quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Interrompendo a biografia

Quando a gente pensa em mudar pra outro país, no geral não faz idéia da caixinha de surpresas que está por abrir. Tem um monte de questões complicadas de lidar, tipo a ansiedade da preparação pra nova vida, o processo de adaptação à nova cultura e sociedade e a dor de ter de deixar muita coisa pra trás. Há mais ou menos um ano eu estava lidando com minhas próprias neuras relacionadas ao meu próprio processo de imigração pra Alemanha, quando minha amiga Flora me sugeriu fazer um curso que ela mesma estava fazendo e achando muito interessante. Tratava-se de um curso que tinha como objetivo (trans)formar profissionais com alguma formação na área de humanas (professores, psicólogos, assistentes sociais e por aí vai) em palestrantes e facilitadores aptos à oferecer cursos tanto para imigrantes, (para que eles passassem a entender e melhor lidar com seus processos de imigração e através disso poderem se adaptar melhor à nova cultura) como também para diversas instituições que lidam com imigrantes, como escolas, polícia, empresas e assim por diante.

Esse curso abriu meu olhos pra coisas maravilhosas, interessantíssimas e extremamente importantes tanto para minha formação como profissional quanto para meu ser humano. Como tantas coisas na área das ciências humanas, tive o prazer de abrir portas para conhecimentos de grande magnitude que agora são impossíveis de ignorar. Uma dessas descobertas foi a de um conceito interessante que eu vou aqui traduzir toscamente como "corte biográfico". Deixa eu  tentar explicar bem rapidinho como é isso:

Para isso vou apresentar vocês a uma mulher chamada Tatiana. Tati quando criança morou no Cabula, ali um pouco antes da Uneb. Depois ela e sua família se mudaram para a Pituba, pra uma rua que fazia esquina com a Manoel Dias. Na quarta série ela foi estudar no Teresa e muitas vezes ia andando de lá até o Iguatemi pra filar aula com suas amigas. Uma vez, sua mãe encontrou com ela filando aula no shopping e como castigo ela não pode ir a uma festa de 15 anos que ia ter no prédio dela naquela semana. Mas Tatiana no geral era uma adolescente tranquila. Acabou fazendo vestibular pra Letras, primeiro na Católica, mas se desgostou de lá e depois de três semestres foi pra Ufba onde apesar de muitas greves se formou.

Quem for de Salvador, não só vai entender a estória de Tati, como também vai ser capaz de chegar a certas conclusões sobre ela, apesar de nunca tê-la conhecido. Por exemplo, quem é de Salvador sabe que o Teresa era uma escola bem conceituada nesta cidade, que depois décadas de funcionamento fechou as portas. Só de ouvir essa estória também dá pra ter uma idéia da classe social na qual Tatiana cresceu, só em saber em que bairros ela morrou. Até quem não é de Salvador, mas que é brasileiro, sabe que Iguatemi é um shopping center e o que uma festinha de 15 anos significa pra uma adolescente.

Agora imagine essa mesma Tati contando coisas de sua infância e adolescência para um amigo alemão. Se ela quiser realmente ser entendida, vai ter de dar inúmeras explicações paralelas à estória que só quem já passou por isso pra saber como é desestimulante. E inútil também, porque assim como piada explicada perde a graça, estórias cheias de parêntesis perdem o sentido. Esse é o tal do corte biográfico. Essa quebra da biografia de uma pessoa que a obriga a estar sempre se explicando. Fica complicado falar de seu prédio, sua rua, sua escola, os programas de TV que você assistia, suas experiências enfim,  porque muitas vezes vai ser difícil encontar alguém que possa dizer sendo bem sincero mesmo "eu sei exatamente o que é isso". Nenhuma estória pode ser simples, tudo tem de ser cheio de pausas explicativas e isso cansa. E quem sai de sua terra, mesmo que seja somente pra uma outra cidade já passa por isso. Por esse mesmo motivo também é que a cidade natal no geral tem um lugar especial nas recordações dos imigrantes. E claro, quanto mais você imigra, mais cortes como esse você vive. Não quero dizer que isso seja ruim. É só muito compexo e pode ser cansativo.

