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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Palavras de carga

Tenho pensado muito sobre a origem de certas palavras e de como elas se transformam com o tempo. Especialmente sobre as que acabam adquirindo novos significados problemáticos e controversos. A palavra mulatx é uma delas. Pra que não fique nehuma dúvida no ar, deixa eu explicar de onde ela vem.

"Mulatx" é uma derivação da palavra "mula", aquele animal estéril, resultado do cruzamento do jumento com o cavalo. Inúmeros registros etmológicos indicam que foi há mais ou menos 400 anos, ou seja, durante o período escravatista brasileiro, que essa palavra começou a ser usada para se referir aos filhxs de negrxs com brancxs. Não precisa ser nenhum gênio pra notar essa estranha comparação, né? Naquela época, uma pessoa nascida de um cruzamento percebido como no mínimo insólito, assim como no caso do animal, era tida como um híbrido, nem brancx nem pretx e por isso exigia uma classificação à parte. Uma classificação limitante e preconceituosa, mas que infelizmente insiste em se manter no vocabulário do brasileiro com o passar do tempo.

Se uma nova palavra cai no gosto dxs falantes de uma língua ela ganha notoriedade através de seu uso contínuo e com o tempo acaba entrando pro vocabulário oficial da língua. Depois de séculos, ox falantes nativos nem sempre sabem qual a verdadeira origem das palavras que usam, porque realmente não é necessário saber de onde vem uma palavra pra entender o que ela significa em um contexto, ou pra saber empregá-la pra comunicar o que se quer. No entanto é difícil encontrar uma pessoa negra que não se lembre da origem da palavra "mulatx".

Eu detesto ser chamada de mulata. Mas isso sou eu. Tem muito negrx que parece não se incomodar muito com isso. É que muitas vezes vítimas de preconceito se reapropriam das palavras usadas pra feri-las. Na America do Norte, por exemplo, muitos negrxs usam entre si a palavra "nigga", que é uma derivação de "nigger" e que era originalmente uma forma de insultar pessoas de pele escura. Eu até entendo a lógica dxs negrx que não se incomodam com a palavra "mulatx" ou que tentam redefinir para si mesmxs o significado de "nigga". Palavras não são racistas em si. O preconceito vem é dos significados que nós atribuimos a elas. A grande questão é que não faz tanto tempo assim que nós negrxs começamos a ter o direito de contar nossas estórias usando nossas próprias vozes, partindo de nossos pontos de vista. Talvéz por isso essas controvérsias ainda existam, ou seja, alguns de nós se identificam com termos que muitxs outrxs rejeitam e vice-versa.

Eu sou é negra, prefiro que me chamem assim e não de mulata, escurinha, morena ou qualquer outro eufemismo desjeitado. Fico mesmo é muito triste quando percebo que tanta gente parece que fica meio constrangida de me chamar da forma que eu prefiro. Já ouvi muita gente dizer que não sabem mais como se referir a uma pessoa negra, que tem medo de ofender e por aí vai. Eu vejo alguns pontos interessantes nessa estória.

O primeiro deles é meramente uma questão de bom senso. Como já disse antes, nenhuma palavra é racista. O racismo está é na cabeça das pessoas que as usam. Quer ver uma coisa? "Negx" – uma variação da palavra "negrx", pode ser usada tanto pro bem quanto pro mal. Vocês conseguem perceber a diferença entre "O que é que você quer reclamando aqui sua nega preta?" que uma vez ouvi uma vendedora dizer a minhã mãe e o famoso "Ô nega, cê me faz um favor?" que tanto se usa em Salvador, inclusive independentemente da cor da pele de txl "negx" ser realmente preta. Da mesma forma que o tom faz a música, as situações e os contextos fazem o racismo.

O segundo ponto tem a ver com nossa (falta de) empatia para com os problemas dos outros. Pra uma pessoa que não faz parte de nenhum grupo, que é constante alvo de discriminação deve ser difícil entender que quando qualquer minoria decide que não tolera mais certo tipo de tratamento ou classificação e parte pro ataque, não é porque uma única pessoa, sem querer colocou os pés pelas mãos e falou uma besteira sem pensar. Essa atitude defensiva vem de vidas inteiras ouvindo os mesmos comentários, de várias pessoas, em vários momentos.

