terça-feira, 11 de outubro de 2011

Criança Feliz

Tudo me lembra criança esse mês.  Não por causa do celebrado dia delas, até porque pelas bandas de cá isso não existe. Tudo me faz pensar em criança no momento porque revi meus afilhados, que estão lindos e enormes e porque K, minha maravilhosa girlfriend, está curtindo uma gravidez planejadíssima e super desejada.

Mas ser criança aqui na Alemanha também é um assunto legal de futucar pra descobrir as semelhanças e diferenças entre culturas. A maior delas, eu acho que é o fato de que no Brasil, a criança é mais celebrada do que aqui. Além de um dia pra se comprar presentes para elas, existe uma acordo tácito de que é proibido não gostar de criança. Aqui não só tem muita gente que não gosta como também tem os que se sentem super à vontade pra dizer isso em qualquer lugar sem nenhum constrangimento. Uma declaração do tipo "Não quero nunca ter filhos" que horroriza muita gente no Brasil e inicia calorosos debates sobre as maravilhas da maternidade, é tratada com muita naturalidade por aqui. Tem um monte de gente casada ha milênios que resolve não ter filhos e não tem mesmo. Normal.

A Alemanha é famosa por ser um país bem velho e talvéz essa escassez de criança seja uma das razões pelas quais as pessoas aqui são menos tolerantes do que no Brasil com os pequenos. É raro se ver gente fazendo bilúbilú pra um bebê qualquer que não conhece. Uma mãe empurrando um carrinho de bebê, segurando uma outra criança pela mão e carregando um saco de compras, nem sempre desperta nas pessoas o desejo de levantar e oferecer o lugar no ônibus. Na verdade, eu diria que não desperta nenhum tipo de sentimento. Aqui os corretores listam como desvantagem o fato de um imóvel estar localizado muito próximo a uma escola. Muito barulho; é como justificam a desvalorização. Tem lugares que aceitam animais, mas não aceitam crianças, muita gente se incomoda com elas em restaurante, no mesmo andar do hotel, com os papos de pai e mãe contando estórias sobre seus filhos. E elas literalmente desaparecem das ruas depois das 18:00 horas. Sério mesmo: há oito anos estou aqui e vi somente uma única vez, um casal com um carrinho de bebê na rua depois das 18:00. Eram 20:00 horas e todo mundo que passava por eles lançava uns olhares fulminantes de condenação.

Talvéz por isso, muita gente acaba se isolando do mundo depois que tem filho. É uma faca de dois gumes: Por aqui é muito mais comum achar gente que muda de personalidade depois de ter filho. Muita gente fica chata e sem assunto nenhum que não seja relacionado a bebê. Mas por outro lado o fato de que nem a sociedade é muito receptiva e nem os amigos dão muita chance às pessoas socializarem com seus filhos junto, torna as coisas mais complicadas pros pais.

Em termos de educação é que eu acho muito legal o que eu vejo por aqui. As crianças alemães são muito mais independentes do que as brasileiras. Ainda bem pequenininhas, elas andam ao lado de suas mães sem necessidade de dar a mão. Muitas vezes elas vão é de bicicleta mesmo, as mães na frente e elas atrás como patinhos seguindo a mamãe pata. Elas são educadas desde cedo a serem bem independentes, questionadoras e decididas. Desde cedo elas escolhem as próprias roupas, ganham mesada pra saber administrar seu dinheirinho e são estimuladas a assumir pequenas tarefas em casa muito antes dos brasileirinhos. Marcus, meu afilhadinho quando tinha 4 aninhos, passou um fim de semana aqui em casa e nessa ocasião, me surpreendia por minuto. Sua pouca idade não o impediu de arrumar sua própria bagunça sem eu ter de mandar, me dizer exatamente quais as comidas que gostava e não gostava, o que ele queria assistir antes de dormir, o que ele queria do supermercado (somente um suquinho e um biscoito - quando eu tinha dado opção ilimitada) e quando eu peguei um chapéu qualquer pra ele colocar porque estava frio lá fora, ele disse que queria o outro porque era mais "cool". 
  
