Mostrando postagens com marcador Notícias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Notícias. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Motivação

Passei um tempão paradona, sem postar nada, mas não por falta de idéias. Tem dias que estou fazendo as coisas mais rotineiras do mundo, tipo tomando banho ou lavando os pratos e de repente uma idéia ou lembrança chega de fininho e quando menos espero tenho um texto completo, fluindo sem dificuldade alguma em meu pensamento. Nessas horas me vem a vontade de parar tudo e sair correndo postar, mas logo logo desisto de fazer isso por pura falta de motivação. Blogar pra quê?

Mas a motivação tem me intrigado muito nos últimos tempo. Que força poderosa é essa? Uma pessoa motivada é capaz de coisas inacreditáveis. Motivação muitas vezes parece até milagre porque ela faz muitas pessoas conseguirem transformar o impossível.

Claro que existem vários tipos de motivação, mas o que tem me interessado no momento não é exatamente o que nos motiva e sim do que somos capazes quando achamos algo que faça sentido pra gente. De vez em quando estou sem motivação nenhuma. Acho que todo mundo passa por isso uma vez ou outra. Quando isso acontece pra mim fico me sentindo cansada, impaciente com tudo, faço o que tem de ter feito contando os minutos pra acabar. O dia a dia fica meio sem graça...

Quando estou motivada me sinto diferente. Essa diferença está no meu olhar, na forma como falo daquilo que realizo por causa dessa motivação, minha postura muda literalmente. Pode ser besteira, mas gosto mais de mim quando estou motivada. Me sinto mais feliz.

Comecei a perceber motivação (e das boas o que é melhor ainda) por toda parte. Nos meus alunos, que chegam sorrindo pra uma aula às sete da noite depois de um dia inteiro de trabalho, na minha sobrinha linda que me encontra na biblioteca na sexta-feira à tarde depois da escola pra estudar, na minha comadre que depois de um dia inteiro com três crianças pequenas consegue sair e ir treinar pra uma maratona, no meu companheiro que apesar de seu dia a dia cansativo entre escola e sindicato ainda planeja trabalho voluntário nas férias, na mulher desconhecida da academia que vai malhar levando seu bebê no carrinho...

Observar pessoas motivadas assim me inspira. Então à todas as pessoas que conseguem se manter assim, aqui vai minha admiração e muito obrigada por me ajudarem a reencontrar a minha.

P.S.: Jujuba, esse texto na verdade é pra você. Você foi a primeira motivada que comecei a observar e confesso que sua atitude com a sua vida atual e com suas perspectivas para o futuro me inspiraram e me ajudaram a reencontrar minha própria motivação. Estou muito orgulhosa de ver o quanto você está determinada. Sua força de vontade e a forma como você trabalha duro são qualidades admiráveis em qualquer idade e em alguém tão jovem quanto você é simplesmente impressionante. Sua tia aqui torce muito pelo seu sucesso:-)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Lidando com o racismo: os jovens do Instituto JCPM em Salvador

Mês passado fui convidada para um bate-papo com os jovens do Instituto JCPM em Salvador. Este convite, que me pegou de surpresa e me encheu de felicidade, foi feito depois dos educadores do projeto terem trabalhado meu texto "Lidando com o racismo" em sala. Antes de ir falar com eles, eu já tinha lido as cartas que estes jovens escreveram para mim. Nelas, além de relatarem suas impressões sobre meu texto, eles me contaram suas próprias experiências com racismo.

Lá fui eu então conhecer os jovens e falar com eles. Estava meio nervosa, sem saber o que esperar, mas me sentindo extremamente honrada pelo convite e ao mesmo tempo bem ciente do tamanho da responsabilidade que vinha com esta honra. Olhar para eles e ouvir o que tinham a dizer me fez lembrar da adolescente que eu fui, cheia de energia, dilemas e inseguranças próprias dessa fase da vida e, como se isso não fosse suficiente, ainda tendo de lidar com questões de preconceito. O encontro com eles me fez pensar muito sobre os processos que temos de passar ao crescer em uma sociedade hipócrita como a nossa. Depois da conversa com eles, fiquei pensando muito sobre o seguinte:
  1. Questão de identidade racial
O brasileiro é um povo todo misturado. A gente cresce ouvindo isso à exaustão e é verdade mesmo: somos misturados. No entanto, apesar dessa miscigenação toda, na maioria dos casos é possível identificar quem é negro e quem não é, tanto que há discriminação. Ou seja, crescemos ouvindo que somos iguais, mas o mundo nos diz que somos diferentes de uma forma bem negativa.

Como ninguém gosta de ser associado a coisa ruim, é natural que surjam jeitinhos de tentar minimizar a forma negativa como somos percebidos. É aí que entram as tão pervesas estratégias de branqueamento. Desta forma, muito negro acaba virando moreno, moreninho, cabo-verde e por aí vai. Quando perguntei quem dentre eles se considerava negro, um número surpreendente de negros não levantou a mão. É sem dúvida nenhuma uma pena que nossa educação social ainda não tenha encontrado modos de fortalecer a identidade racial de crianças e adolescentes para que ninguém precise se envergonhar de ser quem é.
  1. Auto rejeição
Tanto nas cartas quanto no encontro, os jovens relataram suas experiências chocantes com o racismo. Aquelxs meninxs, entre 16 e 24 anos, já foram seguidos por seguranças de loja e shopping centers, negadxs atendimento em loja, ignoradxs quando tentavam obter algum serviço, abusadxs verbalmente com palavras tão duras que eu me recuso a repetir aqui e humilhadxs de diversas outras formas diferentes, antes mesmo de se tornarem adultos no sentido pleno da palavra e da experiência. Não precisa ser nenhum gênio para entender quantos danos isso pode causar ao emocional e psicológico de um ser humano que cresce tendo de lidar com isso.