Se você faz parte desse grupo, deixa eu tentar te explicar como é isso. Imagine aí que você chegou na escola ou no trabalho depois de ter dado um corte radical no cabelo. Como você se sentiria depois de ouvir pela centésima vez no dia "nossa, você cortou o cabelo!"? Ninguém está querendo intencionalmente te encher o saco, mas ninguém nem imagina quantas vezes você já ouviu a mesma frase no mesmo dia. Isso sem contar que vai ter gente que vai achar seu corte lindo e gente que vai achar horrível. Tem os que vão guardar suas opiniões sobre seu novo visual pra si mesmos e os que vão te dizer exatamente o que acharam mesmo sem você ter perguntado. Muitos dirão o que acharam de seu novo corte na sua frente, outros vão falar mal por trás. Os comentários negativos muitas vezes chega de pessoas que você menos espera e isso te machuca. Só que no nosso caso não é só o cabelo, é nossa aparência inteira que desperta essas reações. E não é só no primeiro dia depois do corte, é a vida toda. Tá vendo como faz sentido ter cuidado com o que se diz?

Eu particularmente acho positivo quando genuinamente na dúvida, algumas pessoas me perguntam se podem me chamar assim ou assado. Acho muito bom quando o ser humano tem coragem de admitir ignorância e demonstra vontade de aprender. Mas eu sou professora, né? Faz parte de minha profissão e eu aproveito mesmo para ensinar. Mas repito: isso sou eu. Não posso garantir que todo mundo fique à vontade com isso. Lembre-se, de que com certeza não será a primeira pessoa para quem esta outra estará respondendo essa pergunta, não se esqueça do exemplo do corte de cabelo.

A melhor coisa a fazer se você não sabe que termo usar pra se referir a alguém de pele escura, é ficar atento e escutar com cuidado e sensibilidade. Preste atenção a como a pessoa se refere a ela mesma. Muitas vezes nós nos concentramos tanto em nossa perspectiva das estórias que acabamos não escutando a estória de ninguém. Esse medo todo de ofender muitas vezes tem menos a ver com a compreensão da situação do outro e mais com a tentativa de evitar o próprio constrangimento. Porque se a questão for simplesmente preservar o outro, e não tivermos certeza se um termo pode ser ofensivo, uma opção bem simples é não usá-lo. Só no dicionário Aurélio existem mais de 400.000 palavras catalogadas, com certeza a gente consegue achar alguns sinônimos para uma palavra quando estivermos achando que o impacto de uma delas pode ser negativo para alguém.

Pra finalizar tem também a nossa mania de defender nossos mau-hábitos com o pé firme e uma certa má vontade de agir pra mudá-los. Já vi muita gente se revoltando quando um termo politicamente correto surge e passa a ser preferido ao invés de um que é limitante ou ofensivo. Muitos acham bobagem, mas não é. Na minha opinião, ser mulatx é muito diferente de ser negrx ou afro-descendente. O primeiro sugere uma consequência anormal de um relacionamento incomum enquanto os outros dois representam fatos, o que se vê, o que se sabe sobre a origem de alguém. O primeiro carrega um julgamento enquanto os outros são neutros. E podem ter certeza que nossos cérebros sabem disso.

Inúmeras pesquisas em linguística já mostraram que a língua influencia nosso pensamento. Sendo assim, reavaliar nosso vocabulário não é uma mera questão de cortesia e muito menos coisa de intelectual que não tem o que fazer e sim um exercício importante de crítica e transformação social. Ninguém merece passar a vida carregando nas costas o peso de ser comparado a um animal, então vamos começar? esqueçamos xs mulatxs para melhor enxergar ox negrxs e afro-descendentes.

P.S. Que tal aproveitar a chance pra dar uma limpada geral no vocabulário e em consequência na mente? Fiquem atentos ao uso de palavras que limitam e esteriotipam as pessoas não só em relação a etnia, como também em relação a gênero, idade, situação social... Isso além de ampliar o seu vocabulário vai ainda ajudar a melhorar o mundo ao seu redor.

sábado, 8 de junho de 2013

Que linguística é essa?

Recentemente uma pessoa chamou minha atenção pro fato de que a mestre em linguística aqui, não sabe utilizar a crase. Aí eu fui mais além: não é só na crase que eu me embanano toda, não. Não tenho a menor idéia de como usar vírgulas e hífens. O mal é que eu os uso mesmo assim só porque acho divertido me aventurar. Às vezes funciona, outras vezes não.

Meus parágrafos também são escritos seguindo uma regra pouco convencional, a regra do fôlego. Sabe como ela funciona? Vou escrevendo na doida e depois do texto pronto, releio e saio metendo vírgulas, pontos e tudo quanto é tipo de pontuação que me ajude a respirar. Ah, e de vez em quando dou umas escorregadas com a concordância e com a ortografia também...Deveria me envergonhar, né? Oxe, me poupe, claro que não! Escrevo assim porque é assim que eu gosto (escrever pra mim é um passatempo) e isso não diminui em nada meu título. Essa simplesmente não é minha linguística.