Eu me acostumei com a sensação de ter perdido parte de minha estória. No iniciozinho ainda caía nessa de explicar mil coisas pra fazer uma coisinha ser de fato compreendida. Depois aprendi que valia mais à pena me calar, ouvir mais, aprender mais. Foi dífícil, mas hoje em dia é tranquilo. O único problema é que o hábito de me explicar demais persistiu. Por exemplo, agora eu precisei falar tudo isso aí só pra dizer o quanto eu estou feliz de estar de volta a um lugar no qual minhas palavras não precisam de parêntesis nem notas de rodapé.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ai,ai meu povo - Espontaneidade

O meu povo é de uma espontaneidade incrível. Essa espontaneidade me encanta e me irrita. Deixa eu dar um exemplo: outro dia eu estava indo à pé para um supermercado pertinho aqui de casa. Passei por uma senhora andando com certa dificuldade, que assim que me viu passar por ela, com a agilidade que me cabe no auge de meus trinta e poucos anos, proferiu um desesperado "Ô minha filha, espera aí! Vem cá, faz um favor." Voltei e aí fui testemunha do tipo de espontaneidade que me encanta. A senhorinha, me diz "Corre ali e avisa aquela moça de blusa listrada pra me esperar que eu estou chegando. Eu não posso correr minha filha, cê me faz esse favor?." Claro que eu atendi ao pedido e enquanto fui tentar alcançar a conhecida dela, fui ouvindo mil gritos de obrigada e deus lhe page.

Tem ainda o tipo de espontaneidade de meu povo que é super criativa e divertida. Tipo a que motivou alguém a escrever esse recado aí abaixo e colar numa caixa telefônica no meio da rua. Imagino mil cenários diferentes pra justificar essa cena. Mas seja qual for a explicação a certeza que fica é que brasileiro não se aperta, né?




Infelizmente nossa espontaneidade não é so do bem. Tem várias situações nas quais o brasileiro e em especial o baiano exagera nela. Tipo assim, tem uma fila enorme, uma pessoa passa por todo mundo, vai direto ao caixa e começa a fazer mil perguntas, contar toda sua estória e porque está ali. O funcionário por sua vez, flexivel como ele só, continua a atender o cliente à sua fente, mas divide sua atenção para responder as perguntas e ouvir o bla bla bla do enxerido recém-chegado, que não se toca que pode também ter todas as suas perguntas respondidas quando chegar a sua vez.

Nesses momentos me bate a saudade da Alemanha. Lá as pessoas esperam pacientemente na fila até serem chamadas pelo(a) atendente e fazem isso sem ficar cheirando o cangote da pessoa logo à frente. A ou o atendente por sua vez, pode até dar uma informação a um cliente fora da fila, coisa do tipo é esta ou não a fila na qual o senhor deve entrar pra resolver seu problema, qualquer coisa além disso deixa eles completamente confusos e irritados. Por isso eles tem uma habilidade impressionante de ignorar as pessoas que estão ali do lado tentanto resolver seu problema de finininho sem entrar na fila. No entanto, quando chega a sua vez, você tem a atenção deles individida, por quanto tempo você precisar, sem cara feia, sem impaciência, com raríssimos erros e com muita eficiência.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ai, ai meu povo - como tudo vira "inho"

Existem muitas coisas legais de se voltar pra casa. Além das óbvias tipo rever os amigos, a familia, comer as comidas de que se gosta, tem a delícia de se poder digitar os acentos sem complicações ao escrever esse texto e de ouvir o sotaque de minha terra com o ouvido fesquinho. De repente, consigo perceber do que as pessoas falam quando falam do sotaque baiano e quer saber de uma? É cantado, é engraçado e é lindo, viu...

Faz tempo que havia uma propaganda de uma emissora de TV aqui na Bahia, falando das coisas boas do estado e que finalizava dizendo "isso só se vê na Bahia" e de fato tem coisas que só se vê e vive aqui mesmo. Quer um exemplo? outro dia liguei pra um banco porque precisava resolver uma situação, e o diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

BANCO: Banco tal e tal Andea, boa tarde.
EU: Boa tarde Andrea, preciso resolver isso isso e isso, é ai com vocês mesmo?
BANCO: É sim, qual o nome da senhora?
EU: É Cristiane.
BANCO: Aguarda só um minutinho Cris, que eu vou resolver.

