quinta-feira, 16 de abril de 2009

Dinheiro

Tudo começou durante uma aula de inglês na qual surgiu o assunto do que era ou não era apropriado se dizer a alguém que está aniversariando. Depois de todos concordarem que em qualquer lugar do mundo é melhor evitar perguntar a idade do aniversariante (principalmente se for mulher e aparentar mais de 15 anos de idade) e que qualquer pessoa se derrete ao ouvir que parece cinco anos mais jovem, sugiu uma controvérsia à respeito do que se deve dizer ao congratular o aniversariante. Parabéns, felicidades, muitos anos de vida e saúde, muito amor e dinheiro no bolso, sugeriu um aluno . O resto da turma protestou: muito dinheiro? que estranho desejar isso.

Ok, na verdade o que se diz, simplificadamente ao aniversariante é o clássico "Feliz aniversário" mesmo e acabou, mas não tem nada de errado em se desejar tantas coisas boas à alguém numa data tão especial, foi a minha resposta. Um outro aluno vai e responde que o problema não era o pensamento em si e sim falar de dinheiro assim à toa com outra pessoa, muito estranho e meio constrangedor, acrescentou. O primeiro aluno, o tal que fez a sugestão que iniciou toda a polêmica questionou o porquê da frase dele ser constrangedora. Afinal de contas ele não estava perguntando quanto a pessoa ganhava, estava apenas desejando que a pessoa estivesse sempre bem na fita finaceiramente.

A resposta de uma outra aluna é que foi fascinate: "Não sei qual a opinião dos ingleses sobre esse tema, mas nós alemães simplesmente não falamos de dinheiro. Nós não falamos sobre dinheiro, nós simplesmente o temos." (We don't talk about money, we just have it). O meu aluno angolano, que queria desejar fortuna aos aniversariantes e eu, nos calamos prontamente. Involuntáriamente, trocamos um olhar de cumplicidade que se traduzido diria: "Toma sacana, na sua próxima vida vê se nasce num outro país." De preferência em um no qual as pessoas não precisem falar tanto de dinheiro porque ele é sempre suficiente.

terça-feira, 31 de março de 2009

Greve de idéias

Ando sem tempo e sem inspiração pra escrever e isso é muito chato quando se tem um blog. Fico me cobrando pelo menos um texto por mês (muito mais realista do que meu projeto inicial que era de um texto por semana). Um texto por mês parece até pouco e uma meta realista, mas quando a gente se vê no meio do dia-à-dia confuso de professora freelancer num país neurótico como esse aqui, nem sempre é fácil de cumprir.

Engraçado é que tenho uma lista enorme de tópicos sobre os quais eu quero escrever. Coisinhas pequenas da vida por aqui, insights que tenho durante as muitas conversas legais com minhas companheirinhas de cerveja, lembranças do início de minha vida em Bremen... mas no momento meu tempo livre é tão pouco que a lista só faz aumentar enquanto o blog fica parado. A vontadade de escrever ainda está aqui, mas a inspiração está em greve. Ai ai ai, será que daqui pro mês que vem essa greve acaba?


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Amigos

Meus amigos me amparam, aconselham, consolam, mimam, fazem rir. Tenho amigos de muitas idéias, cores, origens, espécies e idades. Uns de boa família, outros nem tanto. Alguns são pobres outros ricos, mas pra mim todos lindos.

Nos meus piores e melhores momentos lá estão eles me apoiando, dando bronca, entendendo, me fazendo rir ou rindo de minhas besteiras. Cada qual de sua forma e com seu jeito especial que os eleva a condição de MEUS AMIGOS. Sou uma mulher de tanta sorte que se fosse fazer uma lista de meus amigos, faltaria lugar no blog. Dispenso portanto, a tal lista. Meus amigos sabem sem dúvida quem eles são.

O mal de se viver tão longe é que a gente não pode ter os velhos amigos sempre por perto. A amizade passa a ser vivida em pequenos fragmentos. Um pouquinho quando se recebe visita, mais um pouquinho quando se volta à casa. A tecnologia empresta mais um pouquinho. Mas para uma pessoa como eu isso nunca basta. Queria morar com todos os meus amigos, estar com eles a todo momento, ouvir suas vozes a cada segundo, saber o que eles estão pensando... Muita gente deve achar meio louco isso. Eu acho que é maravilhoso (e doloroso) ser apaixonada por meus amigos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Obrigada, dona Boba


Para mim a Esperança é uma boba alegre sem noção. O bicho pega, a casa cai e ela não abandona o barco. Muitas vezes depois de eu achar que ela morreu, basta um acontecimento banal pra trazê-la de volta a vida. É uma sonhadora irreparável que muitas vezes me aporrinha por não me deixar desistir de meus projetos insanos. Minha esperança vai aos pouquinhos me empurrando para frente, muitas vezes contra minha vontade. Para mim ela tem vida própria.

