Passei
um tempão paradona, sem postar
nada, mas não por falta de
idéias. Tem dias que estou fazendo as coisas mais rotineiras do
mundo, tipo tomando banho ou lavando os pratos e de repente uma idéia
ou lembrança chega de fininho
e quando menos espero tenho um texto completo, fluindo sem
dificuldade alguma em meu pensamento. Nessas horas me vem a vontade
de parar tudo e sair correndo postar, mas logo logo desisto de fazer
isso por pura falta de motivação. Blogar pra quê?
Mas a
motivação tem me intrigado muito nos últimos tempo. Que força
poderosa é essa? Uma pessoa motivada é capaz de coisas
inacreditáveis. Motivação
muitas vezes parece até milagre porque ela faz muitas pessoas
conseguirem transformar o impossível.
Claro
que existem vários tipos de motivação,
mas o que tem me interessado no
momento não é exatamente o que nos motiva e sim do que somos
capazes quando achamos algo que faça sentido pra gente. De vez em
quando estou sem motivação nenhuma. Acho que todo mundo passa por
isso uma vez ou outra. Quando isso acontece pra mim fico me sentindo
cansada, impaciente com tudo, faço o que tem de ter feito contando
os minutos pra acabar. O dia
a dia fica meio
sem graça...
Quando
estou motivada me sinto diferente. Essa diferença está no meu
olhar, na forma como falo daquilo que realizo por causa dessa
motivação, minha postura muda literalmente. Pode ser besteira, mas
gosto mais de mim quando estou motivada. Me sinto mais feliz.
Comecei
a perceber motivação (e das
boas o que é melhor ainda) por
toda parte. Nos meus alunos, que chegam sorrindo pra uma aula às
sete da noite depois de um dia inteiro de trabalho, na minha sobrinha
linda que me encontra na biblioteca na
sexta-feira à
tarde depois da escola pra estudar, na minha comadre que depois de um
dia inteiro com três crianças pequenas consegue sair e ir treinar
pra uma maratona, no meu companheiro que apesar de seu dia
a dia cansativo entre
escola e sindicato ainda planeja trabalho voluntário nas férias, na
mulher desconhecida da academia que vai malhar levando seu bebê no
carrinho...
Observar
pessoas motivadas assim me inspira. Então
à
todas as pessoas que conseguem se manter assim,
aqui vai minha admiração e muito obrigada por me ajudarem a
reencontrar a minha.
P.S.:
Jujuba, esse texto na verdade é pra você. Você foi a primeira
motivada que comecei a observar e confesso que sua atitude com a sua
vida
atual
e com suas perspectivas para o futuro me inspiraram e me ajudaram a reencontrar minha própria
motivação. Estou muito orgulhosa de ver o quanto você está
determinada. Sua força de vontade e a forma como você trabalha duro
são qualidades admiráveis em qualquer idade e em alguém tão jovem
quanto você é simplesmente impressionante. Sua tia aqui torce muito
pelo seu sucesso:-)
Mês
passado fui convidada para um bate-papo com os jovens do Instituto
JCPM em Salvador. Este convite, que me pegou de surpresa e me encheu
de felicidade, foi feito depois dos educadores do projeto terem
trabalhado meu texto "Lidando com o racismo" em sala. Antes
de ir falar com eles, eu já tinha lido as cartas que estes jovens
escreveram para mim. Nelas, além de relatarem suas impressões sobre
meu texto, eles me contaram suas próprias experiências com racismo.
Lá
fui eu então conhecer os jovens e falar com eles. Estava meio
nervosa, sem saber o que esperar, mas me sentindo extremamente
honrada pelo convite e ao mesmo tempo bem ciente do tamanho da
responsabilidade que vinha com esta honra. Olhar para eles e ouvir o
que tinham a dizer me fez lembrar da adolescente que eu fui, cheia de
energia, dilemas e inseguranças próprias dessa fase da vida e, como
se isso não fosse suficiente, ainda tendo de lidar com questões de
preconceito. O encontro com eles me fez pensar muito sobre os
processos que temos de passar ao crescer em uma sociedade hipócrita
como a nossa. Depois da conversa com eles, fiquei pensando muito
sobre o seguinte:
Questão
de identidade racial
O
brasileiro é um povo todo misturado. A gente cresce ouvindo isso à
exaustão e é verdade mesmo: somos misturados. No entanto, apesar
dessa miscigenação toda, na maioria dos casos é possível
identificar quem é negro e quem não é, tanto que há
discriminação. Ou seja, crescemos ouvindo que somos iguais, mas o
mundo nos diz que somos diferentes de uma forma bem negativa.
Como
ninguém gosta de ser associado a coisa ruim, é natural que surjam
jeitinhos de tentar minimizar a forma negativa como somos percebidos.
É aí que entram as tão pervesas estratégias de branqueamento.