Da mesma forma, dá pra entender porque a indústria do alisamento/relaxamento de cabelos movimenta milhões em qualquer lugar do mundo. Tem mães por aí, que com a intenção nobre de proteger e cuidar, ficam contando os dias até finalmente poderem começar a relaxar os cabelos das filhas. E assim, ao invés de aprender a nos amarmos e aceitarmos como somos, acabamos por internalizar a idéia de que nosso cabelo é "ruim" e que precisa ser domado. Como se isso já não fosse suficientemente triste, constatei que muitos daqueles jovens negros consideram as palavras "negro" e "preto" xingamentos. Que triste crescer em uma sociedade que te ensina a rejeitar até mesmo os termos que definem sua identidade.
  1. A negação do problema
Uma das formas mais maquiavélicas de garantir a perpetuação do racismo é negar que ele existe. Esta é uma estratégia cruel porque cega toda a sociedade para o problema e torna o seu combate tarefa impossível. Afinal de contas, como solucionar um problema que não existe? O mais lamentável é perceber que essa armadilha bem montada pega qualquer um, até mesmo nós, os negros. Fiquei comovida ao ouvir um menino dizer que ele sempre achou que nunca tinha sido alvo de racismo, até darem início às discussões sobre o tema em sala. A partir daí ele começou a relembrar situações do passado e pôde constatar que já tinha sido discriminado sim, inúmeras vezes.

O encontro com os educadores e jovens desse instituto foi uma experiência riquíssima em minha vida. Recebi muito carinho e tive a oportunidade de mais uma vez confirmar o quanto é importante despertar a atenção das pessoas para questões sociais e de identidade o quanto antes. É fundamental estimular as crianças desde bem cedo a se amarem e se aceitarem exatamente como são, e a nunca duvidarem de sua importância e do seu valor no mundo. Também é importante estimular o quanto antes o interesse em conhecer a própria história para melhor entender sua realidade atual. A pessoa que cresce sendo incentivada dessa forma, muito provavelmente se tornará um cidadão seguro, consciente de sua importância e sensível para as questões e os dilemas de outros seres humanos. E não é assim que se forma uma sociedade verdadeiramente igualitária?

Para saber mais sobre o instituto clique aqui. Para saber mais detalhes sobre minha visita aos jovens de lá, clique aqui e aqui.

  foto de André Pacheco:-)


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Lidando com o racismo – de outra forma

Um dia, recebi uma ligação de Lubi perguntando se eu estava com tempo. "Sim, claro. Pode falar" e ele começou a me contar uma estória longa que a princípio eu não sabia bem onde ia chegar. Contou que lá no instituto onde ele trabalha, tem uma atividade chamada "Cinema Comentado". Nessa atividade, os jovens assistem um filme e depois discutem sobre os temas abordados. O filme escolhido pela equipe de educadores tinha sido "Escritores da Liberdade" (Freedom Writers) de Richard LaGravenese. Como eu até então ainda não conhecia o filme, ele prossegiu me dando um resumo do que se tratava.



O filme não é nenhuma super produção cinematográfica, mas impressiona por ser um estória surpreendente, baseada em fatos reais. Ele mostra uma professora jovem, recém-formada e bastante idealista, que vai trabalhar em uma escola multicultural na Califórnia em uma época (1992) em que os Estados Unidos estavam fervendo com conflitos raciais. Os alunos de sua turma, são (em sua grande maioria) adolescentes em situação de risco que só concordam um com os outros em duas coisas: primeiro, que todos os outros são inimigos e segundo que a escola é uma merda. Nesse cenário pra lá de hostil pra qualquer processo educacional, ela consegue ajudar esses jovens a mudar de atitude a ponto de virarem escritores.



Não queria mais contar tanto sobre o filme, porque acho que vocês deveriam assistir. É fantástico e inesquecível. É um desses que antes de começar a ver, a gente tem de ter certeza de que se tem muuuuuito lenço de papel por perto. Mas pra que eu possa explicar como essa experiência foi especial pra mim, tenho de contar um pouquinho mais sobre a história do filme, então quem não quiser ter o fator surpresa estragado, pare de ler agora . O que vem a seguir são spoilers.


Os jovens, no filme, são estimulados a ler um livro cuja história se passa bem distante da realidade deles, tanto no tempo, quanto geograficamente falando. No entanto, por também se tratar de uma história verídica, ela de certa forma se relaciona muito com a deles. Eles,  então escrevem cartas para uma personagem fundamental da estória e conseguem fazer com que sejam recebidas e lidas. Como se isso não fosse o bastante, conseguem trazê-la para uma conversa com eles.


Lubis me explicava tudo isso ao telefone e eu só no "ahãn", "sério?" "nossa" "que bacana" sem compreender direito onde ele queria chegar. Até que ele finalmente chega: "Então, nós levamos seu texto "Lidando com o racismo" pra ler e debater com os meninos lá no instituto". Isso gerou GEROU uma série de discussões sobre o tema e aí surgiu a idéia de replicar com eles o ocorrido no filme. 

O que aconteceu depois foi simplesmente inacreditável.
 