Tenho vários amigos que tem filhos e entre eles sinto uma tendência mais flexível do que a do resto das pessoas aqui. Sinto que meus amigos conseguem aproveitar o melhor que a cultura alemã oferece em termos de educação para seus filhos, mas ainda assim mantém a cabeça aberta e a vida tão flexível quanto o dia a dia com as crianças permite. Esse equilíbrio dos melhores aspectos de duas culturas tem resultados maravilhosos, como é o caso de Stela e Shi duas amigas maravilhosas que são dois dos melhores exemplos de mães que eu conheço. Conseguem curtir a vida, os amigos e os filhos numa boa. Conseguem os educarem dentro das espectativas alemães, mas deixando as nóias e a rigidez de lado. Comigo o que percebo é que continuo a gostar e me dar bem com crianças, mas depois de minha experiência ensinando em uma escola pública aqui, resolvi me aposentar de lidar com elas profissionalmente. Mas esse é um assunto complexo que prometo contar em outro post.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

79 dias


Minha estadia no Brasil esse ano chegou ao fim. Foram muitas alegrias, muitas cervejas, muitas farras, muitos encontros com amigos, muitas comidas deliciosas, muitos quilinhos a mais. Alguns aborrecimentos também, né? Fazer o quê? Assim é a vida. Mas quer saber? Foram 79 dias genuinamente felizes. Feliz pela certeza de que muitas pessoas amadas poderiam ser alcançadas com apenas uma ligação local. Feliz de poder estar perto, beijar, abraçar e ouvir suas vozes enquanto olhava em seus olhos.

Esse tempo maravilhoso, passou super rápido e tão devagar ao mesmo tempo. Curti meus dias aqui ao mesmo tempo que senti uma saudade enorme de minhas pessoas queridas em Bremen. Queria que o dia de voltar nunca chegasse ao mesmo tempo que contava os dias pra ele chegar. Foi uma espécie de “foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos.” Coisas de ser humano que sempre fica querendo o que não tem. 

Só pra pra deixar bem claro: eu amei meus quase três meses de Brasil. Cada minuto com meus amigos  foi especial Mas agora quero mesmo é cantar igual a Chico com pequenas adaptações: pode ir preparando aquele Kohl und Pinkel, coloca uma Weizen pra gelar porque eu estou voltando!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Para Lubi, meu irmão.


Lembro que quando eu era criança tudo o que mais queria nessa vida era ter um irmãozinho. Aliás, um irmãozinho, não. O que eu queria era um irmãozão. Nas minhas fantasias de criança, o irmão que me fazia falta nunca era um bebê chorão menor do que eu e sim um menino que seria sempre um pouquinho mais que eu: mais velho, mais sábio, mais popular, mais conhecido. Muito estranho isso, mas quando criança eu trocaria, sem hesitar, qualquer situação em que eu fosse o centro das atenções pela chance de poder dizer: “O quê? Você conhece fulaninho? Ele é meu irmão.” Eu desejava aquilo com tamanha intensidade que minha cabecinha avoada de criança nem se tocava do óbvio que era a impossibilidade daquele sonho. Eu já estava aqui no mundo, ter um irmão mais velho só poderia virar realidade em outra vida.