Desta forma, muito negro acaba virando moreno, moreninho, cabo-verde
e por aí vai. Quando perguntei quem dentre eles se considerava
negro, um número surpreendente de negros não levantou a mão. É
sem dúvida nenhuma uma pena que nossa educação social ainda não
tenha encontrado modos de fortalecer a identidade racial de crianças
e adolescentes para que ninguém precise se envergonhar de ser quem
é.
Auto
rejeição
Tanto
nas cartas quanto no encontro, os jovens relataram suas experiências
chocantes com o racismo. Aquelxs meninxs, entre 16 e 24 anos, já
foram seguidos por seguranças de loja e shopping centers, negadxs
atendimento em loja, ignoradxs quando tentavam obter algum serviço,
abusadxs verbalmente com palavras tão duras que eu me recuso a
repetir aqui e humilhadxs de diversas outras formas diferentes, antes
mesmo de se tornarem adultos no sentido pleno da palavra e da
experiência. Não precisa ser
nenhum gênio para entender quantos danos isso pode causar ao
emocional e psicológico de um ser humano que cresce tendo de lidar
com isso.
Da
mesma forma, dá pra entender porque a indústria do
alisamento/relaxamento de cabelos movimenta milhões em qualquer
lugar do mundo. Tem mães por aí, que com a intenção nobre de
proteger e cuidar, ficam contando os dias até finalmente poderem
começar a relaxar os cabelos das filhas. E assim, ao invés de
aprender a nos amarmos e aceitarmos como somos, acabamos por
internalizar a idéia de que nosso cabelo é "ruim" e que
precisa ser domado. Como se isso já não fosse suficientemente
triste, constatei que muitos daqueles jovens negros consideram as
palavras "negro" e "preto" xingamentos. Que
triste crescer em uma sociedade que te ensina a rejeitar até mesmo
os termos que definem sua identidade.
A
negação do problema
Uma
das formas mais maquiavélicas de garantir a perpetuação do racismo
é negar que ele existe. Esta é uma estratégia cruel porque cega
toda a sociedade para o problema e torna o seu combate tarefa
impossível. Afinal de contas, como solucionar um problema que não
existe? O mais lamentável é perceber que essa armadilha bem montada
pega qualquer um, até mesmo nós, os negros. Fiquei comovida ao
ouvir um menino dizer que ele sempre achou que nunca tinha sido alvo
de racismo, até darem início às discussões sobre o tema em sala.
A partir daí ele começou a relembrar situações do passado e pôde
constatar que já tinha sido discriminado sim, inúmeras vezes.
O
encontro com os educadores e jovens desse instituto foi uma
experiência riquíssima em minha vida. Recebi muito carinho e tive a
oportunidade de mais uma vez confirmar o quanto é importante
despertar a atenção das pessoas para questões sociais e de
identidade o quanto antes. É fundamental estimular as crianças
desde bem cedo a se amarem e se aceitarem exatamente como são, e a
nunca duvidarem de sua importância e do seu valor no mundo. Também
é importante estimular o quanto antes o interesse em conhecer a
própria história para melhor entender sua realidade atual. A pessoa
que cresce sendo incentivada dessa forma, muito provavelmente se
tornará um cidadão seguro, consciente de sua importância e
sensível para as questões e os dilemas de outros seres humanos. E
não é assim que se forma uma sociedade verdadeiramente igualitária?
Para
saber mais sobre o instituto clique aqui. Para saber mais detalhes
sobre minha visita aos jovens de lá, clique aqui e aqui.
Um
dia,
recebi uma ligação de Lubi perguntando se eu estava com tempo.
"Sim,
claro. Pode falar" e ele começou a me contar uma estória longa
que a princípio eu não sabia bem onde ia chegar. Contou que lá no
instituto onde ele trabalha, tem uma atividade chamada "Cinema
Comentado". Nessa atividade, os jovens assistem um filme e
depois discutem sobre os temas abordados. O filme escolhido pela
equipe de educadores tinha sido "Escritores da Liberdade"
(Freedom Writers) de Richard LaGravenese. Como eu até então ainda
não conhecia o filme, ele prossegiu me dando um resumo do que se
tratava.
O
filme não é nenhuma super produção cinematográfica, mas
impressiona por ser um estória surpreendente, baseada em fatos
reais. Ele mostra uma professora jovem, recém-formada e bastante
idealista, que vai trabalhar em uma escola multicultural na
Califórnia em uma época (1992) em que os Estados Unidos estavam
fervendo com conflitos raciais. Os alunos de sua turma, são (em sua
grande maioria) adolescentes em situação de risco que só
concordam um com os outros em duas coisas: primeiro, que todos os
outros são inimigos e segundo que a escola é uma merda. Nesse
cenário pra lá de hostil pra qualquer processo educacional, ela
consegue ajudar esses jovens a mudar de atitude a ponto de virarem
escritores.
Não
queria mais contar tanto sobre o filme, porque acho que vocês
deveriam assistir. É fantástico e inesquecível. É um desses que
antes de começar a ver, a gente tem de ter certeza de que se tem
muuuuuito lenço de papel por perto. Mas pra que eu possa explicar
como essa experiência foi especial pra mim, tenho de contar um
pouquinho mais sobre a história do filme, então quem não quiser
ter o fator surpresa estragado, pare de ler agora . O que vem a
seguir são spoilers.
