domingo, 29 de janeiro de 2012

Brasileiros vs Brasileiros

Uma das coisas que eu mais amo em Bremen são meus amigos. Fiz tantos amigos novos aqui que hoje em dia fica muito difícil pra mim imaginar uma vida sem essa cidade e sem essas pessoas maravilhosas. No meio desse grupo fantástico de novos amigos, tenho de destacar minhas amigas brasileiras. Elas são sem dúvida nenhuma minha família substituta aqui tão longe de casa. Me considero uma pessoa de muita sorte, porque além de ter essas amigas especiais, tive o prazer de conhecer muita gente boa de vários cantos do Brasil e com isso, descobrir melhor minha própria cultura. Hoje me envergonho ao perceber que sei tão pouco sobre o Norte do país, me divirto muito com as nossa diferenças linguísticas e cada encontro com essa brasileirada do bem além de terapêutico é um delicioso aprendizado.

Mas infelizmente nem tudo é cor de rosa e bonitinho com meu conterrâneos. Pra cada brasileiro gente boa que encontrei por aqui, já tive também o desprazer de conhecer pelo menos um outro que me fez hesitar pra dizer que também era brasileira. Na boa, alguns de meus compatriotas aqui me chocam de uma forma que eu chego a ficar sem palavras.

Tem por exemplo os que só fazem reclamar da Alemanha. E de forma bem mal educada e pouco reflexiva. Para esses aí, os alemães são todos iguais, todos frios, todos distantes, grossos etc. Esses não esperam nem os alemães darem as costas pra falar mal deles. Tá tudo bem, os costumes são muitas vezes muito diferentes, mas onde está a cortesia? O tentar se adaptar? E os nossos próprios mau costumes? Não concordo com a teoria dos incomodados que se mudem, nem com a de que se está na terra dos outros tem mais é que abaixar a cabeça e se enquadrar. O ser humano ter direito de ficar ou não onde quiser e demonstrar insatisfação com o mundo ao seu redor não precisa ser uma coisa ruim. Afinal de contas as grandes e importantes mudanças muitas vezes começam à partir do  momento que um grupo de pessoas demonstra sua insatisfação com algo. Mas tem muito brasileiro aqui que reclama e fala mal da Alemanha por simples falta de assunto. Pra esses aí eu sugiro assistir o jornal, ler um livro, comprar uma revista. O mundo está cheio de assunto interessante pra ser discutido.

Ainda piores do que os brasileiros reclamões, tem aqueles que julgam e discriminam o próprio povo. Donos de cabecinhas menores do que as de alfinete, esses contribuem para que as babaquices ideológicas que emporcalham nossa sociedade sejam exportadas e multiplicadas internacionalmente. Por exemplo, uma vez um certo cidadão universitário, proviniente de uma família de classse média do Recife, ou seja, o cara do qual se espera um certo nível intelectual e acesso a outros mundos que não só o próprio,  me saiu com o seguinte comentário depos de ter acabado de me conhecer e batido o maior papo comigo em uma festa: “É interessante vez que uma pessoa assim como você é professora e inteligente. Aqui na Alemanha, as brasileiras assim como você no geral são empregadas domésticas ou dançarinas de samba”. Olha, pra falar a verdade, nem sei se entendi o que o cabra quis dizer. O que será que ele entende por “pessoas assim como você”. Será que ele quis dizer “negra”, "nordestina"? Mas nordestino ele também é. Não posso imaginar que ele estava atacando a si mesmo. Seja o que for que ele tenha querido dizer com isso, alguma coisa sobre mim, deduzo que na minha aparência, já que além disso ele não sabia mais nada, deu a ele a impressão de que eu não poderia ser nem professora, nem inteligente. E qual o problema em ser empregada doméstica ou sambista? Também não dá pra ser inteligente e exercer essas profissões, é  assim que é pra entender?

Na hora minha reação foi ficar muda processando o que eu ouvi. Tomei mais uma cerveja, depois fui pra casa dormir, acordei no dia seguinte ainda meio perplexa e ainda sem compreender. Hoje em dia acho somente que o comentário dele, apesar de tão breve, mostrou ao mesmo tempo um pensamento elitário, arrogante e racista. Nunca mais me bati com esse sujeito, graças a deus, mas infelizmente sei que como ele, tem milhares de brasileiros que vem pra cá espalhar essas idéias discriminantes e burgesinhas. Triste, mas é verdade...