O tempo foi passando e com ele aquela fantasia foi dando lugar a outras. Agora queria era passar no vestibular, conseguir juntar dinheiro pra fazer um intercâmbio, comprar um carro, arrumar um namorado legal, comprar uma casa, conseguir aquele emprego bala, ganhar na loto, ter uma ilha. À medida que a gente vai crescendo, nossos sonhos vão ficando mais materiais, mais práticos e comigo não foi diferente. Uns sonhos foram se realizando rápido, outros de forma mais trabalhosa e outros foram mudando ou terminaram sendo completamente substituidos. No geral, me considero uma pessoa de sorte por quase sempre conseguir alcançar minhas metas, meus objetivos.
Mas realizar sonhos leva tempo e dá trabalho. Por isso eu estudei muito, troquei de universidade, trabalhei aqui e acolá, trabalhei por merreca, fiz amigos, perdi amigos, fiz cursos, viajei, galinhei bastante - porque ninguém é de ferro -, me apaixonei, chorei, dei muita risada, caí, levantei, quis mandar tudo pra puta que pariu, virei zen, fiz yoga, perdi a paciência, a recuperei e, durante todo esse tempo (mais ou menos a partir do momento em que eu comecei a deixar de lado o desejo de ter um irmão mais velho para dar preferência a outras fantasias), uma pessoa esteve presente acompanhando tudo isso. Olhando pra trás, lembro exatamente do nosso primeiro contato: eu estava anotando alguma coisa num caderno, apoiado na minha mão, de pé, em frente à sala de aula, antes de o professor chegar. Ele estava encostado na parede, bem ao lado do papel que eu queria ler. Tentei ignorar sua presença, mas ele não é o tipo de pessoa que alguém consiga ou queira ignorar. Era um adolescente lindo, alto, com cabelos longos e brilhantes de dar inveja a qualquer menina, seus olhos eram super meigos, era muito, mas muito charmoso mesmo e como era cheiroso! Simpático como ele só, começou a brincar comigo, tentando me atrapalhar com minhas notas. Dei risada e senti meu coração se aquecer. Mal sabia eu que meu sonho de menina estava se realizando. Naquele exato instante, estava nascendo para mim meu irmão mais velho.Desde então, Lubi, meu irmão esteve presente em minha vida em todos os momentos. Nas fases ruins ele me ouve, aconselha, oferece outra perspectiva da situação. Quando eu passo dos limites, meu irmão me dá umas chamadas pra real também. Coisas de irmão mais velho. 

domingo, 4 de setembro de 2011

Choque musical


Quem disse que é preciso sair do próprio país pra se ter um choque cultural? Recentemente tive o prazer de vistar a Cidade Maravilhosa com a minha família e tive algumas experiências interessantes. A que eu quero relatar aqui hoje é de ordem musical. Quando estavamos no Rio, tivemos o prazer de conhecer pessoas muito legais que nos ofereceram experiências maravilhosas naquela cidade espetacular (um grande abraço pra Norma e Seu Raimundinho e Lena. Cláudia, valeu por nos ter apresentado!!). Eu disse que tinha curiosidade de ver um Baile Funk e Lena, mais do que depressa arrumou um pra gente ir. Ela contou que ia ter um show de pagode e que nos intervalos e no final do show rolava o funk.

Quando ela falou em pagode, imaginei algo assim como “Foge, foge Mulher Maravilha, foge,foge com o Superman”. Baixaria pura, foi o que pensei, mas como minha filosofia de vida é “se foi pro funk, vá descendo até o chão”, coloquei minha roupa de piriguete e me juntei à galera pra ir pro baile. Chegando lá, não me deixei incomodar pelo fato de o nosso grupo ser prehistórico em comparação com os adolescentes que estavam lá. Fui chegando e chacoalhando meu esqueleto. Meu primeiro contato com o mundo funk carioca me deu a impressão que a mídia o tratava com muita injustiça e exagerava muito os fatos. Não achei as danças escabrosas e nem me senti no meio do inferno. Tudo muito normal, adolescentes se divertindo, explorando sua sexualidade com outros adolescentes de forma muito saudável, foi o que pensei.

Mas aí o show da banda de pagode começou e minhas elocubrações deram espaço ao meu primeiro choque cultural com a cultura carioca. Não ouvi o que eu achava que ia ouvir. O que os cariocas chamam de pagode é o que nós baianos simplesmente chamamos de samba. Tenho que admitir que foi uma surpesa agradável. Os pagodeiros cariocas tocaram “Tudo está no seu lugar” de Benito de Paula e “Testamento de um partideiro” de Candeia. Naquele instante me lembrei de uma aula que tinha recebido alguns anos antes de meu priminho querido Samyr. Samyrzinho do Cavaco, nascido e criado no estado de São Paulo, já tinha me advertido para certas diferenças na nomenclatura musical das regiões sudeste e nordeste de nosso Brasil. O que eles chamam de pagode pra gente é samba, o que a gente chama de pagode para eles é Axé e essa miséria toda é música baiana. Faz sentido. Ainda na mesma aula ele chamou minha atenção pra não queimar meu filme falando asneiras do tipo “banda de samba”. Se toca samba é grupo, Cris. Grupo de samba.