Recebi mais ou menos 50 cartas à moda antiga, escritas com caneta e papel, com direito a envelopinhos coloridos, adesivinhos, coraçõeszinhos e floreszinhas desenhadas. Me emocionei. Isso é raro de se ver hoje em dia.
Como se isso já não fosse honra bastante, fui convidada a ir lá, conversar com eles. E o que aconteceu naquele dia, foi muito tocante. Tanto que vou precisar de mais um post pra contar pra vocês tudo que me marcou naquele dia.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Instituto João Carlos Paes Mendonça

Eu tenho a sorte de ser muito amiga de um cara chamado Eduardo Lubisco. Lubi, como ele é carinhosamente conhecido por muitos, além de professor de inglês, é um educador fora de série. Por ser uma pessoa extremanente sensível e preocupada com as questões sociais de nosso tempo, ele está sempre engajado em alguma causa e contribuindo de sua forma, para melhorar o mundo a seu redor. Sabe quando a gente diz assim: "as pessoas deveriam falar menos e agir mais"? Pois é, ele é uma dessas pessoas que agem.

Há mais ou menos dois anos ele trabalha no Instituto JCPM. Até bem recentemente, eu não fazia a menor idéia que esse projeto existia. Aposto que muitos de vocês também não, né? Deixa eu contar do que se trata porque é uma dessas coisas que vale a pena conhecer. O grupo JCPM (responsável por empreendimentos imobiliários e shopping centers espalhados por todo o Brasil) mantém um instituto de compromisso social em áreas carentes próximas a seus empreendimentos em todas as cidades onde se estabelecem. Aqui em Salvador, por exemplo, o Instituto JCPM funciona no Shopping Salvador e atende jovens entre 16 e 24 anos, que sejam moradores ou que frequentem ou tenham frequentado escola pública nos bairros de Pernambués e Saramandaia.

Lá nesse instituto, eles tem aulas de matemática, português, inglês e informática além de treinamento e auxílio para ingressar no mercado de trabalho. Dia 19 de novembro eu estive lá pela primeira vez e foi um dia que vai ficar pra sempre marcado em minha memória e meu coração. Querem saber por quê? Aguardem o próximo post...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Efeito dominó da educação

Semana passada eu declarei aqui meu amor por minha cidade e revelei o quanto tenho estado triste com as cenas de descaso que venho encontrando por aí. Esta semana vou falar de outra coisa negativa que tem chamado minha atenção no meu retorno à Salvador. A crescente falta de educação do soteropolitano.

Antes de eu começar, deixa eu esclarecer uma coisa. Pra quem ainda não sabe, eu vou repetir algo que não canso de dizer: Eu amo Salvador. Uma cidade não é composta apenas de suas belezas naturais e arquitetônicas. Boa parte do que faz uma cidade ser o que é, são seus habitantes, então eu adoro meus conterrâneos também. Nós soteropolitanos, temos um jeito de falar gostoso, somos muito engraçados, muitas vezes até sem querer. Somos barulhentos, criativos, cheios de charme e cheios de vida. Somos carinhosos e temos formas bem peculiares de demonstrar nosso afeto e senso de humor através de nosso dialeto. Enfim, o soteropolitano é show e eu adoro fazer parte desse grupo. O que eu não gosto é de perceber que nossas boas qualidades tem ficado cada vez mais guardadinhas num cantinho bem secreto e nosso lado sombra anda a solta pela cidade.

Tenho ficado chocada com as cenas de mais pura rudeza com as quais tenho me deparado por Salvador. Outro dia fui ao banco com minha mãe, que tem necessidades especiais. A fila preferencial estava longa, mas tinha cadeiras suficientes para todos. Quer dizer, teria se uma senhora não estivesse sentada em duas cadeiras. Infelizmente idade avançada não isenta a pessoa da falta de educação e a tal senhora não só se recusou a se sentar em uma cadeira apenas, como começou uma briga com quem questionou sua atitude.

Tinha ido em uma loja que ficava em uma rua sem saída. Quem estaciona na frente dessa loja tem de sair de ré, porque a rua é apertada e não há espaço suficiente para fazer manobras. Até aí tudo bem, nessa rua só tem essa loja mesmo e quem vai lá sabe disso. O único problema é quando o cara do carro da frente se recusa a entender que para ele sair mais rápido, o mais lógico é esperar que o carro que está atrás dele saia primeiro. Estavamos todos lá, uma fila de carros, tentando sair ordeiramente, respeitando o princípio primeiro o que está mais próximo da saída e assim sucessivamente, quando o apressadinho da minha frente, decide que a necessidade dele de sair daquele lugar é maior do que a todas as outras pessoas e vai saindo simultaneamente, criando assim uma fila dupla apertadíssima e inúmeras situações de susto, raiva e aperto pros outros motoristas. Fiquei sem palavras, ao que minha mãe me relembra, "Melhor ficar sem palavras mesmo. Hoje em dia as pessoas sacam armas e atiram nas outras por qualquer desentendimentozinho no trânsito". Lamentável, mas verdade.

Faz três semanas que eu estou de volta e nesse pouquíssimo tempo já presenciei dezenas de situações de indelicadeza que fizeram meus cabelos arrepiarem. É um festival de pessoas jogando latinha de cerveja pela janela do carro em movimento, correndo com o carrinho de supermercado cortando pessoas e atropelando quem vem pela frente pra chegar antes na fila, se aproveitando que alguém está segurando a porta da loja aberta e entrando rapidinho sem nem olhar pra cara da pessoa que segurou a porta ou dizer um obrigado. A lista da falta de consideração com o próximo é imensa e me enche de tristeza e vergonha alheia. Aliás, nem sei se posso chamar de vergonha alheia, já que eu faço parte desta cidade.

Resolvi me tornar uma pessoa extremamente atenta. Estou fazendo questão de ser ainda mais cordial, paciente e sensível no meu trato com as pessoas que encontro por aí, na esperança de que minha atitude crie uma espécie de efeito dominó e talvéz quem sabe um dia, uma mudança de atitude nessa cidade.