Os
jovens, no filme, são estimulados a ler um livro cuja história se
passa bem distante da realidade deles, tanto no tempo, quanto
geograficamente falando. No entanto, por também se tratar de uma
história verídica, ela de certa forma se relaciona muito com a
deles. Eles, então
escrevem cartas para uma personagem fundamental da estória
e conseguem fazer com que sejam recebidas e lidas. Como se isso não
fosse o bastante, conseguem trazê-la para uma conversa com eles.
Lubis
me explicava tudo isso ao telefone e eu só no "ahãn",
"sério?" "nossa" "que bacana" sem
compreender direito onde ele queria chegar. Até que ele finalmente
chega: "Então, nós levamos seu texto "Lidando com o racismo"
pra ler e debater com os meninos lá no instituto". Isso gerou GEROU
uma série de discussões sobre o tema e aí surgiu a idéia de
replicar com eles o ocorrido
no filme.
O
que aconteceu depois foi simplesmente inacreditável.
Recebi
mais ou menos 50 cartas à moda antiga, escritas com caneta e papel,
com direito a envelopinhos coloridos, adesivinhos, coraçõeszinhos e
floreszinhas desenhadas. Me emocionei. Isso é raro de se ver hoje em
dia.
Como
se isso já não fosse honra bastante, fui convidada a ir lá,
conversar com eles. E o que aconteceu naquele dia, foi muito tocante.
Tanto que vou precisar de mais um post pra contar pra vocês tudo que
me marcou naquele dia.
Eu
tenho a sorte de ser muito amiga de um cara chamado Eduardo Lubisco.
Lubi, como ele é carinhosamente conhecido por muitos, além de
professor de inglês, é um educador fora de série. Por ser uma
pessoa extremanente sensível e preocupada com as questões sociais
de nosso tempo, ele está sempre engajado em alguma causa e
contribuindo de sua forma, para melhorar o mundo a seu redor. Sabe
quando a gente diz assim: "as pessoas deveriam falar menos e agir
mais"? Pois é, ele é uma dessas pessoas que agem.
Há
mais ou menos dois anos ele trabalha no Instituto JCPM. Até bem
recentemente, eu não
fazia a menor idéia que esse projeto existia. Aposto que muitos de
vocês também não, né? Deixa eu contar do que se trata porque é
uma dessas coisas que vale a pena conhecer. O grupo JCPM (responsável
por empreendimentos imobiliários e shopping centers espalhados por
todo o Brasil) mantém um instituto de compromisso social em áreas
carentes próximas a seus empreendimentos em todas as cidades onde se
estabelecem. Aqui em Salvador, por exemplo, o Instituto JCPM funciona
no Shopping Salvador e atende jovens entre 16 e 24 anos, que sejam
moradores ou que frequentem ou tenham frequentado escola pública nos
bairros de Pernambués e Saramandaia.
Lá
nesse instituto, eles tem aulas de matemática, português, inglês e
informática além de treinamento e auxílio para ingressar no
mercado de trabalho. Dia 19 de novembro eu estive lá pela primeira
vez e foi um dia que vai ficar pra sempre marcado em minha memória e
meu coração. Querem saber por quê? Aguardem o próximo post...
Tem
um blog alemão
de humor e variedade que eu adoro futucar nas horas vagas. Ele junta
vários videos interessantes e engraçados
que pessoas do mundo todo mandam pra ele. Os comentários são
ótimos e boa parte dos vídeos também. Essa semana encontrei um (enviado por Theo bat schandorff), que primeiro me fez sorrir e depois me colocou pra pensar muito.
Assistam:
Pra
quem não entendeu nada, se
trata do festival Roskilde na Dinamarca, e o que vocês podem ver é
uma patrulha policial. A "viatura" é uma espécie de
boombox gigante, empurrada por uma pessoa e puxada por outra,
provavelmente participantes do festival. Em cima do carro uma
reporter pega carona com seu instrumento de trabalho. Ao lado dela,
dois policiais sorridentes vão
curtindo o som de KRS One – Sound of da Police.
Nos
comentários abaixo do post no blog, se
lê pessoas confirmando que o clima lá nesse festival é assim
mesmo. Todo mundo relaxado e engraçadinho inclusive a polícia.
Conversando com uma professora dinamarquesa lá da escola onde
trabalho, ela me disse que a polícia deles tem fama de ser assim
mesmo: leve, super tranquila e muito, mas muito educada mesmo. Sei
que é covardia querer comparar Dinamarca com Brasil, mas não pude
deixar de pensar em nossa polícia e como tudo é diferente por lá.