E tem os espertinhos que querem tirar vantagem de absolutamente tudo, os arrogantes que confundem o racismo cordial com uma coisa boa e ficam se achando a última coca-cola do deserto, os sulistas que te olham de cima abaixo ou que simplesmente param de falar diretamente com você quando descobrem que você é nordestino e os que não sabem de absolutamente nada sobre o Brasil além do último hit do verão, mas que mesmo assim não calam a boca quando deveriam e dão informação errada por aí por pura ignorância. 

Dá vontade de dizer pra essa turma: galera, aproveitem que informação e educação aqui ainda não é privilégio e vão ler, vão estudar, vão se educar pra vida! Parem de dar tanta importância à besteira e vão procurar ampliar suas visões de mundo. Pelo bem da sociedade, utilizem de forma produtiva essa oportunidade que estão tendo!!!! Mas na maioria das vezes não consigo ou não dá mesmo pra dizer nada. Me sinto esgotada com o sentimento de que a ignorância por opção é um mal sem limites. Nessas horas só me resta sacudir a cabeça de forma exasperada e dizer pra mim mesma: “assim vocês me matam” só que de vergonha mesmo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Racismo Cordial


Enquanto ainda estava tentando definir um tema pra minha monografia, me deparei com muitos textos e teorias interessantes, que me ofereceram um verdadeira reeducação pra vida. Uma delas foi a teoria de que existe uma coisa chamada de Racismo Positivo Cordial. Apesar de ainda questionar a terminologia, eu concordo que, por mais estranho que pareça, a coisa em si de fato existe.

É difícil definir o racismo em termos absolutos. Esse fenômeno tem tantas formas de se manifestar que muitas vezes nem dá pra saber direito se alguma coisa é de fato racismo ou não, e nessa brincadeira se vacilar a gente corre o risco de pirar e virar paranóico. The Big Bang Theory, série de TV que eu adoro, tem umas cenas hilárias que brincam com essa noção. Por exemplo, no nono episódio da quarta temporada (The Boyfriend Complexity) rola o seguinte diálogo (no qual Raj, um dos personagens, é indiano) que eu traduzi mais ou menos assim:

Sheldon: Você tem certeza que tem quadrinhos o suficiente? Você vai monitorar o telescópio por doze horas e pela minha estimativa, você só selecionou sete horas de material de leitura. E isso considerando sua dificuldade em processar expressões de quadrinhos americanos como “bamf” e “snif”.

Raj: Isso foi racista? Eu senti como se fosse racismo...

Howard: Não seja super sensível. Ele está chamando VOCÊ de analfabeto e não a sua raça.

Raj: Ah, tá. Tudo bem.

Bem, há quem ache que Sheldon foi sim racista, há quem ache que a série inteira é meio racista também e há pessoas que acham que tudo não passa de uma brincadeira. Eu acredito que quando o ser humano se envolve pessoalmente com determinada causa ele acha formas de defendê-la, por isso muitas vezes a mesma situação pode ser percebida como discriminatória por uns e inofensiva por outros. Como diz Marisa Monte em uma de suas músicas “a dor é de quem tem”. (Obrigada por me lembrar, Anginha!!). Essa discussão do ser ou não ser racismo, foi um dos pontos de partida pra teoria de que existe o tal racismo positivo cordial. 

No post anterior eu falei que aqui na Alemanha determinadas culturas são constantes vítimas de associações negativas enquanto outras são adoradas. A impressão que eu tenho é que o estrangeiro aqui sempre recebe logo um carimbo estigmatizante seja positivo ou negativo. Polonês é ladrão, turco bate na irmã, russo é mafioso e russas são piranhas. Os espanhóis vivem dançando e falando alto, italiano é incompetente no trabalho, mas sabe viver que é uma beleza, suecos são exemplo de moral e brasileiro é tudo de bom. Acho que nós somos os mais amados dos estrangeiros aqui na Alemanha. Também, como não amar um povo sexy, de corpo esculpido que se veste como se houvesse um eterno racionamento de tecido, que vive curtindo praia e que é mestre na arte de dançar, cantar e golear?