Mas aí deve ter gente que vai pensar "Quem ela pensa que é pra achar que vai mudar uma cidade?" Né bem por aí, não viu galera. Eu sei que eu sou apenas uma pessoa bem normal. Mas é que eu acredito que todas nós pessoas normais temos o poder de mudar o mundo de pouquinho em pouquinho em pequenos gestos nada fora do comum. O que eu vou dizer agora é bem cliché, mas como a gente tende a esquecer não custa nada repetir. Se eu conseguir ser gentil com uma pessoa que eu encontrar no meu dia, pode ser que essa pessoa trate o próximo que encontrar da mesma forma, afinal gentileza é bom e todo mundo gosta não é mesmo? Imagine aí: eu sou gentil com você, que é gentil com seu vizinho, que é gentil com a vendedora da loja e assim por diante até que essa onda de gentileza se espalhe pela cidade inteira. Impossível? Né nada! eu começo daqui, você começa daí e a gente vê.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pra quem ama Salvador

Quem me conhece sabe que eu amo minha Salvador, minha cidade. Não é amor cego. É amor consciente mesmo. Eu a conheço bem e sei de suas qualidades e seus defeitos. Sou apaixonada por minha cidade e ainda consigo me emocionar quando retorno à meus lugares favoritos. A descida da Contorno e o Solar do Unhão são dois entre tantos. Não canso de dizer: Salvador é linda e emocionante.

Mas nem sempre as emoções que minha cidade do coração me proporcionam são do bem. Infelizmente muitas vezes ao chegar à Salvador, ao invés de ser lembrada das inúmeras histórias que me fazem rir e sorrir neste lugar, o que eu vejo são cenas tristes que deixam claro o quanto esta cidade está abandonada, entregue à própria sorte e porque não dizer, mal amada mesmo.

Ao andar pela cidade, somente uma palavra me vem à mente: abandono. Salvador está abandonada, mal cuidada, esquecida. São inúmeras praças que ninguém frequenta, parques dominados por assaltantes e usuários de crack. Tem muitas ruas desertas, sem iluminação. Muitas calçadas quebradas e pistas esburacadas. A cidade é cheia de beleza mal aproveitada, desperdiçada. A orla é um bom exemplo disso. Nunca vi tanto potencial tão mal aproveitado. A orla dos meus sonhos teria boa iluminação e por isso seria bem movimentada de dia e de noite. Teria a melhor cena noturna de Salvador, com barzinhos e boates para todos os gostos. Teria um calçadão amplo e bem cuidado. Teria policiamento, salva-vidas e sinalização em toda sua extensão.

Essa seria a orla de meus sonhos. Mas infelizmente a realidade está bem distante disso. Hoje pela manhã fui fazer uma caminhada por lá e fiquei triste ao ver a areia da praia cheia de lixo, os urubus fazendo a festa. À noite nem sei, porque já que tenho muito o que perder, não ando dando bobeira por lá. As imagens que vejo na cidade, não só na orla, me enchem de vergonha, às vezes me dão até vontade de chorar, não só de tristeza, de frustração também.

Entra prefeito e sai prefeito e a cidade fica cada vez mais triste. Mas eu sei que o problema da falta de cuidado e abandono de Salvador não é só dos prefeitos. É nosso também. E os soteropolitanos, na minha opinião tem se mostrado péssimos cidadãos. A praia que eu vi cheia de lixo estava assim não só por falta de coleta adequada, como também porque alguém jogou aquele lixo em algum lugar que não devia. A falta de amor dos soteropolitanos com Salvador não para por aí. Além de emporcalhar a cidade, a pessoas picham os monumentos, roubam as estátuas e as lâmpadas dos locais públicos, andam com seus cachorros nas praças e não recolhem as fezes dos bichos e por aí vai.

A conservação dos espaços públicos segue uma lógica interessante. Quanto menos conservado um local for, menos comprometidas as pessoas se sentem com ele. E quanto menor o compromentimento das pessoas com um lugar, maior a predisposição delas para quebrar, destruir e nem se importarem se outra pessoa fizer o mesmo. É um ciclo horroso que foi inclusive testado e comprovado por diversos cientistas. (Zimbardo 1969 e Wilson e Kelling, 1982)

Ciclos como esses, no entanto, podem e devem ser quebrados ou melhor ainda, substituídos por outros mais positivos. Pode-se começar pequeno, devagarzinho, simplesmente não jogando lixo por aí. Quer jogar alguma coisa fora? Procure uma lixeira, ou guarde o papel na bolsa até achar uma. Eu por exemplo ando com um saquinho na bolsa. Cansou de carregar lixo consigo? Vamos exigir da prefeitura mais lixeiras pelas cidade, coletas mais eficientes, explicações sobre como estão investindo o dinheiro de nossos impostos. Mas só dá pra fazer isso se a gente fizer nossa parte, né? Isso é cuidar da nossa casa, de nossa cidade. Você gosta de Salvador? Então demonstre.

________________________________________________
P.S. Em 1969 o time de pesquisa do professor Phillip G. Zimbardo da universidade de Standford nos Estados Unidos, abandonou dois automóveis idênticos e em bom estado em duas cidades com populações bem diferentes. Um foi largado no Bronx em Nova Iorque e o outro em Palo Alto na California. Em questão de horas depois de ser abandonado, o carro do Bronx ja começou a ser saqueado. Durante semanas o carro de Palo Alto permaneceu intacto. 