Depois de relembrada a lição e de ter dançado muito ao som do samba, quer dizer, pagode, ou melhor samba, ah vocês entenderam, né? Foi a vez do Funk mostrar sua verdadeira cara. Não sou uma pessoa que se choca fácil com as coisas, mas as letras daquelas músicas fizeram meu cabelo arrepiar. As danças eram de fazer o pessoal de Sodoma e Gomorra corar de vergonha. Me encostei na parede pra proteger a retaguarda e bati em retirada, afinal de contas como diria o sábio filósofo Roger Murtaugh “I’m too old for this shit”.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Cidade Maravilhosa

Olha, agora eu entendo direitinho porque o Rio de Janeiro foi apelidada Cidade Maravilhosa. Que cidade linda! Me apaixonei à primeira vista e sei como Tom Jobim se sentia: também "estou morrendo de saudades". E não foi só a beleza física daquela cidade que me conquistou não. A cidade maravilhosa também tem um astral maravilhoso, uma energia vibrante e clima boêmio por onde quer que você vá. Como se isso não fosse suficiente, o Rio fez eu me surpreender comigo mesma. Eu vou contar como:

Quando eu viajo, não me acanho nem um pouco de fazer papel de turistona mesmo. Quero ver as atrações principais, faço fotos até o dedo fazer calo e se for diferente do que eu conheço, quero ver, ouvir, fazer, conhecer. Tudo sem agonia, mas também sem me envergonhar nem um pouquinho de ser turista. Por isso, apesar de não ser nada religiosa e de não ter nenhuma simpatia especial pela igreja católica fiz questão de ir ver o Cristo, é claro. O ônibus de linha que nos levou ao Corcovado parecia mais um ônibus de turismo. Só tinha gente, que como nós, tinha viajado muito pra estar ali naquela cidade. 

Em um determinado ponto, uma família de turistas estrangeiros entrou no ônibus. Eles falavam espanhol e um dos meninos, que deveria ter seus seis anos, ia observando as paisagens da cidade e comentando o que via com seus pais. De repente, o Cristo pode ser visto lá do alto. Muitas pessoas apontaram e comentaram, mas esse menino gritou mesmo "Olha, olha o Cristo!!!". Sem que eu pudesse entender ou controlar minha reação, as lágrimas começaram a rolar de meus olhos. Não entendi nada. O menino, por sua vez, gritava empolgado toda vez que o Cristo reaparecia à distância e isso de repente fez minhas mãos gelarem, meu coração palpitar e enquanto tentava conter minhas lágrimas, percebia minha ansiedade aumentar aguardando o momento em que o garoto avistaria e anunciaria a atração. No final das contas estava gritando junto com ele "Cristo! Cristo! Cristo!" "Fale sério, Cris. Quanta abestalhação!!!" pensei comigo mesma.  Mas algo mais forte do que eu me impedia de me comportar como uma adulta normal naquele momento.

Podem me chamar de brega se quiserem, mas acho que naquele instante, me senti tocada diante do maravilhoso que era estar perto de um monumento que já tinha sido visitado por milhões de pessoas de lugares diferentes antes de mim. Me emocionei de novo só de pensar que aquela turistada toda que ali estava naquele momento, por mais diferentes que fossem, tinham um desejo em comum. O desejo de subir aquele morro, admirar a paisagem, fazer fotos de braços abertos na frente daquele monumento e de depois voltar pra casa, mostar suas fotos aos amigos e dizer "eu estive alí". Naquele momento pensei que realmente somos todos iguais e mais uma vez me emocionei. Fui invadida por uma onda de felicidade e euforia de estar ali, muito parecida com a do menino do ônibus. Só que dessa vez troquei as lágrimas pelas fotos pra poder provar depois que eu estive ali.