O único problema é que enquanto a gente fica se achando, pensando que isso é uma beleza e que somos as últimas bolachinhas do pacote, a gente acaba se cegando pro fato de que essa adoração pode ser bastante limitante. Afinal de contas, como levar um povo desse à sério? Antes mesmo de conhecer a teoria do Racismo Positivo Cordial senti rapidinho na pele o seu poder destrutivo. Ao chegar aqui, ficava cansada de ter de explicar e convencer pessoas que ser brasileira e ser uma profissional competente e séria não eram necessariamente qualidades excludentes. Era também muito difícil de fazer certas pessoas entenderem como era possível que eu fosse brasileira e ensinasse inglês e não português, que eu não desse a mínima pra futebol, que não achava o frio ruim, que não chorava todo dia de saudades de minha terra, minhas praias, etc. Me poupe, né? sinto saudades de minha terra sim, mas quem não sente? o fato de ser brasileira não me obriga a viver num eterno banzo.

Como o texto trata exatamente sobre os perigos dos esteriótipos, quero deixar bem claro rapidinho, que nem todo alemão pensa assim. Aqui, como em qualquer outro país, tem pessoas preconceituosas e pessoas que sabem que somos todos diferentes porém iguais. Infelizmente em questões culturais a gente tende a querer colocar a maior quantidade de gente possível em um mesmo saco, mas o importante é constantemente refletir sobre nossas atitudes e nossos padrões de pensamento. 

Eu tive muita experiência aqui na qual pessoas tentavam me carimbar com todo cliché de brasileiro que existe, mas também tive muita experiência genuinamente positiva, na qual fui vista e tratada apenas como um ser humano e pronto. No final das contas todas essas experiências, todas as leituras sobre a questão do racismo negativo ou positivo cordial, me levaram a questionar a minha própria forma de olhar para as pessoas. Hoje em dia, me vigio pra não cair na armadilha de atribuir suas características boas ou ruins às suas nacionalidades. Não é fácil, viu. Mas pro bem de um mundo mais igualitário, esse esforço individual com certeza vale à pena.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Racismo


Hoje cliquei num link de uma estória compartilhada por Lubi no Facebook e depois de ler o texto fiquei bem pensativa. Desde que comecei esse blog, já iniciei pelo menos uns 5 textos abordando o nebuloso tema do racismo, mas nunca tinha conseguido concluir nenhum. Fiquei pensando por que será que é tão difícil pra mim escrever sobre esse tema. Bem, acho que o principal motivo é mesmo porque esse assunto é muito complexo, tão complexo que não me sinto capaz de discutir isso em um só post e segundo porque é um tema que me toca de forma muito pessoal e sendo assim, acho que nem conseguiria escrever algo que fizesse sentido pra quem não teve as mesmas experiências que eu já tive com esse tema.

Nos últimos meses, parece que o racismo anda me seguindo. Nos jornais, nos blogs que eu leio, na escola e até nos textos do mestrado sempre me deparo com alguma coisa que aborda essa praga. Parece até provocação, uma espécie de conspiração pra eu tomar coragem e dizer o que eu penso sobre esse assunto, nem que para isso eu precise de muitos posts e muita paciência. Aceito o desafio, então vamos lá!

Infelizmente já fui vítima de racismo tanto no Brasil quanto aqui na Alemanha e acho que nesses dois países as situações e as vítimas variam, mas ele existe e se manisfesta de forma parecida. Sei que muita gente vai discordar, (e acho bom, assim a gente discute e cresce com a discussão) mas eu explico. Uma situação como a que foi descrita no blog de Luis Nassif à que me referi acima, dificilmente aconteceria aqui. Aqui cliente é cliente e enquanto ele se comportar de forma condizente às regras do local, poderá permanecer ali independentemente do que estiver vestindo ou da cor de sua pele. 