Teóricos conservadores se deleitaram porque puderam dizer com base científica que quanto mais pobre a região, maior a predisposição ao vandalismo. Só que aí professor Zimbardo foi lá e deu umas marretadas no carro de Palo Alto. O resultado foi que no mesmo dia pessoas (brancas de classe média, diga-se de passagem) começaram a fazer o mesmo que o pessoal do Bronx. Este experimento foi repetido por outros psicólogos, sociólogos e criminalistas, todos mostrando resultados semelhantes. Até que os sociólogos James Q. Wilson e e George L. Kelling lançaram a Teoria das Janelas Quebradas em 1982 que resumidamente diz que quanto mais descuidado um local for, maior a probabilidade da ação de vândalos. Quando o descuido de uma região acaba "expulsando" o cidadão comum, com o tempo ele passa a ser ocupado por desordeiros. Muito interessante, vale à pena ler.:

KELLING, George; COLES, Catherine M. Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities. New York: Free Press, 2003.

Zimbardo, P. G., (1969). The human choice: Individuation, reason, and order versus deindividuation, impulse, and chaos. Nebraska Symposium on Motivation, 17, 237-307.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Dia da Mulher Afro- Latino-Americana e Caribenha

Em 1992 o dia de hoje foi instituído pela ONU como o dia Internacional da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha durante a primeira conferência de mulheres dessas etnias na República Dominicana. Sendo hoje também, meu aniversário, sei que a data me toca duplamente. Aproveito, portanto meu dia hoje pra refletir sobre o que é pra mim ser uma mulher negra latino americana.

Eu valorizo quem eu sou e minha história. Me orgulho de minha família e das dificuldades que algumas vezes enfrentamos pois reconheço que a forma como lidamos com essas situações complicadas modela nosso carater, nos dá força. Adoro o fato de saber que minha história é feita de vários pedacinhos de vários lugares da Europa, do Brasil e da Africa. No conjunto de fatores que fazem de mim quem eu sou, o que não falta é coisa para escolher e aprender, culinária pra experimentar, tradições pra conhecer, idiomas pra falar. Dentro de minha família, uma família só, o que não falta são cores diferentes de olhos e peles, texturas e cores diferentes de cabelos, formas diferentes de corpos. Isso é muito lindo, porque de repente é como se eu pudesse me identificar com o mundo todo.

Mas por mais orgulho que minha história me dê, ela também me traz muita dor. Ser uma mulher negra latino americana infelizmente também significa que as pessoas às vezes se sentem incomodadas com minha presença, seja por não saberem como se comportar comigo e ficarem tensos porque querem parecer não racistas, ou por não desejarem minha presença mesmo e pronto. Significa que de vez em quando eu sou completamente ignorada em uma conversa. A minha história infelizmente também acaba fazendo com que muitas vezes eu seja a única em qualquer lugar que eu vá. A única negra do mestrado, a única negra no restaurante que não está trabalhando como babá, correndo atrás de uma criança que não é sua. É ser tratada como animal exótico, que pode ter bunda grande, ser sensual e saber dançar, mas causar estranheza quando digo que meu trabalho é com o cérebro. É ter de aguentar pessoas próximas insistirem que a discriminação que eu vivo na pele não é racismo, é qualquer outra coisa, que eu estou paranóica, exagerando, procurando cabelo em ovo. É crescer ouvindo pessoas na minha própria família dizerem que meu cabelo é ruim e feio e ser pressionada a vida inteira pra alisar, prender e domar meu piau, minha bucha, minha vassoura de palha.

Mas o 25 de Julho foi criado para ser um marco de luta e resistência. Assim como a data pede eu resisto a esteriótipos e questiono quem quer que queira me limitar. Quando tentam me calar eu faço mais barulho, quando tentam me dominar eu esperneio e quanto mais luto, mais me fortaleço. Parabéns a todas as nós Negras, a todas nós Latino Americanas e todas as Caribenhas. Vamos fazer barulho em nosso dia. Apesar de tudo a gente sempre supera e arrasa sempre!

------------------------------------------------------------------------------
Este texto faz parte da I Blogagem Coletiva 25 de julho, organizada pelas Blogueiras Negras.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Dia de Homem

Adoro o Facebook por mil motivos. Mas principalmente porque ele dá visibilidade internacional a falta do que fazer e a babaquice, dois conceitos dos quais eu sou fã de carteirinha. Na moral, se eu tivesse autoridade pra isso, lançaria um programa de graduação em todas as universidades mundiais sobre a babaquice. Aprendo tando com ela que vocês nem tem noção. A falta do que fazer por sua vez, me proporciona a possibilidade de divulgar coisas fúteis por aí. E todos sabem que o mundo precisa muito disso né?

Pra celebrar esses dois conceitos maravilhosos, dos quais se pode usufruir tão pouco nesse mundo de meu deus, resolvi escrever esse post nada babaca pra celebrar o Dia do Homem, que por sinal soube que existe hoje através do Facebook, minha fonte principal de material da categoria "queporraéessa?".

Parabéns a nós sociedade linda, intectualmente engajada e cheia de coisas a fazer por nos ocuparmos em criar uma data tão linda e significativa pra celebrar nem sei o quê. Um brinde com cerveja e coçando o saco que nem tenho, a vocês que tiveram tempo de pensar nisso.Parabéns! Só que não.

Racismo: também está quando você não vê - por Larissa Santiago

A notícia foi de cinco dias atrás, mas repreduzo mesmo assim porque ainda está me indignando. Colei abaixo o texto de Larissa Santiago. Leiam e pasmem...