Aqui na Bahia em menos de cinco minutos a funcionária de um banco já estava me tratando por um apelido carinhoso. Depois de tanto tempo de Alemanha, foi gostoso me relembrar de como nosso povo não aguenta formalidade por muito tempo e transforma tudo em "inho". Devagar vira devagarinho, um pouco vira um pouquinho e mãe vira mainha. A funcionária do banco ter me chamado de Cris, nao significa que ela estava tomando liberdades ou "ozadia", como a gente diz aqui. Significa simplesmente que ela deve achar que pra meus amigos e família eu sou mesmo é Crisinha e Cris só é uma consequência natural do nome Cristiane e ela tem razão. Aqui em Salvador eu sou Cris oficialmente e tenho uma série de nominhos bonitinhos pra meus amigos e minha família. Só agora sinto o quanto estava sentindo falta dessa versão mais suave e menorzinha de mim.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bem pertinho do centro da cidade

A cidade de Bremen é cheia de parques. Todos lindos, bem cuidados e cheios de pessoas fazendo esporte, crianças brincando. Quando vai chegando essa época do ano, na qual o sol brilha mais e faz mais calor, as pessoas aproveitam pra tomar um solzinho no parque antes de ir pra casa. Esse daqui é bem pertinho do centro da cidade num bairro chamado Ostertor, mas conhecido como Viertel. Lá atrás dá pra ver o teatro Goethe.

domingo, 20 de março de 2011

Esperando o próximo Carnaval

Duas semanas depois que o carnaval acabou, depois de ter superado a ressaca, depois de ter revisto minhas fotos tiradas em plena loucura momesca, me sinto em condições de refletir e escrever sobre ele. Passei meu carnaval este ano em Colônia, cidade do estado da Renânia Norte-Vestfália que fica à mais ou menos 300 km de Bremen. Assim que desci do trem, vi que Elvis estava conversando animadamente com o Homem -Aranha e a Smurfete. Os três tomavam cerveja enquanto esperavam o bonde. Pronto! Tive certeza que estava no lugar certo.

Colônia é a terra do carnaval alemão. Durante os cinco dias seguintes a cidade inteira se fantasiou, lotou os bares com bailes de carnaval e vibrou cantando as mesmas músicas repetidas vezes. A festa tinha início logo cedo: lá pelo meio dia, as pessoas já começavam a formar as filas pra entrar nos bares e a energia, o bom humor e animação se mantinha até pelo menos as três horas da manhã. Depois de viver oito anos em uma cidade na qual a cultura de carnaval é praticamente inexistente, fiquei muito feliz de pode reviver essa festa este ano. O Kölner Karneval é uma experiência tão divertida e interessante quanto o nosso carnaval e em alguns aspectos até supera o nosso em termos de criatividade, já que ao invés de gastarem fortunas com uniformes pra folia,  as pessoas investem seu dinheiro, mas também tempo,energia e criatividade nas próprias fantasias. Isso sem contar que em Colônia dá pra se concentrar na farra de verdade, sem precisar ficar tão ligado na violência que, na minha opinião, sempre cria uma nuvem tóxica de tensão no ar em todas as nossas festas populares no Brasil.

Mas seja  lá ou aqui, percebi que meus carnavais tem uma coisa em comum: sempre os passei com pessoas queridas, que assim como eu, estavam mais interessados em viver momentos felizes com amigos do que na festa em si. Esse ano não foi diferente: tive a sorte de passar meu carnaval com uma grande amiga do peito, dando muita risada, relembrando momentos felizes e construindo outros pra relembrar no futuro.O fato que eu pude fazer tudo isso, fantasiada, dançando e segurando um copo de Kolsch(1), foi como a cereja no topo do sorvete ou em termos carnavalescos, como o véu de noiva na garrafa da cerveja.

Obrigada Shi, obrigada Chris. O carnaval com vocês foi bom demais.
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1. Cada região na Alemanha se orgulha de sua própria cerveja. A de Bremen é Beck's. Kölsch é a de Colônia.

P.S.Vou fazer propaganda mesmo: Pra todos os que quiserem viver um carnaval inesquecível em Colônia, vão pro Petersberger Hof ou Berrenrather. Dois bares fantásticos, DJs que sabem o que a galera quer ouvir no carnaval, cerveja gelada, galera trabalhando com sorriso e bom humor o tempo inteiro. Os frequentadores do bar são super divertidos também. Se preparem: se forem uma vez, vão querer ir todo ano.
 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Carnaval

Minha resposta era sempre um grande não toda vez que me perguntavam se eu gostava de carnaval. Mas por alguma razão misteriosa qualquer, sempre me encontrava em Ondina em algum momento da folia, me acabando de dançar atrás de algum trio elétrico bem infame.