Me peguei instintivamente fazendo uma oração na qual eu agradecia à Deus por ter permitido que, apesar de todo o pragmatismo que a gente é obrigado a cultivar pra sobreviver nesse nosso mundo, eu ainda fosse capaz de manter um olhar maravilhado com as coisas, de poder me surpreender com pouco e me emocionar tão facilmente com uma coisa tão banal como uma atração turística. Agradeci por isso e por ainda conseguir, do auge de meus 35 anos, ter a mesma reação inocente que uma criança diante de uma experiência emocionante.

Então é isso mesmo, viu. Sou bobona e infantil e não consigo manter a pose por muito tempo. Se quiserem gritem comigo com empogação: Cristo Redentor! Rio de Janeiroooooo! Rio! Rio! Rio! Cidade Maravilhosaaaaaaaa! Aquele abraço.

Cris e Cristo em pose super original.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Socorro!!!

Voltar pra minha terra natal me dá a oportunidade de lançar um novo olhar sobre a minha cultura. Coisas que antes eram super normais, cotidianas e despercebidas de repente saltam os olhos. Este é um momento interessante, que eu faço questão de não deixar passar em branco. O que tem chamado bastante minha atenção recentemente é como a crescente violência em Salvador tem transformado o comportamento das pessoas. Até meus amigos mais relaxados e tranquilões estão virando uma pilha de nervos. Isso me assusta enormemente. Outra mudança de comportamento que eu observei (já de muuuuuuuito tempo, mas agora está demais) é que pra se proteger um pouquinho que seja da violência, os Soteropolitanos abrem de mão de cada vez mais direitos, de cada vez mais liberdades.

Exemplos: já faz tempo que a gente não pode sacar quanto a gente quer de nosso próprio dinheiro nos caixas eletrônicos. Pra evitar que seus clientes sejam completamente roubados, os bancos instituiram limites de saques nessas máquinas. As operadoras de cartões de crédito seguiram a moda e monitoram de perto as compras de seus associados. Também bloqueiam seus cartões assim que uma atividade atípica é detectada. Agora já não se pode usar o celular dentro dos bancos para evitar que marginais alertem seus comparsas do lado de fora do banco sobre quem sacou dinheiro. Outro dia ouvi uma entrevista de um bambambam da polícia dando dicas de como fazer pra sair vivo de um assalto. Me indignei! claro que eu entendo a lógica de tudo isso. Claro que quando alguém é assaltado, depois de passado o susto da situação, é um consolo saber que o bandido não vai poder raspar a sua conta. Claro que eu entendo medidas preventivas, claro que eu entendo o se querer tomar cuidado. Mas eu faço aqui um convite à filosofar e filosofando, o que eu percebo é o seguinte:

Nós abrimos mão de nosso direito de liberdade. Não podemos sacar nosso dinheiro, ficar dentro de nossos carros, entrar em certos bairros, usar nosso celular onde nos der na telha, andar de moto sem virar suspeito, usar nossos cartões de crédito pra sermos espontâneos, nem tirar meleca do próprio nariz, afinal de contas estamos sendo filmados. Ao invés disso, as autoridades responsáveis por garantir nossa segurança e liberdade nos ensina a aceitar o crime como parte normal de nossas vidas. Agem como se fosse ok oficializar o medo, estimular a acomodação. Prendem as pessoas comuns em um estado de pânico eterno enquanto a criminalidade vai crescendo à vontade. Na boa, vocês conseguem pensar uma coisa mais estranha do que viver em um país (que não está em estado de guerra) e ser obrigado a pensar que "graças a deus que ele só levou meu carro, mas não me deu um tiro", "ainda bem que só foi um tiro de raspão" "ele ficou em coma depois de ter recebido uma bala na cabeça, mas sobreviveu". Será que é mesmo engraçado apelidar um golpe, que muitas vezes resulta em morte de pessoas inocentes de "saidinha bancária". É pra ser bonitinho? Vamos nomear a prática para normalizá-la? É isso?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Uma estranha em dois ninhos