A notícia de hoje (10/07/2013) do Jornal Tribuna Hoje informa que a UFMG instaurou um processo administrativo contra 198 estudantes da Faculdade de Direito que participaram, em 15 de maço desse ano, de um trote na mesma Faculdade.

O curioso é que nenhuma menção a racismo, preconceito ou nazismo foi utilizada na processo. Os 198  estudantes serão processados por comercialização e distribuição de bebida alcoólica.
 Isso mesmo, senhores! A comissão da sindicância formada por três professores da Faculdade de Direito e analisada pela Advocacia Geral da União elaboraram um documento em que NADA do que aconteceu é mencionado/relacionado à racismo ou crime de ódio.

Apagamento também é racismo: quando a sociedade tenta, em resposta a uma atitude racista, esquecer, apagar ou diluir a discussão sem dar voz as pessoas que foram e são vítimas e reconhecem o preconceito, ela também está sendo racista. Negar o fato e esquecer que o que aconteceu faz parte de um histórico de regime colonial, separando o Trote do seu contexto sócio-cultural também é racismo. Não se retratar, não admitir o erro ou reconhecer que existe na estrutura de qualquer e toda instituição ou pessoa resquícios de um passado escravista também é racismo.

O que a comunidade de mulheres negras quer saber é: até quando o protecionismo, o negacionismo e o falso mito de democracia racial reinará sobre a justiça e equidade?
Até quando mascarar as atitudes racistas arraigadas no cotidiano das Universidades e Instituições públicas vai fazer com que as feridas deixadas pela opressão se fechem?
Onde chegaremos enquanto o corporativismo mesquinho entre instituições públicas fazem questão de varrer para debaixo do tapete o lixo tóxico do preconceito e ódio racial que está mais que aparente naquele trote?

Não nos calaremos até que a resposta seja justa. Não deixaremos de falar até que a UFMG trate com seriedade e justiça o caso do último 15 de março.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Protesto Brasileiro em Hamburgo

Embaladxs pela onda de protesto que está se espalhando pelo Brasil, nós brasileirxs no exterior sentimos a necessidade de participar deste momento. Nossa participação procura não só mostrar nossa solidariedade com nossxs compatriotas, que estão indo às ruas do Brasil mostar sua raiva e desgosto com o que está errado há muito tempo no Brasil, como também divulgar pro resto do mundo os motivos de nossa indgnação.

Brasileirxs no mundo inteiro estão organizando passetas e mostrando nas cidades onde vivem fora do Brasil, porque o país do futebol não está vibrando de alegria com a copa. Ontem foi dia de protesto em Hamburgo na Alemanha. Nossa passeata contou com a presença de mais ou menos 200 pessoas (alguém tem o número exato aí?) vindas de cidades diferentes, carregando cartazes, gritando bem alto pros alemães ouvirem que nem só de samba vive o Brasil.

Acorda Brasil! Hamburgo, Junho 2013 

 Os manifestantes trouxeram cartazes em várias línguas...


A idéia inicial era ficar concentrado em frente à estação de trem mas...

 
...acabou virando uma passeata.
A polícia fez o que a polícia brasileira não está conseguindo fazer: foi seguindo de perto, sem interferir...
    
Muitos cartazes pra chamar bem atenção...
                                                                     
           Alguns bem marcantes...

Patrocinadores oficiais da Copa do Mundo da FIFA no Brasil
 Outros bem indgnados, tentavam lembrar dos mais diversos problemas do Brasil...
Abaixo a corrupcao, violência e desrespeito aos direitos humanos. Viva aos índios brasileiros! seus direitos devem ser respeitados.

...mas são tantos que não cabem em um cartaz só ;-)
A lista de problemas é tao longa que nao cabe em um cartaz!
  
Teve muito bom humor também. Um dos melhores cartazes...
Muda Brasil. A cobra vai fumar?!?! rsrsrs
Na minha opinião um dos melhores momentos: esses guris aí – que nem brasileiros eram – se misturaram na muvuca, improvisaram um cartaz na hora e fizeram questão de serem fotografados pela galera rsrsrs. Figuras...

                                                 O cartaz diz: Precisamos de justica e nao de Copa do Mundo.

Melhores momentos parte II – eu pedi pra fotografar esse rapaz da direita, o que está de óculos, com esse cartaz aí no qual se lê: "Olá Turquia, o Brasil também está nessa". O rapaz ao lado dele vê o cartaz e vai ao delírio: "Eu sou turco, eu sou turco! Me fotografa também!" rsrsrs. Não é só no universo de Glória Perez que a Turquia está colada com o Brasil. Rsrsrs.

Final da manifestação, agradecendo à polícia por ter conduzido a passeata e não nos dar porrada. rsrs

Obrigada aos brasileiros em Hamburgo por organizarem essa ação e a todos nós brasileiros que viemos de outras cidades pra mostrar nossa força.

P.S. Renata F. da Costa, um beijão e muito obrigada por deixar eu usar algumas de suas fotos:-)



sábado, 1 de dezembro de 2012

Virando alemã - Parte II Nome Sujo

Onde eu estava mesmo? Ah tá, eu estava sentada na frente de uma funcionária bem sisuda no departamento de naturalização, tendo uma insana discussão sobre acentos. Quem ainda não sabe como essa estória começou, pode ler a primeira parte da estória aqui. Depois de ter mostrado minha certidão de casamento na tentativa de convencê-la de que meu nome nunca tinha sido escrito com um acento a tal funcionária insistiu que não poderia consertar meu nome e pronto e o motivo foi inacreditável.