Eu
sei que existem vários fatores que fazem a polícia brasiliera ser
do jeito que é. Sempre tem. História, péssimos salários, formação
ruim, falta de investimento em especializações, péssimo
treinamento, falta de incentivo e reconhecimento dentro da
corporação, condições de trabalho precárias e extremamente
perigosas e a lista não para. Eu sei que não é fácil ser policial
no Brasil. Mas também sei que não é fácil ser cidadã/o e
depender dessa instituição. Quando vejo a forma como nossa polícia
tem lidado com manifestantes e a imprensa, e principalmente como lida
com a população negra de baixa renda, fico assustada. Não queria
pensar assim, mas na verdade a máxima que diz "não sei se
tenho mais medo de ladrão ou de polícia" é a mais pura
verdade.
Assisto
novamente o video desse festival dinamarquês e fico pensado em como
a imagem é surreal. Policiais felizes, provavelmente bem treinados e
ganhando bem, podendo exercer sua profissão sem medo, integrados no
ambiente no qual tem de trabalhar, fazendo seu trabalho sem assustar
ninguém. O pessoal no video parece estar curtindo a piada e não
morrendo de receio de ser aleiatoriamente vítima de violência
policial. A ironia da cena vem do fato que a letra da música que
eles estão ouvindo tão despreocupados, lembra mais a realidade de
outros cantos do mundo do que a deles próprios. KRS One canta sobre
os Estados Unidos, mas bem que poderia estar cantando sobre o Brasil.
Na
músicao
rapper compara o policial com um "overseer", um feitor "e
faz uma exigência: "First show a little respect, change your
behavior/ Change your attitude, change your plan" que
traduzindo fica assim: demonstre um pouco de respeito, mude seu
comportamento, mude sua atitude, mude seu plano. E é verdade, né?
Nem nos Estados Unidos, nem no Brasil, a comunidade negra carente
pode contar com proteção policial. Pelo contrário, este grupo
social é vítima constante de constragimentos e humilhação ao
lidar com a polícia, normalmente já de cara sendo tratados como
suspeitos e eternas vítimas do racismo institucionalizado do Brasil.
A sociedade, por sua vez, é conivente com esse quadro, quando
prefere ignorar que a grande maioria das vítimas de mortes violentas
no país tem um perfil mais do que claro: morador de periferia, jovem
e negro.
Me
dá medo quando percebo que além de não se indignar com essa
situação, nossa sociedade ainda começa a defender medidas
drásticas como a diminuição da idade penal. Se isso algum dia isso
virar realidade, o perfil dos alvos favoritos da polícia mudaria de
jovens negros entre 19 e 24 anos para ainda mais jovens e isso é
assustador. Minha tendência é achar que a solução para quase
todos os problemas sociais do planeta é educação. Uma sociedade
bem educada conhece bem seus direitos e deveres e por isso sabe
acompanhar o trabalho de seus representantes e quando necessário
exigir mudanças. Uma sociedade bem educada também sabe que é
importante estar atento e envolvido em diversas questões sociais e
não somente com aquelas que tem a ver com o próprio umbigo.Uma
força policial bem educada, por sua vez, conhece bem a população a
qual tem de servir,
seus problemas e a melhor forma de lidar com eles. Uma polícia bem
educada sabe que seu lugar não é acima da lei e sabe que eles não
são pagos pra coagir ninguém.
Educação
faz as pessoas mais críticas e menos dispostas a seguir ordens
cegamente. Mais educação significa menos vítimas de qualquer
coisa, seja de crimes violentos, opressão ou destino. Com educação
o ser humano fica mais firme pra fazer as próprias escolhas e
aceitar as consequências delas e discursões se tornam hábito,
atividade corriqueira.
Não
dá mais pra evitar discutir sobre a polícia brasileira. Já passou
da hora de toda sua estrutura, treinamento, atitude e filosofia serem
colocadas em questão. Mas enquanto a gente preferir acreditar que
cadeia é melhor que escola e que as mortes da periferia não tem
nada a ver com a gente, as frases que eu retirei do rap de KRS One
(e esse rap é de 1993), infelizmente sempre corresponderão à nossa
(vergonhosa) realidade.
"I
know this for a fact, you don't like how I act
Eu
sei que isso é um fato, você não gosta de como eu ajo
The
overseer rode around the plantation
O
feitor cavalgava pela plantação
The
officer is off patroling all the nation
O
policial tá por aí patrulhando a nação
The
overseer could stop you what you're doing
O
feitor podia parar o que você está fazendo
if
you fought back, the overseer had the right to kill
Se
você se defendesse, o feitor tinha o direito de matar
The
officer has the right to arrest
O
policial tem o direito de prender
And
if you fight back they put a hole in your chest!
E
se você se defender eles metem bala em seu peito
They
both ride horses
Os
dois andam a cavalo
After
400 years, I've got no choices!
400
anos mais tarde eu não tenho escolha!
My
grandfather had to deal with the cops
Meu
avô tinha ade lidar com policiais
My
great-grandfather dealt with the cops
Meu
bisavô tinha de lidar com policiais
And
then my great, great, great, great... when it's gonna stop?! O
meu tataravô ... quando isso vai acabar?