Depois que vim parar aqui em Bremen parei de tentar entender se eu gosto ou não desse evento, porque ele simplesmente deixou de fazer parte de minha vida. Até que de repente eu descubro que aqui em Bremen tem um carnaval de samba que vem ficando maior a cada ano que passa. Finalmente compreendi porque os Saltimbancos queriam vir pra cá... 

Hoje é carnaval aqui em Bremen. Grupos percussivos de diversas partes da cidade, outros da Holanda, desfilam pelo centro da cidade, tentando batucar como nas escolas de samba do Brasil.  Pessoas fantasiadas dançando pelas ruas, confundem as cabeças de qualquer um que assista esse espetáculo: um frio danado te confirma que você está em Bremen, mas as fantasias e os rostos pintados te fazem pensar que isso aqui poderia ser Mardi Gras talvéz em New Orleans, a música por outro lado, te dá a ligeira impressão de estar no Brasil.

Muitas vezes quando se mora longe de nossa terra, a gente desenvolve uma fome extraordinária por tudo que é nosso. Sempre gostei de nossa cultura, mas de fato ao chegar aqui fiquei enloquecida de paixão por ela. O carnaval pertence ao mundo católico, mas o samba é nosso. Ver um desfile carnavalesco movido à samba no centro de uma cidade protestante alemã, me deixa com vontade de dizer que eu adoro carnaval. Mas enfim, vou parar de tentar solucionar esse mistério e cair no samba alemão. Se me lembar, quarta-feira de cinzas volto aqui pra dizer se valeu à pena.
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P.S. O título desse post leva à página oficial do carnaval de Bremen. Está em alemão, mas as fotos são bonitas. 
      

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Privacidade Parte II

Voltando ao assunto de como as pessoas lidam com sua privacidade aqui na Alemanha, recentemente ouvi essa frase: "Isso é uma invasão de minha privacidade. Não quero dizer nada sobre esse asunto." Dou três chances pra vocês tentarem descobrir quem falou isso. Não foi em um interrogatório policial. Não foi em uma discussão política e nem em um filme  policial cliché. Eu ouvi esta frase de um garoto de 13 anos, na sala de aula quando perguntei "What do you do in your free time?" (O que você faz no seu tempo livre?).
Antes que vocês digam que este guri estava apenas de brincadeira eu garanto à vocês que esse ele estava apenas reproduzindo muito bem o peso e valor que as pessoas aqui nesta cultura dão à sua privacidade. Quando comecei a ensinar aqui eu ficava irritada e confusa depois de cada aula. Eu simplesmente não entendia porque a mesma estrutura de aula que fazia o maior sucesso no Brasil era um grande fracasso aqui. Em Salvador, era raro ter uma turma que não se empolgasse com atividades que os fizessem levantar, andar pela sala falando uns com os outros  e falando de si mesmos. Aqui, para essas atividades funcionarem, é necessário uma longa preparação. Já percebi que essas atividades funcionam muito bem depois de muitas atividades para se conhecer e criar um certo clima de intimidade no grupo. Além disso, se você e a turma ainda não se conhecem muito bem, sempre ajuda se você deixar bem claro no início de uma atividade dessas, que você não está nem aí pra vida pessoal deles e que eles devem inventar respostas se quiserem.

Comecei a dar essa instrução antes de cada atividade que tivesse pergunta pessoal, de qualquer tipo. Comecei também a dar informações sobre mim mesma que eram obviamente inventadas, só pra estabelecer um exemplo. Tipo, em uma aula eu dizia que tinha nascido aqui, em outra que tinha nascido no Brasil e por aí vai. De repente, um ou outro começa a se interessar e de fato querer saber. Cris, falando sério agora: você nasceu onde mesmo? Quando essa pergunta surge, na qual eles de fato querem saber alguma coisa pessoal sua, você sabe que o grupo atingiu aquele nível de abertura necessário pra atividades comunicativas darem certo, ou o mesmo nível do segundo dia de aula no Brasil. 