Algum inseto alado (que deus o tenha) encontrou seu final trágico, provavelmente esmagado pelo peso de algum livro ou coisa semelhante (a exata causa mortis nunca será esclarecida) bem em cima de minha certidão de casamento. Em seus últimos momentos de vida, o pobre coitado teve parte de seu corpo arrancada. Onde ele foi parar, nunca saberei, mas um fragmento do que uma dia tinha sido sua asinha ficou alí, colado em meu documento e se alguém quisesse muito, poderia confundi-la com um acento. E parece que funcionária que me atendeu queria.

Insisti "isso é uma mancha" ao que a sisuda funcionária retrucou "é um acento". Depois de vários "é claramente uma mancha", "não, é óbviamente um acento",  o poder da autoridade venceu. Recebi um papel com uma série de instruções burocráticas que deveria seguir para ter meu nome corrigido, uma cópia da constituição alemã, um sorriso forçado porém aberto demais e um aperto de mão demasiadamente firme, acompanhado da seguinte frase :"Com isso te declaro cidadã alemã. Parabéns." Depois disso, a funcionária, que eu vou passar a chamar de Gretel pra facilitar, me estendeu o certificado com meu nome sujo e me deu um olhar que queria dizer "ok, este atendimento está encerrado. Por favor se retire pra que eu possa tomar meu café em paz".

Saindo dali, percebi que o tempo todo estava fazendo um esforço enorme para conter o riso diante do ridículo da situação inteira. Os motivos que Gretel achou pra se recusar a corrigir meu nome foram realmente surreais e pra mim foi como uma verdadeira comédia de erros. Fale sério: primeiro ela se recusa a corrigir meu nome porque existem acentos agudos pelo mundo. Depois porque o mesmo acento que eu estava me negando a aceitar constava no nome da cidade na qual meu marido nasceu e finalmente porque confundiu sujeira com acento. Na moral, essas coisas só acontecem comigo. Na saga kafkaniana que se seguiu até que eu conseguisse limpar meu nome, TODOS os funcionários para os quais tive de explicar minha situação deram muita risada às minhas custas e no final da saga uma delas me disse que Gretel foi uma filha da mãe por não ter corrigido minha certidão logo de cara. E disse mesmo "Minha colega foi bem intransigente, hein? Se eu tivesse lhe atendido teria corrigido. Uma coisa dessas se faz em menos de cinco minutos".

Bem, deixa pra lá. Vai ver que Gretel no fundo sabia que eu tenho um blog e que adoro contar estórias. O final desta, pelo menos é feliz. Voltei a ser Cristiane sem h, sem acento e sem inseto. De nome limpo, brasileira, baiana, soterolopolitana e ainda posso acrescentar, cidadã alemã de Bremen.

Meu kit alemã: caneca de cerveja (BierMass), camisa da seleção e meu novo passaporte.






terça-feira, 20 de novembro de 2012

Virando alemã - parte 1- Bem aguda


No início do ano dei início a um processo que está aos poucos chegando ao fim. O processo de virar alemã. Depois de ter dado entrada no pedido de cidadania, como sempre nessas coisas, teve uma fase de esperar, até que finalmente recebi a cartinha que dizia que meu processo tinha sido concluído, que eu poderia me considerar alemã e que deveria ir buscar o certificado que eu precisaria pra dar entrada no meu novo passaporte e carteira de identidade. Fui às alturas de felicidade, não pela cidadania em si, porque pra mim não faz nenhuma diferença qual a cor de meu passaporte, mas simplesmente porque foi uma caminhada curiosa e muitas vezes difícil até conseguir chegar aqui.

Mas o dia chegou, fui lá pegar meu papel e encontro uma funcionária pública sisuda e meio mau-humorada. Coisa normal nas repartições públicas daqui. Aliás daqui só não, do mundo inteiro. Mas a sisuda funcionaria que me atendeu, foi como sempre super eficiente carimbando aqui e ali, dando um milhão de cliques por segundo em seu computador e me entregando brochuras e comunicados com recomendações de que eu lesse tudo depois com bastante cuidado e que revisasse cada palavra atentamente antes de assinar. Seguindo sua recomendação, li com todo cuidado do mundo e foi aí que eu descobri o erro. Estava ali impresso, tornando meu nome meio esquisito, um acento agudo em cima do "s" de meu primeiro nome.

Informei a funcionária do erro só pra ver seu semblante se transformar de sisudo para o verdadeiro retrato do pânico. E aí come
çou a sequência de situações surreais do tipo "contando-ninguém-acredita" que fazem parte da minha rotina aqui e sem as quais esse blog não existiria e minha vida com certeza seria mais paradona.

"Tem certeza?" ela me pergunta.  E eu fico a princípio sem saber se era sério ou goza
ção, mas como funcionário de repartição pública alemã não é muito dado a gracinhas, fico certa de que ela está mesmo falando sério e achando que entre nós duas, eu sou a que mais provavelmente erraria a grafia de meu nome. Do jeito que eu sou, eu até concordaria com ela, porque eu estou entre as 10 pessoas mais distraídas, esquecidas e destrambelhadas do universo. Mas tenha santa paciência. Era meu nome! Que eu venho assinando há 36 anos, diga-se de passagem. Eu não poderia ter escrito com um acento agudo no "s". Poderia? Não, me poupe.