Eu
me pergunto o mesmo. Quando esse ciclo doente vai parar? Quando as
pessoas começarão a apreciar o componente africano de nossa cultura
em qualquer época do ano e não somente no carnaval? Quando vão
parar de ignorar que a desigualdade social no Brasil está
intimamente ligada com o racismo e parar de ficar investindo tanta
energia em negar que ele existe?Quando vamos nos indignar com essa
polícia repressora, despreparada e assassina da juventude negra?
Quando vamos finalmente entender que não existe desenvolvimento
verdadeiro enquanto existirem grupos que são deixados pra trás?
Quando?
Em
1992 o dia de hoje foi instituído pela ONU como o dia Internacional
da Mulher Afro-Latino-Americana e Afro-Caribenha durante a primeira
conferência de mulheres dessas etnias na República Dominicana.
Sendo hoje também, meu aniversário, sei que a data me toca
duplamente. Aproveito, portanto meu dia hoje pra refletir sobre o que
é pra mim ser uma mulher negra latino americana.
Eu
valorizo quem eu sou e minha história. Me orgulho de minha família
e das dificuldades que algumas vezes enfrentamos pois reconheço
que a forma como lidamos com essas situações complicadas modela nosso carater, nos dá força.
Adoro o fato de saber que minha história é feita de vários
pedacinhos de vários lugares da Europa, do Brasil e da Africa. No
conjunto de fatores que fazem de mim quem eu sou, o que não
falta é coisa para escolher e aprender, culinária pra experimentar,
tradições pra conhecer,
idiomas pra falar. Dentro de minha família, uma família só, o que
não falta são
cores diferentes de olhos e peles, texturas e cores diferentes de
cabelos, formas diferentes de corpos. Isso é muito lindo, porque de
repente é como se eu pudesse me identificar com o mundo todo.
Mas
por mais orgulho que minha história me dê, ela também me traz
muita dor. Ser uma mulher negra latino americana infelizmente também
significa que as pessoas às vezes se sentem incomodadas com minha
presença, seja
por não saberem como se comportar comigo e ficarem tensos porque
querem parecer não racistas, ou por não desejarem minha presença
mesmo e pronto. Significa que de vez em quando eu sou
completamente ignorada em uma conversa. A minha história
infelizmente também acaba fazendo com que muitas vezes eu seja a
única em qualquer lugar que eu vá. A única negra do mestrado, a
única negra no restaurante que não
está trabalhando como babá, correndo atrás de uma criança
que não é sua. É ser tratada
como animal exótico, que pode ter bunda grande, ser sensual e saber dançar, mas causar estranhezaquando digo que meu trabalho é com o cérebro. É ter de aguentar
pessoas próximas insistirem que a discriminação
que eu vivo na pele não é
racismo, é qualquer outra coisa, que eu estou paranóica,
exagerando, procurando cabelo em ovo. É crescer ouvindo pessoas na
minha própria família dizerem que meu cabelo é ruim e feio e ser
pressionada a vida inteira pra alisar, prender e domar meu piau,
minha bucha, minha vassoura de palha.
Mas
o 25 de Julho foi criado para ser um marco de luta e resistência.
Assim como a data pede eu resisto a esteriótipos e questiono quem
quer que queira me limitar. Quando tentam me calar eu faço
mais barulho, quando tentam me dominar eu esperneio e quanto mais
luto, mais me fortaleço. Parabéns a todas as nós Negras, a todas
nós Latino Americanas e todas as Caribenhas. Vamos fazer barulho em
nosso dia. Apesar de tudo a gente sempre supera e arrasa sempre!
------------------------------------------------------------------------------ Este texto faz parte da I Blogagem Coletiva 25 de julho, organizada pelas Blogueiras Negras.
A notícia foi de cinco dias atrás, mas repreduzo mesmo assim porque ainda está me indignando. Colei abaixo o texto de Larissa Santiago. Leiam e pasmem...
A notícia de hoje (10/07/2013) do Jornal Tribuna
Hoje informa que a UFMG instaurou um processo administrativo contra 198
estudantes da Faculdade de Direito que participaram, em 15 de maço
desse ano, de um trote na mesma Faculdade.
O curioso é que nenhuma menção a racismo, preconceito ou nazismo foi
utilizada na processo. Os 198 estudantes serão processados por
comercialização e distribuição de bebida alcoólica.