A linguística é uma ciência complexa e maravilhosa. Ela tem tantas subdivisões e abordagens que pra quem não faz parte desse universo chega a parecer meio misteriosa. Na época que eu estava concluindo o mestrado, toda vez que alguém perguntava o que eu estava estudando e eu dizia "linguística", a pessoa quase sempre terminava perguntando "quantas línguas você fala". Pra muita gente o linguista é aquele que fala um monte de idiomas. Quem dera...

Nem todx linguísta tem de ser bom escritor também. Até mesmo porque a definição de "bom texto" pode variar de linguista pra linguista. Depende muito de quais aspectos da língua elxs julgam mais fascinantes e com os quais elxs se ocupam mais.Claro que é uma maravilha saber escrever bem, mas isso é um habilidade que muitos tem e outros não e até mesmo xs linguistas se encaixam nessa regra.

Mas afinal de contas de que se ocupa x linguista? Nossa, de tanta coisa... mas nunca de tudo ao mesmo tempo. Alguns/algumas investigam a origem das línguas, como elas se transformam com o tempo e com a regiões geográficas. Outrxs se interessam mais em saber como aprendemos esses idiomas, como falamos, o que entendemos. Há aquelxs que querem descobrir melhores formas de ensinar e aprender esses idiomas. Tem também xs que querem investigar a relação do que dizemos ou escrevemos com nossa realidade e as sociedades nas quais vivemos. Claro que também tem xs que se ocupam das regras, mas o estudo de uma língua não se resume só a isso, né? Vale a pena lembrar...

O que pessoalmente mais me fascina na linguística, é como as línguas são processadas na cognição humana. O que entendemos e porque entendemos certas palavras, frases e situações assim e não assado. Me encanta também a forma como as palavras ajudam a construir nossa realidade. Essa é a minha linguística e ela não me obriga a saber regras de ortografia

As pesquisas da subdivisão da linguística pela qual eu me interesso dão (entre tantas outras coisas) o suporte teórico que outrxs linguistas e muitxs outrxs profissionais precisam pra criar e melhorar as ferramentas maravilhosas sem as quais não podemos mais imaginar nossas vidas. São os nossos dicionários, as ferramentas de busca da internet, o teclado dos nossos celulares e computadores. Alguém aí já se perguntou como é que o Google deduz a palavra seguinte de sua busca quando você ainda nem terminou de digitar? Tudo isso é ciência da cognição humana, uma área na qual a linguística se une a psicologia e por vezes a neurologia pra desvendar os mistérios de como nossa mente funciona. 

Toda vez que entenderem alguma coisa, lá está nosso objeto de pesquisa. Se houver mal-entendido, também. Se se comunicarem com alguém ou alguma máquina (tanto faz se oralmente, por escrito) também. Quando conseguirem evitar uma baita encrenca por reformularem um pensamento escolhendo outras palavras, idem. 

Portanto, aqui vai uma sugestão: da próxima vez que fizerem uma pesquisa na internet, encontrarem um texto que chame sua atenção, resolverem digitar um comentário e ele for lido e processado por outros serem humanos, lembrem de agradecer também a um (a) linguista e por favor, perdoai as nossas crases.
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P.S. A mestra em linguistica aqui adoraria fazer um eletro-encefalograma nas pessoas que se arrepiam com erros de gramatica normativa, pra descobrir em que parte do celebro a ofensa fica resistrada. Como num vai tê como fazê isso online, vou tentar midir o tempo de reacao (e tolerância) das pessoas ao que estiver errado com meu texto. A contagem comeca já!



domingo, 26 de agosto de 2007

Why isn't Grammar Everything

Encontrei este texto no meio de um material sobre gramática que recebi na sessão de treinamento para professores da Richmond. Não sei de quem é a autoria, mas é engraçadíssimo.

Dear Son

Just a few lines to let you know that I am still alive. I am writing this slowly because I know that you can't read fast. You won't recognize the house when you come home. We've moved.

About your father, he has got a lovely new job. He has 500 men under him. He cuts grass at the cemetery. Your sister Mary had a baby this morning. I haven't found out yet whether it's a boy or a girl, so I don't know if you're an aunt or an uncle.

I went to the doctor's on Thursday and your father came with me. The doctor put a small tube in my mouth and told me not to talk for 10 minutes. Your father offered to buy it from him.

Your uncle Patrick drowned last week in a barrel of Irish whiskey at the Dublin brewery. Some of his workmates tried to save him but he fought them off bravely. They cremated him and it took 3 days to put the fire out.

It only rained twice this week, once for 3 days, then again for four days. We had a letter from the undertaker. He said that if the last payment on your grandmother's grave wasn't paid in 7 days, up she comes.

Your loving Mother,
P.S. I was going to send you five pounds, but I've alredy sealed the envelope.