Tentei fazer uma brincadeirinha e disse a ela que nem se eu quisesse que meu nome tivesse um distinto acento agudo em qualquer consoante que fosse, que minha lingua portuguesa n
ão me daria essa licença. Cristiane pode até ter "h", mas acento nenhum. "Mas existem línguas nas quais esses acentos existem" insistiu a então desesperada funcionária. Eu acho que ela estava nervosa, como se aquele tivesse sido o primeiro erro de toda sua vida, por isso com toda calma do mundo eu expliquei que eu estava ciente do fato. Muitas línguas permitem acentos agudos, e até cedilhas nos ésses, mas não era o meu caso. Tudo que eu queria saber era se uma correção seria possível. Não sou cri-cri. Muito pelo contrário. Um dos lemas principais de minha vida é "quanto mais esquisito melhor", mas eu precisaria daquele documento pra fazer meu novo passaporte e nem todo mundo nas fronteiras do mundo acha legal quando uma pessoa tem vários documentos com seus nomes escritos de formas diferentes em cada um deles.

Aprendi com minha m
ãe que quando se vai a uma repartição pública, o melhor mesmo é levar TODOS os documentos que possam remotamente ser de interesse para aquele caso específico. No geral quando o funcionário percebe que você tem em mãos todos os documentos desde seu nascimento até aquele dado instante, ele fica menos interessado em tentar descobrir se tem alguma forma de te mandar embora sem resolver seu problema e portanto acabam desistindo e adiantando seu lado sem maiores chateações. Comecei então a tirar todos os documentos possíveis de minha pasta para mostrar a ela que não existia nenhma possibilidade de que meu nome um dia tivesse sido escrito com aquele acento e foi aí que ela encontrou a coisa que fez sua fisionomia brilhar no maior sorriso que aquela repartição já viu: Tarnowskie Góry.

Tarnowiskie ry é uma cidadezinha no sul da Polônia, que só tem um pouquinho a ver com minha história de vida por ser o local de nascimento de meu esposo. Somente por isso, essa palavra pode ser achada em minha certidão de casamento e deve ter sido também a situação na qual um acento agudo esteve mais perto de meu nome. E isso foi motivo de júbilo para a mulher que me atendeu. "Tá vendo aí que esse acento existe!" celebra a funcionária. 


A essa altura do campeonato eu, que deveria já estar irritada, comecei foi a sentir uma onda de simpatia pela coitadinha. Provavelmente aquela constatação de que línguas diferentes possuem acentos diferentes em letras diferentes foi o ponto alto de sua semana e talvéz o seu maior contato com outro universo linguístico. Fiquei com vontade de consolá-la e dizer a ela, que os acentos são como chaves mágicas que abrem as portas pra um universo colorido e multicultural. Mas como eu ainda precisava de um passaporte no qual meu nome estivesse escrito como no meu registro de nascimento, tive de abrir mão da nova grafia de Cristiane e insistir que ela tirasse aquele bendito acento e me transformasse novamente em Cristiane, bem simples, sem "h", sem "y" e pelamordedeus, sem acento no "s", o que ela recusou, não tanto por causa da sua insana teoria linguística sobre acentuação, mas sim baseada em um argumento sujo e desagradável. Mas essa estória eu conto semana que vem.

Por enquanto vou assinando assim:



Criśtiane (impossível até em Polonês, mas se demorar muito vou acabar gostando...)






sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Feliz dia da criança

No meio de um faxinão, acabei encontrando umas fotos minhas do tempo que era criança. Enquanto olhava aquelas fotos, me vinham recordações daquele tempo e eu me admirei ao perceber que eu mudei tanto que nem parece que minhas recordações são de fato minhas. Elas poderiam muito bem ser a vida de outra pessoa, alguém muito diferente de mim.

Me lembro que aquela menina de seus quatro ou cincos anos sorrindo para mim da foto, era uma mini perua mandona que somente permitia três cores em seu guarda-roupa: vermelho, amarelo e rosa, é claro. Ela adorava tamanquinhos e tinha seus cotoquinhos de unhas sempre pintados do vermelho mais berrante. Em retropesctiva, imagino que não deve ter sido nada fácil pra minha mãe lidar comigo naquela fase.

Eu às vezes me recusava a sair pra brincar com as outras crianças porque não queria correr o risco de bagunçar meu cabelo ou de amarrotar meu vestido. Minha mãe, na maior paciência do mundo cortava minha maçã em pedacinhos minúsculos para que eu pudesse comer sem ter de morde-la  com os dentes da frente e com isso acabar borrando meu batom. Sinceramente, não sei se eu teria a mesma paciência que minha mainha, com uma menina assim tão fresca.

Cinco anos depois eu já era bem diferente. Gostava de brincar com as outras crianças, dançar e escrever. A pequena perua de anos atrás só vinha à tona em meus cadernos, que eram sempre bonitinhos e enfeitados, a letra bem desenhada e tudo muito bem organizado. Aos dez anos, eu era toda cheia de mim mesma e tinha certeza absoluta que iria ser escritora. Como mãe é bicho bobo e acredita nessas coisas, a minha foi logo tratando de me dar de presente uma máquina de escrever, que apesar de ser pesadona, era compacta e considerada portátil pros padrões da época e por isso eu a levava comigo pra toda parte. 

Recordando minha infância eu tenho a impressão de que eu era uma pessoa peculiar, ecêntrica, e por que não admitir, meio estranha mesmo,mas ao mesmo tempo muito engraçada e divertida. Pensando bem, e que criança não é assim? A gente vai crescendo, amadurece, o que é importante, mas muitas vezes deixa de lado umas bobagens de criança que não necessariamente precisariam ser deixadas de lado pra gente ser adulto e isso é uma pena. Foi pensando nisso que nesse dia da criança resolvi homenagear a criança que eu um dia eu fui. Tirei meu vestidinho rosa do armário e se não fosse a chuva e o frio de 9 graus do outono alemão teria inclusive calçado meu tamanquinho branco.

Peruinha aos cinco anos
Peruona aos 36