Isso mesmo, senhores! A comissão da sindicância formada por três
professores da Faculdade de Direito e analisada pela Advocacia Geral da
União elaboraram um documento em que NADA do que aconteceu é
mencionado/relacionado à racismo ou crime de ódio. Apagamento também é racismo: quando a sociedade tenta, em resposta a
uma atitude racista, esquecer, apagar ou diluir a discussão sem dar voz
as pessoas que foram e são vítimas e reconhecem o preconceito, ela
também está sendo racista. Negar o fato e esquecer que o que aconteceu
faz parte de um histórico de regime colonial, separando o Trote do seu
contexto sócio-cultural também é racismo. Não se retratar, não admitir o
erro ou reconhecer que existe na estrutura de qualquer e toda
instituição ou pessoa resquícios de um passado escravista também é
racismo. O que a comunidade de mulheres negras quer saber é: até quando o
protecionismo, o negacionismo e o falso mito de democracia racial
reinará sobre a justiça e equidade? Até quando mascarar as atitudes racistas arraigadas no cotidiano das
Universidades e Instituições públicas vai fazer com que as feridas
deixadas pela opressão se fechem? Onde chegaremos enquanto o corporativismo mesquinho entre
instituições públicas fazem questão de varrer para debaixo do tapete o
lixo tóxico do preconceito e ódio racial que está mais que aparente
naquele trote? Não nos calaremos até que a resposta seja justa. Não deixaremos de
falar até que a UFMG trate com seriedade e justiça o caso do último 15
de março.
Embaladxs
pela onda de protesto que está se espalhando pelo Brasil, nós
brasileirxs no exterior sentimos a necessidade de participar deste
momento. Nossa participação procura não só mostrar nossa
solidariedade com nossxs compatriotas, que estão indo às ruas do
Brasil mostar sua raiva e desgosto com o que está errado há muito
tempo no Brasil, como também divulgar pro resto do mundo os motivos
de nossa indgnação.
Brasileirxs
no mundo inteiro estão organizando passetas e mostrando nas cidades
onde vivem fora do Brasil, porque o país do futebol não está
vibrando de alegria com a copa. Ontem foi dia de protesto em Hamburgo
na Alemanha. Nossa passeata contou com a presença de mais ou menos
200 pessoas (alguém tem o número exato aí?) vindas de cidades diferentes, carregando cartazes, gritando bem alto pros alemães
ouvirem que nem só de samba vive o Brasil.
Acorda Brasil! Hamburgo, Junho 2013
Os manifestantes trouxeram cartazes em várias línguas...
A
idéia inicial era ficar concentrado em frente à estação de trem
mas...
...acabou virando uma passeata.
A polícia fez o que a polícia brasileira não está conseguindo fazer: foi seguindo de perto, sem interferir...
Muitos
cartazes pra chamar bem atenção...
Alguns bem marcantes...
Patrocinadores oficiais da Copa do Mundo da FIFA no Brasil
Outros bem indgnados, tentavam lembrar dos mais diversos problemas do Brasil...
Abaixo a corrupcao, violência e desrespeito aos direitos humanos. Viva aos índios brasileiros! seus direitos devem ser respeitados.
...mas são tantos que não cabem em um cartaz só ;-)
A lista de problemas é tao longa que nao cabe em um cartaz!
Teve muito bom humor também. Um dos melhores cartazes...
Muda Brasil. A cobra vai fumar?!?! rsrsrs
Na
minha opinião um dos melhores momentos: esses guris aí – que nem
brasileiros eram – se misturaram na muvuca, improvisaram um cartaz
na hora e fizeram questão de serem fotografados pela galera rsrsrs.
Figuras...
O cartaz diz: Precisamos de justica e nao de Copa do Mundo.
Melhores
momentos parte II – eu pedi pra fotografar esse rapaz da direita, o que está de óculos, com esse
cartaz aí no qual se lê: "Olá Turquia, o Brasil também está
nessa". O rapaz ao lado dele vê o cartaz e vai ao delírio:
"Eu sou turco, eu sou turco! Me fotografa também!" rsrsrs.
Não é só no universo de Glória Perez que a Turquia está colada
com o Brasil. Rsrsrs.
Final
da manifestação, agradecendo à polícia por ter conduzido a passeata e não nos dar porrada.
rsrs
Obrigada aos brasileiros em Hamburgo por organizarem essa ação e a todos nós brasileiros que viemos de outras cidades pra mostrar nossa força.
P.S. Renata F. da Costa, um beijão e muito obrigada por deixar eu usar algumas de suas fotos:-)
Nunca
pensei que esse dia ia chegar, mas parece que chegou. Estou falando
do dia em que uma gota d'agua ia fazer transbordar o copo e fazer as
pessoas levantarem e irem às ruas exigir mudanças. E olha, o Brasil
resolveu acordar na hora certinha.
Me
lembro como se fosse hoje o final de 2010 e início de 2011. A
Tunísia, o Egito e a Algéria começaram protestos que contagiaram o
mundo árabe e em questão de dias, governos foram derrubados e uma
nova forma de política começou a dar as caras nesses países. As
redes sociais foram fundamentais. Em questão de segundos o mundo
podia ver o bicho pegando por lá. O Facebook da galera aqui na
Alemanha pipocava com as notícias dos confrontos com a polícia, das
pessoas sendo presas por apenas estarem passando por determinados
locais e com a crescente indignação, que era como combustível para
a ira contida com tudo que estava errado. Enquanto isso, nas linhas
do tempo dxs brasileirxs, era que como se nada estivesse acontecendo
no mundo. A coisa mais compartilhada na época eram as novas
dancinhas de Neymar. Esse tempo todo eu sempre ficava pensando em
como é difícil indignar um(a) brasileirx. Minha vergonha chegava a
doer, mas ficava na minha, bem quietinha, bem brasileira.