Acabei de perceber que estou dividida entre dois mundos. É uma pena, mas ainda não posso dizer que me sinto cem por cento em casa na Alemanha. Normal, afinal de contas se adaptar a um novo país não é assim tão simples como a gente imagina. Leva tempo, custa muita energia e algumas lágrimas. O problema é que estou percebendo que ao poucos já não me sinto mais cem por cento em casa em Salvador também. Fico observando minhas reações diferentes às coisas com as quais eu era acostumada antes. Hoje o trânsito me irrita, os relatos de violência me assustam, as comidas me dão dor de barriga.

Se bem que peraí... As comidas me dão dor de barriga porque eu estou abusando. Estou comendo três ao invés de um acarajé, feijoada quase todo dia, carregando a mão na pimenta com absolutamente tudo. Claro que isso só podia dar em merda, literalmente. Mas pensar nas comidinhas de minha terra me faz lembrar de outras coisas boas daqui, coisas que me fazem voltar a me sentir em casa. Meus amigos, minha família, meu idioma, meu sotaque, minha música, meu Baêa. Minha Bahia. Pensando bem, isso aqui é minha casa sim e nunca vai deixar de ser.

Mas peraí de novo... Falar de tudo isso estranhamente me remeteu de volta a Bremen e me fez lembrar das coisas que eu tenho lá. Meu amor, minha casa, meu trabalho, meus estudos, meus outros amigos, meus afilhadinhos, minhas Bruxas, minha Weizenbier geladinha com as meninas no bar do vento, a primavera verdinha e florida, o outono amarelinho com uma luz que parece vinda de efeitos especiais de um filme,  o Bürgerpark logo ali do lado, minhas baratonas, a segurança de voltar pra casa depois da farra e de só ter de me preocupar em achar o caminho de casa. É, parece que Bremen também se estabeleceu como minha casa. 

Sabe o que é que eu acho que aconteceu? Nesse complicado processo de imigração parece que eu deixei de ser homeless pra ser "homefull". De "despatriada" para "multipatriada". Passei de perdida no mundo, pra estar com meus pés firmes em duas culturas diferentes de países lindos e especiais, cada um de seu jeito. Entre pessoas maravilhosas aqui e lá que contribuem para que eu seja um ser humano em constante formação e cada vez melhor. Um pouco dividida sim, mas entre muita coisa boa de dois continentes.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Interrompendo a biografia

Quando a gente pensa em mudar pra outro país, no geral não faz idéia da caixinha de surpresas que está por abrir. Tem um monte de questões complicadas de lidar, tipo a ansiedade da preparação pra nova vida, o processo de adaptação à nova cultura e sociedade e a dor de ter de deixar muita coisa pra trás. Há mais ou menos um ano eu estava lidando com minhas próprias neuras relacionadas ao meu próprio processo de imigração pra Alemanha, quando minha amiga Flora me sugeriu fazer um curso que ela mesma estava fazendo e achando muito interessante. Tratava-se de um curso que tinha como objetivo (trans)formar profissionais com alguma formação na área de humanas (professores, psicólogos, assistentes sociais e por aí vai) em palestrantes e facilitadores aptos à oferecer cursos tanto para imigrantes, (para que eles passassem a entender e melhor lidar com seus processos de imigração e através disso poderem se adaptar melhor à nova cultura) como também para diversas instituições que lidam com imigrantes, como escolas, polícia, empresas e assim por diante.