Não sou eu quem quer fazer lista de metas para o ano novo, mas ela simplesmente não me deixa desistir de um dia ter exatamente aquilo que eu quero. Por isso o ano começa eu me vejo indo pra academia, comendo salada, estudando, arrumando o guarda-roupa. Quem me conhece sabe que eu quero mesmo é tomar cerveja em frente à televisão o dia todo e deixar tudo pra amanhã. Mas minha Esperança, grande empreendedora que é, me faz saltar da cama cedo e me alimentar bem, porque ela sabe que eu quero ser saudável, ir pra academia, porque sabe que meu sonho é um dia ter um corpão malhado, estudar, porque ela sabe que eu acredito que o ser humano tem de ter substância, escrever, porque sabe que isso alegra meu espírito.

A bobinha da minha Esperança se recusa a desistir de mim e de meus projetos e eu no fundo a agradeço por isso. Atribuo portanto a autoria deste texto, bobinho como ela mesmo, à danada da minha Esperança que em 2009, assim como em todos os anos, quer me obrigar a me organizar mais, estudar mais, cuidar melhor de meu dinheiro, cuidar melhor de mim, continuar meu blog e ser feliz.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Receita de Ano Novo (Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
Cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvéz ou nem sentido)
Para você ganhar um ano
Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
Novo
Até no coração ds coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
Passa telegramas?).
Não precisa
Fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
Pelas besteiras consumadas
Nem parvamente acreditar
Que por decreto da esperança
A partir de janeiro as coisas mudem
E seja tudo claridade, recompensa,
Justiça entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando
Pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
Que mereça este nome,
Você, meu caro, tem de merecê-lo,
Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
Cochila e espera desde sempre.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A todos que acompanham meus delírios aqui no blog, um super feliz natal!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Berlim



Domingo passado voltei de Berlim, onde tinha passado quase a semana inteira e estou apaixonada por aquela cidade. Berlim é imensa e imponente. Como toda grande cidade, ela não espera por ninguém. Ao andar por suas ruas você ouve, lê, vê, pisa e respira história sem parar. Muito lindo, muito marcante e sem dúvida nenhuma, muito inspirador. Tenho que voltar em breve.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Meio azedo, ou "E eu com isso?"

Já era pra eu ter escrito esse post há mais tempo, mas confesso que precisei de um tempo pra processar o assunto...

Dia 05 de novembro, chego na escola e sou parabenizada euforicamente por um colega de trabalho, meio desequilibrado. Eu preciso de uns minutos para entender, afinal de contas não é meu aniversário, nem nenhuma data especial. Mas como parabéns no geral é coisa boa, aceito simplesmente e continuo meu caminho, confirmando minha tese de que aquele cara estrapola a cota de maluquice permitida por professor. Chego na sala de aula, começo a arrumar meus muitos bagulhos, quando um outro colega aparece na porta e me fala que eu devo estar muito feliz. E eu de fato estava, só não sabia se era pela mesma razão que ele esperava que eu estivesse. Sinceramente, todo mundo estava me parecendo meio louco.

A gota d'agua no entanto, foi quando uma aluna entrou na sala já me dando os parabéns. Resolvi admitir minha ignorância e perguntei por que ela estava me parabenizando. Pela vitória de Obama, foi resposta. Você deve estar totalmente feliz, acrescentou. Naquele momento, a ficha caiu: fui parabenizada três vezes num só dia pela vitória dos outros. E eu fiquei com vontade de dar meus pêsames pela ignorância geral.

Pra que não haja dúvida, achei bom que Obama ganhou. Acho também que esse é um momento histórico importantíssimo. Quem imaginava ver os Estados Unidos elegerem um presidente negro? Martin Luther King, com certeza não... Mas além do fato de nós dois sermos humanos, habitantes do planeta terra e representantes da raça negra, não temos nada em comum. Por isso não preciso ser parabenizada pela vitória dele, porque eu simplesmente não tenho nada a ver com isso. Nem todo negro se parece, é parente ou faz parte da mesma irmandade.

