que eu estou paranóica, exagerando, procurando cabelo em ovo. É crescer ouvindo pessoas na minha própria família dizerem que meu cabelo é ruim e feio e ser pressionada a vida inteira pra alisar, prender e domar meu piau, minha bucha, minha vassoura de palha.

Mas o 25 de Julho foi criado para ser um marco de luta e resistência. Assim como a data pede eu resisto a esteriótipos e questiono quem quer que queira me limitar. Quando tentam me calar eu faço mais barulho, quando tentam me dominar eu esperneio e quanto mais luto, mais me fortaleço. Parabéns a todas as nós Negras, a todas nós Latino Americanas e todas as Caribenhas. Vamos fazer barulho em nosso dia. Apesar de tudo a gente sempre supera e arrasa sempre!

------------------------------------------------------------------------------
Este texto faz parte da I Blogagem Coletiva 25 de julho, organizada pelas Blogueiras Negras.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Palavras de carga

Tenho pensado muito sobre a origem de certas palavras e de como elas se transformam com o tempo. Especialmente sobre as que acabam adquirindo novos significados problemáticos e controversos. A palavra mulatx é uma delas. Pra que não fique nehuma dúvida no ar, deixa eu explicar de onde ela vem.

"Mulatx" é uma derivação da palavra "mula", aquele animal estéril, resultado do cruzamento do jumento com o cavalo. Inúmeros registros etmológicos indicam que foi há mais ou menos 400 anos, ou seja, durante o período escravatista brasileiro, que essa palavra começou a ser usada para se referir aos filhxs de negrxs com brancxs. Não precisa ser nenhum gênio pra notar essa estranha comparação, né? Naquela época, uma pessoa nascida de um cruzamento percebido como no mínimo insólito, assim como no caso do animal, era tida como um híbrido, nem brancx nem pretx e por isso exigia uma classificação à parte. Uma classificação limitante e preconceituosa, mas que infelizmente insiste em se manter no vocabulário do brasileiro com o passar do tempo.

Se uma nova palavra cai no gosto dxs falantes de uma língua ela ganha notoriedade através de seu uso contínuo e com o tempo acaba entrando pro vocabulário oficial da língua. Depois de séculos, ox falantes nativos nem sempre sabem qual a verdadeira origem das palavras que usam, porque realmente não é necessário saber de onde vem uma palavra pra entender o que ela significa em um contexto, ou pra saber empregá-la pra comunicar o que se quer. No entanto é difícil encontrar uma pessoa negra que não se lembre da origem da palavra "mulatx".

Eu detesto ser chamada de mulata. Mas isso sou eu. Tem muito negrx que parece não se incomodar muito com isso. É que muitas vezes vítimas de preconceito se reapropriam das palavras usadas pra feri-las. Na America do Norte, por exemplo, muitos negrxs usam entre si a palavra "nigga", que é uma derivação de "nigger" e que era originalmente uma forma de insultar pessoas de pele escura. Eu até entendo a lógica dxs negrx que não se incomodam com a palavra "mulatx" ou que tentam redefinir para si mesmxs o significado de "nigga". Palavras não são racistas em si. O preconceito vem é dos significados que nós atribuimos a elas. A grande questão é que não faz tanto tempo assim que nós negrxs começamos a ter o direito de contar nossas estórias usando nossas próprias vozes, partindo de nossos pontos de vista. Talvéz por isso essas controvérsias ainda existam, ou seja, alguns de nós se identificam com termos que muitxs outrxs rejeitam e vice-versa.

Eu sou é negra, prefiro que me chamem assim e não de mulata, escurinha, morena ou qualquer outro eufemismo desjeitado. Fico mesmo é muito triste quando percebo que tanta gente parece que fica meio constrangida de me chamar da forma que eu prefiro. Já ouvi muita gente dizer que não sabem mais como se referir a uma pessoa negra, que tem medo de ofender e por aí vai. Eu vejo alguns pontos interessantes nessa estória.

O primeiro deles é meramente uma questão de bom senso. Como já disse antes, nenhuma palavra é racista. O racismo está é na cabeça das pessoas que as usam. Quer ver uma coisa? "Negx" – uma variação da palavra "negrx", pode ser usada tanto pro bem quanto pro mal. Vocês conseguem perceber a diferença entre "O que é que você quer reclamando aqui sua nega preta?" que uma vez ouvi uma vendedora dizer a minhã mãe e o famoso "Ô nega, cê me faz um favor?" que tanto se usa em Salvador, inclusive independentemente da cor da pele de txl "negx" ser realmente preta. Da mesma forma que o tom faz a música, as situações e os contextos fazem o racismo.