Um outro aspecto importante é assegurar às pessoas que a privacidade deles está protegida com você. Eu gosto de fazer uma lista de contato nas minhas turmas para que, caso aconteça alguma emergência, a gente possa entrar em contato um com os outros facilmente. Antes de oferecem seus dados, os alunos sempre gostam de ouvir que eu não vou passar a lista pra mais ninguém e que ao invés de jogar aquele papel no lixo, que eu o jogarei no picotador de papel. É um monte de detalhe, pra quem vem de uma cultura onde basicamente ninguém tá nem aí com essa coisa, mas vale à pena passar por isso pra que no final das contas o ambiente de sala de aula seja relaxado e para evitar que os alunos achem que você é um interrogador e que eles estão de volta aos tempos da Alemanha dividida.

Isso é um caso sério mesmo. Por questões históricas esse povo tem trauma de ser seguido, observado, interrogado. A Alemanha já viveu vários momentos em que privacidade não era um direito e sim apenas um conceito distante e por isso hoje, que de fato é possível, ter privacidade, eles à protegem com unhas e dentes nas menores coisas. Por exemplo, ninguém te pergunta qual a sua religião, pra quem você votou, se você é casado ou solteiro, se tem filho. Pouca gente se exaspera quando descobre que você não tem celular ou quando te liga e ele está desligado. Se você liga pro trabalho e diz que está doente e não pode ir trabalhar, ninguém fica te perguntando o que você tem, você conta se quiser. Inclusive determinadas perguntas no ambiente de trabalho podem até gerar processos de invasão de privacidade. A precaução com a privacidade no terreno virtual também beira a paranóia e sempre me intrigou, já que a Alemanha é campeã em produção e exportação de tecnologia que ela mesma é cautelosa ao usar. 

Para resumir a conversa, tem um velho ditado que diz: "Quando em Roma faça como os Romanos". Já que estou na Alemanha, aprendi a ser mais cautelosa e cuidar mais da minha privacidade. Acho que encontrei o caminho do meio entre a super exposição brasileira e a super paranóia alemã. E o ideal pra grande parte das coisas desse mundo não é mesmo poder apreciar de tudo com moderação?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Bremer Dom

Pra quem não acredita em mim quando eu digo que Bremen é linda, aqui está mais uma prova. Uma foto tirada recentemente em um dia friozinho, mas de muito sol. Beleza de verdade, sem truques nem fotoshop. Nem uma câmera mais ou menos impediu essa cidade de sair bem na foto. Esta são as torres da catedral de Bremen, a St. Petri Dom.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Privacidade

Essa semana me deu uma coisa e eu troquei a imagem de um de meus posts. O problema é que se tratava de uma foto minha, na qual eu estava vestindo um top tomara que caia e bati a foto de um ângulo que só dava pra ver meus ombros. O efeito final ficou parecendo que eu estava sem roupa. Apesar da foto ter saído super legal e de ter ficado perfeita pro post, resolvi tirar do blog depois de refletir um pouco sobre como as pessoas aqui encaram questões de privacidade e auto exposição na internet. Isso veio porque no mês passado li um artigo em uma revista daqui que falava dos perigos de se usar Facbeook, Twitter e Co. e de pessoalmente contribuir com os invasores de privacidade por se expor demais na internet. O artigo expressava bem o que é uma preocupação constante do alemão: o medo de que sua privacidade seja invadida e seus dados repassados à terceiros através desses sites que viraram parte de nossa vida diária. 

Em termos de exposição, eu me considero bem coluna do meio, ou seja: sei que estou longe de ser a pessoa mais reservada do planeta, afinal quem não quer aparecer de jeito nenhum não tem blog, não é mesmo? Por outro lado, não ando colocando meu nome completo em lugar nenhum, não tenho fotos comprometedoras e nem ando compartilhando minúncias de minha vida em nenhum site. No entanto, o pavor que alguns alemães sentem da exposição cibernética, tem me deixado meio paranóica. Fico me perguntando se de repente não estou cega sem saber o tamanho do risco que estou correndo ao me conectar.

Quando comparo meus amigos brasileiros com os alemães, minha confusão só aumenta. Os brasileiros fazem uso de absolutamente TODAS as tecnologias disponíveis no mundo sem o menor receio. Eu adoro, claro porque posso ver todas as fotos, saber de tudo que tá se passando e aprender. Sim, porque foram meus amigos brasileiros que me apresentaram ao Orkut e mais tarde ao Facebook. Se não fosse por um deles, estaria até hoje sem entender que cargas d'água era Twitter. Através deste mesmo amigo, conheci há pouco tempo o termo Formspring. Ainda não entendi direito pra que isso pode ser útil na vida de um ser humano, mas pelo menos me sinto menos ignorante por pelo menos já ter ouvido falar no nome da coisa. 