Mas
aí um dia abro o Facebook e as notícias começam a aparecer:
presidente vaiada na abertura da Copa das Confederações, protesto
contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, repressão da
polícia, nossa imprensa esquisofrênica oscilando entre ignorar o
couro comendo e fazer declarações ridículas menosprezando o
protesto. Para mim é interessante ver como de repente pessoas das
mais diversas orientações políticas concordam que chegou a hora de
levantar a voz e a hora não poderia ser mais oportuna. De repente os
olhos do mundo estão voltados pro Brasil.
Todo mundo está olhando
pra lá querendo saber da copa e vão ter a oportunidade de ver que
não são somente nos preparativos pra copa que estamos atrasados.
Precisamos correr atrás também da educação e saúde de qualidade,
da segurança pública, do sistema penal e carcerário, da igualdade
social, racial, sexual e religiosa, da moralidade na política e como
se isso tudo já não fosse suficiente, da democracia. Sim, porque de
repente fica mais do que claro que não temos direito de protestar. É
como se nossa voz só interessasse quando está gritando gol.
É bom
saber que no Brasil as pessoas estão começando a rejeitar o pão e
circo e abrindo os olhos de verdade. Não sei se alguma mudança
significativa virá em decorrência desse movimento, mas é assim que
começa. As
redes sociais, mais uma vez, tem sido fundamentais nesse momento. Sem elas ficaria difícil saber de forma objetiva o que está
acontecendo, já que a mídia do Brasil é toda comprada e a mídia
internacional parece que ainda está meio perdida, sem entender direito o
que está acontecendo. Vou colecionar aqui os melhores momentos desse
processo brasileiro. Enquanto isso vamos pra rua. Depois eu volto pra
contar como foi a passeata em Hamburgo.
Excelente vídeo em inglês, de uma brasileira explicando porque que ela nao prestigiar a Copa do Mundo
Achei lindo isso que uma amiga compartilhou no Facebook.Na legenda da foto havia uma lista de tudo que as mainhas podiam fazer de casa pra ajudar os manifestantes. É todo mundo querendo participar de alguma forma:-)
- Blog do Sakamoto: sobre como está errado a polícia bater em qualquer um, seja ele repórter ou cidadão comum.
- Socialista Morena: falando dos motivos reais desse movimento. Não é só por causa de 0,20 centavos.
- Gilber Martins Duarte: em seu blog Socialista Livre, um bom resumo da situação. Como chegamos até aqui.
- Graeme Hodgson: Um olhar de fora e ao mesmo tempo mostrando como trazer a realidade dos protestos para as discussões dentro da sala de aula de EFL (English as a Foreign Language, pra quem não é dessa área:-)).
- Essa declaração de Jerôme Valcke, da FIFA, que sinceramente, estou tentando acreditar que foi piada... Se ele tá se incomodando com nossos protestos ele não tem idéia de como pode ser bem pior na Russia. Tá cutucando o urso com vara curta, só digo isso...
Então o mundo não se acabou, né. Essas profecias que não se realizam causam o maior desgaste emocional, viu... Assis Valente passou por um vexame parecido no final dos anos 30. Versão moderninha do desastre que não aconteceu, cantada por Paula Toller.
O Mundo Não Se Acabou (Assis Valente)
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou
Chamei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora eu soube que o gajo anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho e vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou
Confesso que estava ansiosa pela chegada do fim do mundo. Vivi intensamente, não me arrependo de quase nada e estou basicamente feliz com minha vida em geral. Quando o mundo acabar hoje, vou partir com um sentimento leve e tranquilo, minha única preocupação vai ser com alguma besteira do tipo, ter uma frase de impacto pra dizer na hora. Pra que nem sei, o mundo vai acabar mesmo. É só que eu gosto dessas coisas.
No entanto, até ontem eu estava cheia de questionamentos sobre esse tal fim do mundo. Primeiro eu queria saber se existia uma forma de ter certeza se os antigos Maias estavam realmente se referindo ao final dos tempos e não falando do fim do mundo tipo um lugar longe como a porra. Sei que é bobagem, mas imaginem aí? Todo mundo se preocupando com o fim dos tempos quando na verdade tudo que o cara queria dizer era simplesmente que iríamos finalmente chegar a um lugar. O fim de uma viagem longa pra lugar super distante, pro fim de mundo. Tipo a viagem que se faz em Salvador do Comércio até o Itaigara com o Mirante de Periperi. Mas logo, logo entendi que se tratava de um calendário, então era obviamente o fim dos tempos mesmo. Me poupe viu, Cris...