O segundo ponto tem a ver com nossa (falta de) empatia para com os problemas dos outros. Pra uma pessoa que não faz parte de nenhum grupo, que é constante alvo de discriminação deve ser difícil entender que quando qualquer minoria decide que não tolera mais certo tipo de tratamento ou classificação e parte pro ataque, não é porque uma única pessoa, sem querer colocou os pés pelas mãos e falou uma besteira sem pensar. Essa atitude defensiva vem de vidas inteiras ouvindo os mesmos comentários, de várias pessoas, em vários momentos.

Se você faz parte desse grupo, deixa eu tentar te explicar como é isso. Imagine aí que você chegou na escola ou no trabalho depois de ter dado um corte radical no cabelo. Como você se sentiria depois de ouvir pela centésima vez no dia "nossa, você cortou o cabelo!"? Ninguém está querendo intencionalmente te encher o saco, mas ninguém nem imagina quantas vezes você já ouviu a mesma frase no mesmo dia. Isso sem contar que vai ter gente que vai achar seu corte lindo e gente que vai achar horrível. Tem os que vão guardar suas opiniões sobre seu novo visual pra si mesmos e os que vão te dizer exatamente o que acharam mesmo sem você ter perguntado. Muitos dirão o que acharam de seu novo corte na sua frente, outros vão falar mal por trás. Os comentários negativos muitas vezes chega de pessoas que você menos espera e isso te machuca. Só que no nosso caso não é só o cabelo, é nossa aparência inteira que desperta essas reações. E não é só no primeiro dia depois do corte, é a vida toda. Tá vendo como faz sentido ter cuidado com o que se diz?

Eu particularmente acho positivo quando genuinamente na dúvida, algumas pessoas me perguntam se podem me chamar assim ou assado. Acho muito bom quando o ser humano tem coragem de admitir ignorância e demonstra vontade de aprender. Mas eu sou professora, né? Faz parte de minha profissão e eu aproveito mesmo para ensinar. Mas repito: isso sou eu. Não posso garantir que todo mundo fique à vontade com isso. Lembre-se, de que com certeza não será a primeira pessoa para quem esta outra estará respondendo essa pergunta, não se esqueça do exemplo do corte de cabelo.

A melhor coisa a fazer se você não sabe que termo usar pra se referir a alguém de pele escura, é ficar atento e escutar com cuidado e sensibilidade. Preste atenção a como a pessoa se refere a ela mesma. Muitas vezes nós nos concentramos tanto em nossa perspectiva das estórias que acabamos não escutando a estória de ninguém. Esse medo todo de ofender muitas vezes tem menos a ver com a compreensão da situação do outro e mais com a tentativa de evitar o próprio constrangimento. Porque se a questão for simplesmente preservar o outro, e não tivermos certeza se um termo pode ser ofensivo, uma opção bem simples é não usá-lo. Só no dicionário Aurélio existem mais de 400.000 palavras catalogadas, com certeza a gente consegue achar alguns sinônimos para uma palavra quando estivermos achando que o impacto de uma delas pode ser negativo para alguém.

Pra finalizar tem também a nossa mania de defender nossos mau-hábitos com o pé firme e uma certa má vontade de agir pra mudá-los. Já vi muita gente se revoltando quando um termo politicamente correto surge e passa a ser preferido ao invés de um que é limitante ou ofensivo. Muitos acham bobagem, mas não é. Na minha opinião, ser mulatx é muito diferente de ser negrx ou afro-descendente. O primeiro sugere uma consequência anormal de um relacionamento incomum enquanto os outros dois representam fatos, o que se vê, o que se sabe sobre a origem de alguém. O primeiro carrega um julgamento enquanto os outros são neutros. E podem ter certeza que nossos cérebros sabem disso.

Inúmeras pesquisas em linguística já mostraram que a língua influencia nosso pensamento. Sendo assim, reavaliar nosso vocabulário não é uma mera questão de cortesia e muito menos coisa de intelectual que não tem o que fazer e sim um exercício importante de crítica e transformação social. Ninguém merece passar a vida carregando nas costas o peso de ser comparado a um animal, então vamos começar? esqueçamos xs mulatxs para melhor enxergar ox negrxs e afro-descendentes.

P.S. Que tal aproveitar a chance pra dar uma limpada geral no vocabulário e em consequência na mente? Fiquem atentos ao uso de palavras que limitam e esteriotipam as pessoas não só em relação a etnia, como também em relação a gênero, idade, situação social... Isso além de ampliar o seu vocabulário vai ainda ajudar a melhorar o mundo ao seu redor.