Meus amigos brasileiros pelo visto não estão nem aí. Eles tem blog, fotolog, Formspring, Twitter, Facebook, Orkut, Skype, Myspace, emails mil, fazem compras online, internet banking e tem um celular de cada operadora atuante no país. O que me leva a achar que se essa tecnologia toda fosse assim tão malígna, muita gente já teria se dado muito mal. No entanto parece que até agora a única incoveniência que essa exposição toda causa são alguns emails indesejáveis que vão parar na lixeira e acabou.

Meus amigos alemães, por outro lado, ficam chatedos de verdade se você coloca uma foto da galera toda comportada no Facebook, por exemplo. Já ouvi estórias escabrosas de amizades que terminaram porque uma pessoa colocou uma foto da outra no StudiVZ (uma espécie de Orkut daqui), ou porque escreveu no status do Facebook "o encontro com fulaninho ontem no café tal foi ótimo". Eu respeito muito a privacidade de cada um e por isso depois de já ter visto muita cena feia por aqui, resolvi que não vale à pena tirar minha câmera da bolsa pra fazer foto de ninguém aqui. Não tiro foto de alemão, não comento sobre eles em site nenhum e no Facebook, me limito a aceitá-los quando me convidam, mas nunca procuro nem escrevo pra ninguém e só respondo o que me perguntam. Essa paranóia tira um pouco a graça da coisa, mas não tenho energia pra ter discussões filosóficas sobre o valor da privacidade depois de cada visita ao Facebook, por isso deixa quieto.

As coisas ficam ainda mais confusas pra mim quando vejo que muitas vezes as mesmas pessoas que se chateiam quando descobrem que alguém divulgou no Facebook fotos na qual aparecem no cantinho, não pensam duas vezes em se registrarem em sites especializados em busca de relacionamento amoroso. Sites nos quais a pessoa, não só voluntaria informações pessoais, como também efetivamente acabam se encontrando com pessoas completamente desconhecidas. Isso faz sentido? Qual a diferença? Será que alguém pode me explicar.

Eu pessoalmente só encontro uma justificativa: Em um país onde a criminalidade não é assim tão grande que você tenha de viver com medo de ser alvo de sequestrador, essa preocupação exagerada com a privacidade só pode significar que essas pessoas estão andando por aí se comportando muito mal. Andam tão preocupadas com a privacidade porque tem muita coisa a esconder, desde bebedeiras descontroladas e constrangedoras a casos de infidelidade e traições escabrosas. Se além de ter tanto segredo a pessoa ainda der azar de sair sempre muito feia nas fotos, entendo completamente essa recusa de se expor. Só tenho essa explicão.Ou não estou conseguido exergar outras questões muito mais complexas? Quem me exclarece?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Bremen é linda

Sabe esses momentos nos quais a gente finalmente enxerga uma coisa que estava debaixo de nosso nariz? De vez em quando tenho uns momentos desses. Momentos assim são mágicos e me fazem perceber que algo de criança ainda vive em mim. Me sinto como uma pessoinha recém chegada nesse mundo, se deslumbrando com uma coisa novinha em folha. Esse novo olhar para algo que já tinha visto milhões de vezes, me enche de felicidade, porque me dá a esperança de que a vida possa ser sempre assim, com possibilidades infinitas de se surpreender e encantar. Eu tenho isso com coisas, situações, pessoas, cidades... 

Bremen é uma dessas cidades encantadoras onde eu vivo revendo coisas como se fosse a primeira vez. Eu me apaixonei por ela exatamente por sua capacidade de me surpreender constantemente. Essa cidade me faz surpresinhas com suas estações do ano diferentes, com suas ruazinhas, com sua história que vou descobrindo de pouco em pouco por culpa de meu alemão ruinzinho. Por isso convido vocês a me acompanharem em um city tour por essa cidade lindinha como a estorinha dos Saltimbancos que infelizmente não tiveram a sorte de chegar até aqui.


Os músicos que nunca chegaram a Bremen.