E tem mais: para aqueles que se passaram nas aulas de história, Obama não é a Princesa Isabel e já não existe escravidão oficialmente no Brasil desde 1888. Brasil é na America do Sul e o nosso presidente é brasileiro. Muita gente, por medo de parecer racista, acaba falando tanta besteira que no final faz papel é de palhaço mesmo. Sei que os parabéns foram dados com muito boas intenções. Mas dessas aí, como diz o ditado, o inferno está cheio. Na minha opinião, a melhor coisa a se fazer quando não se quer ser confundido com um racista, é mesmo deixar de ser um.

sábado, 25 de outubro de 2008

Identidade

Minha amiga Maria da Graça, que se sente muito melhor como Gal, está passando por um período de Maria. Isso me levou a pensar nos vários nomes que me apresentam e como eles me fazem sentir. Nasci como Cristiane. Segundo minha mãe, um nome muito grande para uma coisinha tão pequena, e acabei virando Cris. No decorrer de meus 32 anos já fui Crisinha, Tião, Budi e Crispina. Eu sou todos esses nomes.

Quando cheguei aqui acabei recebendo outros nomes. E meus novos nomes iam e viam com novas formas de me sentir, de andar e até mesmo de pensar. De repente virei Frau Santos, muito séria e bem antipática. Ser chamada de Frau Santos me arrepia a espinha. É o mesmo arrepio que sentia quando era criança e ouvia minha mãe gritar "Cristiane, venha cá!" Ser chamada de Cristiane só podia ser encrenca. Por isso tenho muito cuidado com essa tal de Frau Santos.

Muitas vezes aqui sou também Cris Santos. Mas essa daí já é um pouco mais legal, quase como sua colega Cris Oliveira só um pouquinho deslocada no espaço. Mas de todas as Crises que apareceram aqui na Alemanha, as que eu mais gosto são Cris Cross e Crispy. Essas aí andam sempre com os amigos, sejam eles alemães ou brasileiros.

Tem dias em que eu sou mesmo é Cris Credo. Quando essa daí chega, está procurando briga, melhor sair de perto. Algumas amigas brasileiras e eu desenvolvemos uma brincadeira na nossa correspondência eletrônica. Quando escrevemos uma pra outra sempre assinamos com um nome diferente, engraçadinho que muito diz do nosso momento ao escrever o e mail. Nossos nomes, sempre dizem muito da gente, mesmo sem que a gente se dê conta.

Quando penso direitinho, é bom ter muitos nomes. Um dia assim, outro dia nem tanto. Um nome para cada ocasião, como a roupa, o cabelo ou a maquiagem que a gente coloca para encarar o mundo. Quantas pessoas passam a vida inteira sendo somente chamadas por um nome só? Por isso agora sou Cristiane, escrito sem h no meio, mas no geral me identifico mesmo é com Cris: simples e bem pequena, mas com grande potencial para ser completada ou se transformar em algo bem diferente. Posso virar Cristal ou ser Cricri, mas tudo sem muita Crise.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Master of disaster


Afffff!!!! Confesso que foi brabo, mas finalmente consegui ser aceita no mestrado da Uni-Bremen. Esta é uma semana de orientação, para os alunos desorientados como eu, acharem o fio da meada. E o meu fio ainda contiunua meio solto por aí. Vou ter dois anos pra tentar encontrar. Mas enfim, estou super feliz e cheia de novidades da vida universitária.

Todo o sistema de ensino superior alemão vem passando por uma reforma enorme. Eu comecei a estudar aqui bem nesse período de transição, no qual ninguém tem certeza de nada e mesmo os alemães estão meio perdidos no meio disso tudo, sem saber ainda se no final das contas essas mudanças todas vão dar certo ou se a vaca vai pro brejo de uma vez. Como cobertura para esse bolo todo, o curso que comeca semana que vem, está sendo oferecido pela primeiríssima vez. As inscrições foram prorrogadas por causa do número insuficiente de malucos dispostos a estudar linguística em alemão e mesmo com toda a bajulação pra atrair candidatos, o curso vai ter de começar semana que vem com apenas uma companheira de loucura e eu.

Nessa circunstância já virei até celebridade. Cheguei na Secretaria Geral de Cursos hoje para descascar um pepininho e fui recebida como sempre na maior frieza e impaciência. No entanto, assim que mencionei meu curso, um sorrisao se abriu no rosto da funcionária. "Ahhh, entre e sente-se um minutinho por favor. Conheci sua colega semana passada. Até que fim estou lhe conhecendo!" Contei essa estória em casa e meu marido se lembrou que tem um outro caso desse la na universidade. Todo mundo conhece os dois nerds que estudam Astrofísica.

Quanto tempo durará essa fama? Passaremos a ser conhecidas como as "Linguistiquetes"? Toda a
atenção que estamos recebendo dos professores continuará a ser uma coisa boa ou isso vai terminar de me enlouquecer? Aguardem cenas dos próximos capítulos...