Esse curso abriu meu olhos pra coisas maravilhosas, interessantíssimas e extremamente importantes tanto para minha formação como profissional quanto para meu ser humano. Como tantas coisas na área das ciências humanas, tive o prazer de abrir portas para conhecimentos de grande magnitude que agora são impossíveis de ignorar. Uma dessas descobertas foi a de um conceito interessante que eu vou aqui traduzir toscamente como "corte biográfico". Deixa eu  tentar explicar bem rapidinho como é isso:

Para isso vou apresentar vocês a uma mulher chamada Tatiana. Tati quando criança morou no Cabula, ali um pouco antes da Uneb. Depois ela e sua família se mudaram para a Pituba, pra uma rua que fazia esquina com a Manoel Dias. Na quarta série ela foi estudar no Teresa e muitas vezes ia andando de lá até o Iguatemi pra filar aula com suas amigas. Uma vez, sua mãe encontrou com ela filando aula no shopping e como castigo ela não pode ir a uma festa de 15 anos que ia ter no prédio dela naquela semana. Mas Tatiana no geral era uma adolescente tranquila. Acabou fazendo vestibular pra Letras, primeiro na Católica, mas se desgostou de lá e depois de três semestres foi pra Ufba onde apesar de muitas greves se formou.

Quem for de Salvador, não só vai entender a estória de Tati, como também vai ser capaz de chegar a certas conclusões sobre ela, apesar de nunca tê-la conhecido. Por exemplo, quem é de Salvador sabe que o Teresa era uma escola bem conceituada nesta cidade, que depois décadas de funcionamento fechou as portas. Só de ouvir essa estória também dá pra ter uma idéia da classe social na qual Tatiana cresceu, só em saber em que bairros ela morrou. Até quem não é de Salvador, mas que é brasileiro, sabe que Iguatemi é um shopping center e o que uma festinha de 15 anos significa pra uma adolescente.

Agora imagine essa mesma Tati contando coisas de sua infância e adolescência para um amigo alemão. Se ela quiser realmente ser entendida, vai ter de dar inúmeras explicações paralelas à estória que só quem já passou por isso pra saber como é desestimulante. E inútil também, porque assim como piada explicada perde a graça, estórias cheias de parêntesis perdem o sentido. Esse é o tal do corte biográfico. Essa quebra da biografia de uma pessoa que a obriga a estar sempre se explicando. Fica complicado falar de seu prédio, sua rua, sua escola, os programas de TV que você assistia, suas experiências enfim,  porque muitas vezes vai ser difícil encontar alguém que possa dizer sendo bem sincero mesmo "eu sei exatamente o que é isso". Nenhuma estória pode ser simples, tudo tem de ser cheio de pausas explicativas e isso cansa. E quem sai de sua terra, mesmo que seja somente pra uma outra cidade já passa por isso. Por esse mesmo motivo também é que a cidade natal no geral tem um lugar especial nas recordações dos imigrantes. E claro, quanto mais você imigra, mais cortes como esse você vive. Não quero dizer que isso seja ruim. É só muito compexo e pode ser cansativo.

Eu me acostumei com a sensação de ter perdido parte de minha estória. No iniciozinho ainda caía nessa de explicar mil coisas pra fazer uma coisinha ser de fato compreendida. Depois aprendi que valia mais à pena me calar, ouvir mais, aprender mais. Foi dífícil, mas hoje em dia é tranquilo. O único problema é que o hábito de me explicar demais persistiu. Por exemplo, agora eu precisei falar tudo isso aí só pra dizer o quanto eu estou feliz de estar de volta a um lugar no qual minhas palavras não precisam de parêntesis nem notas de rodapé.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ai,ai meu povo - Espontaneidade

O meu povo é de uma espontaneidade incrível. Essa espontaneidade me encanta e me irrita. Deixa eu dar um exemplo: outro dia eu estava indo à pé para um supermercado pertinho aqui de casa. Passei por uma senhora andando com certa dificuldade, que assim que me viu passar por ela, com a agilidade que me cabe no auge de meus trinta e poucos anos, proferiu um desesperado "Ô minha filha, espera aí! Vem cá, faz um favor." Voltei e aí fui testemunha do tipo de espontaneidade que me encanta. A senhorinha, me diz "Corre ali e avisa aquela moça de blusa listrada pra me esperar que eu estou chegando. Eu não posso correr minha filha, cê me faz esse favor?." Claro que eu atendi ao pedido e enquanto fui tentar alcançar a conhecida dela, fui ouvindo mil gritos de obrigada e deus lhe page.