Mas então tá. É do apocalipse mesmo que estamos falando. Mas ainda me restava entender se era um evento pro dia inteiro ou se tinha uma hora específica pra acontecer. Se tivesse uma hora específica, onde aconteceria primeiro? Se tivesse uma espécie de plano do fim do mundo, estava listado em que site pra eu acompanhar? Bem, todas as respostas que eu precisava me vieram em um sonho e por isso acordei tranquila pra curtir o último dia da humanidade numa boa.
Obviamente o mundo vai acabar as 21 horas e 21 minutos de hoje, horário da Alemanha. Esse horário é simplesmente perfeito pro fim do mundo e fim de papo. Vai ser no horário alemão e por isso vai acontecer aqui primeiro. E vai ser assim porque a Alemanha é famosa por sua organização e pontualidade. O mundo vai acabar aqui no dia e hora marcada e sem bla, bla bla. Eu sugiro a todos que acertem seus relógios com o horário de Berlim e se o fim não chegar exatamente às 21:21 do dia de hoje, podem acabar com o mundo vocês mesmos. A Alemanha nunca se engana e com certeza o apocalipse aqui vai acontecer de forma ordeira, controlada e sem histeria. Situações caóticas do tipo gente perdida e desesperada correndo pela rua, coisas caindo do céu, pessoas sem saber se acaba ou não acaba, sendo pegas de surpresa por um terrível apagão em pleno engarrafamento, as operadoras de celular sobrecarregadas e ninguém conseguindo completar suas ligações são típicas de fim de mundo em outros lugares, mas aqui não. Pensando bem, esse cenário que eu acabei de descrever me lembra alguns momentosque eu já vivi em Salvador. Será que o mundo já acabou na capital baiana faz muito tempo em niguém soube de nada? Vou procurar saber e se o mundo ainda existir, amanhã eu conto.
Onde eu estava mesmo? Ah tá, eu estava sentada na frente de uma funcionária bem sisuda no departamento de naturalização, tendo uma insana discussão sobre acentos. Quem ainda não sabe como essa estória começou, pode ler a primeira parte da estória aqui. Depois de ter mostrado minha certidão de casamento na tentativa de convencê-la de que meu nome nunca tinha sido escrito com um acento a tal funcionária insistiu que não poderia consertar meu nome e pronto e o motivo foi inacreditável.
Algum inseto alado (que deus o tenha) encontrou seu final trágico, provavelmente esmagado pelo peso de algum livro ou coisa semelhante (a exata causa mortis nunca será esclarecida) bem em cima de minha certidão de casamento. Em seus últimos momentos de vida, o pobre coitado teve parte de seu corpo arrancada. Onde ele foi parar, nunca saberei, mas um fragmento do que uma dia tinha sido sua asinha ficou alí, colado em meu documento e se alguém quisesse muito, poderia confundi-la com um acento. E parece que funcionária que me atendeu queria.
Insisti "isso é uma mancha" ao que a sisuda funcionária retrucou "é um acento". Depois de vários "é claramente uma mancha", "não, é óbviamente um acento", o poder da autoridade venceu. Recebi um papel com uma série de instruções burocráticas que deveria seguir para ter meu nome corrigido, uma cópia da constituição alemã, um sorriso forçado porém aberto demais e um aperto de mão demasiadamente firme, acompanhado da seguinte frase :"Com isso te declaro cidadã alemã. Parabéns." Depois disso, a funcionária, que eu vou passar a chamar de Gretel pra facilitar, me estendeu o certificado com meu nome sujo e me deu um olhar que queria dizer "ok, este atendimento está encerrado. Por favor se retire pra que eu possa tomar meu café em paz".
Saindo dali, percebi que o tempo todo estava fazendo um esforço enorme para conter o riso diante do ridículo da situação inteira. Os motivos que Gretel achou pra se recusar a corrigir meu nome foram realmente surreais e pra mim foi como uma verdadeira comédia de erros. Fale sério: primeiro ela se recusa a corrigir meu nome porque existem acentos agudos pelo mundo. Depois porque o mesmo acento que eu estava me negando a aceitar constava no nome da cidade na qual meu marido nasceu e finalmente porque confundiu sujeira com acento. Na moral, essas coisas só acontecem comigo. Na saga kafkaniana que se seguiu até que eu conseguisse limpar meu nome, TODOS os funcionários para os quais tive de explicar minha situação deram muita risada às minhas custas e no final da saga uma delas me disse que Gretel foi uma filha da mãe por não ter corrigido minha certidão logo de cara. E disse mesmo "Minha colega foi bem intransigente, hein? Se eu tivesse lhe atendido teria corrigido. Uma coisa dessas se faz em menos de cinco minutos".
Bem, deixa pra lá. Vai ver que Gretel no fundo sabia que eu tenho um blog e que adoro contar estórias. O final desta, pelo menos é feliz. Voltei a ser Cristiane sem h, sem acento e sem inseto. De nome limpo, brasileira, baiana, soterolopolitana e ainda posso acrescentar, cidadã alemã de Bremen.
Meu kit alemã: caneca de cerveja (BierMass), camisa da seleção e meu novo passaporte.