Tem ainda o tipo de espontaneidade de meu povo que é super criativa e divertida. Tipo a que motivou alguém a escrever esse recado aí abaixo e colar numa caixa telefônica no meio da rua. Imagino mil cenários diferentes pra justificar essa cena. Mas seja qual for a explicação a certeza que fica é que brasileiro não se aperta, né?




Infelizmente nossa espontaneidade não é so do bem. Tem várias situações nas quais o brasileiro e em especial o baiano exagera nela. Tipo assim, tem uma fila enorme, uma pessoa passa por todo mundo, vai direto ao caixa e começa a fazer mil perguntas, contar toda sua estória e porque está ali. O funcionário por sua vez, flexivel como ele só, continua a atender o cliente à sua fente, mas divide sua atenção para responder as perguntas e ouvir o bla bla bla do enxerido recém-chegado, que não se toca que pode também ter todas as suas perguntas respondidas quando chegar a sua vez.

Nesses momentos me bate a saudade da Alemanha. Lá as pessoas esperam pacientemente na fila até serem chamadas pelo(a) atendente e fazem isso sem ficar cheirando o cangote da pessoa logo à frente. A ou o atendente por sua vez, pode até dar uma informação a um cliente fora da fila, coisa do tipo é esta ou não a fila na qual o senhor deve entrar pra resolver seu problema, qualquer coisa além disso deixa eles completamente confusos e irritados. Por isso eles tem uma habilidade impressionante de ignorar as pessoas que estão ali do lado tentanto resolver seu problema de finininho sem entrar na fila. No entanto, quando chega a sua vez, você tem a atenção deles individida, por quanto tempo você precisar, sem cara feia, sem impaciência, com raríssimos erros e com muita eficiência.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ai, ai meu povo - como tudo vira "inho"

Existem muitas coisas legais de se voltar pra casa. Além das óbvias tipo rever os amigos, a familia, comer as comidas de que se gosta, tem a delícia de se poder digitar os acentos sem complicações ao escrever esse texto e de ouvir o sotaque de minha terra com o ouvido fesquinho. De repente, consigo perceber do que as pessoas falam quando falam do sotaque baiano e quer saber de uma? É cantado, é engraçado e é lindo, viu...

Faz tempo que havia uma propaganda de uma emissora de TV aqui na Bahia, falando das coisas boas do estado e que finalizava dizendo "isso só se vê na Bahia" e de fato tem coisas que só se vê e vive aqui mesmo. Quer um exemplo? outro dia liguei pra um banco porque precisava resolver uma situação, e o diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

BANCO: Banco tal e tal Andea, boa tarde.
EU: Boa tarde Andrea, preciso resolver isso isso e isso, é ai com vocês mesmo?
BANCO: É sim, qual o nome da senhora?
EU: É Cristiane.
BANCO: Aguarda só um minutinho Cris, que eu vou resolver.

Aqui na Bahia em menos de cinco minutos a funcionária de um banco já estava me tratando por um apelido carinhoso. Depois de tanto tempo de Alemanha, foi gostoso me relembrar de como nosso povo não aguenta formalidade por muito tempo e transforma tudo em "inho". Devagar vira devagarinho, um pouco vira um pouquinho e mãe vira mainha. A funcionária do banco ter me chamado de Cris, nao significa que ela estava tomando liberdades ou "ozadia", como a gente diz aqui. Significa simplesmente que ela deve achar que pra meus amigos e família eu sou mesmo é Crisinha e Cris só é uma consequência natural do nome Cristiane e ela tem razão. Aqui em Salvador eu sou Cris oficialmente e tenho uma série de nominhos bonitinhos pra meus amigos e minha família. Só agora sinto o quanto estava sentindo falta dessa versão mais suave e menorzinha de mim.