Essa estórias que a gente cansa de ouvir do Brasil que um afro descendente entra em uma loja e nenhuma pessoa vem atender enquanto dez vendedoras circulam em volta de uma pessoa branca, não tem como acontecer aqui. As lojas e os vendedores são bem treinados pra só fazer distinção entre as cores das cédulas de euros.  Até mesmo porque, aqui as pessoas entendem que coisas como cor da pele ou como se está vestido no momento, não necessariamente reflete quanto dinheiro a pessoa tem à disposição pra gastar naquela determinada situação. As pessoas responsáveis por atendimento, podem até ser racistas, mas no geral no horário de trabalho, elas guardam esse tipo de pensamento pra elas mesmas e se comportam de forma profissional. O que eu já considero um grande favor à sociedade.

No Brasil a vitima mas frequente do racismo é sem dúvida nenhuma o afro descendente, aqui é o estrangeiro. A cor da pele em si não serve como um fator imediato de discriminação e sim a origem. Tem países que são adorados e outros que frequentemente são associados ao que não presta. Turcos, árabes, boa parte dos africanos e dos europeus do leste passam pelos mesmas situações desagradáveis que os afro descendentes no Brasil. O brasileiro aqui faz parte do grupo dos adorados. Mal sabem eles que essa adoração pode ser prejudicial também. Mas isso são cenas do próximo capítulo.

Essa são as diferenças que eu observo. No entanto, tanto no Brasil como aqui na Alemanha eu percebo que as pessoas no geral se envergonham do racismo. Tanto do seu próprio como do dos outros. Nesses dois países existe a tentativa de livrar a sociedade desse equívoco cultural. Se percebe um esforço social e pessoal de ser politicamente correto, de ser aberto e democrático e tanto lá quanto aqui existem leis anti racismo. No entanto esse fenômeno é tão velho quanto o mundo e por algum motivo o ser humano sente necessidade de distinguir, separar, classificar. A gente faz isso com tudo e inevitavelmente também com pessoas. Por isso, o fato de existir o desejo de muitas pessoas de acabar com o racismo, não significa que ele de fato está acabando. Por isso muitos alemães e brasileiros de coração bom e muito bem intencionados de vez em quando falam coisas tipo “ele é turco mas é muito bem educado”, “ela é negra mas é linda”, “Eu não sou racista, eu tenho um monte de amigo negro”, “um grande amigo meu é estrangeiro”. Só sente necessidade de dar esse tipo de esclarecimento, quem tem umas idéias meio contraditórias na cabeça. Infelizmente essas formas sutis de discriminar são mais presentes em nossa sociedade do que a gente se dá ao trabalho de perceber. 

Felizmente existe um remédio contra isso. Em primeiro lugar, parar de negar que o problema existe. Racismo existe sim, em toda parte do globo, e é um bicho feio, ilógico e destrutivo. O segundo passo é decidir o que fazer para combater esse mal. Na minha opinião, o que cada um de nós pode fazer é na verdade muito simples: procurar constantemente se informar e exercitar a auto-reflexão. Associado a isso, procurar dar uma limpada no vocabulário também. Antes que meus conterrâneos se chateiem comigo,não estou me referindo às manifestações de carinho que fazem parte, por exemplo, da baianidade, tipo quando alguém diz “ô nega, me faça um favor”, mesmo quando a pessoa pra quem se pediu o favor é loura de olhos azuis, mas a essas retratações de discurso que a gente já tem no automático, tipo “eu não tenho nada contra negro, estrangeiro, pobre, etc, mas...” Tá entendendo o que eu quero dizer? Se não tem nada contra, pra que a nota de esclarecimento antes do discurso?

domingo, 1 de janeiro de 2012


domingo, 27 de novembro de 2011

Só os alemães são felizes


Vocês não vão acreditar no que me aconteceu na última vez que eu fui ao Departamento de Imigração daqui.  Tá com tempo? Deixa eu contar, então. Depois de receber um visto permanente aqui na Alemanha, você ganha um adesivo em uma das páginas de seu passaporte. À partir de 01 de setembro desde ano, o departamento de imigração passou a adotar um outro formato pra isso. Ao invés do adesivo, a gente recebe um negócio do tamanho de um cartão de crédito, parecidíssimo com a carteira de identidade alemã.

Mas cedo ou mais tarde, todo mundo vai ter de ter essa coisa, por isso resolvi adiantar logo meu lado e fazer esse cartão. Pra isso tive de ir à ante-sala do inferno. Quer dizer, ao Ausländeramt (Departamento de Imigração). Me espantei quando cheguei lá, recebi uma senha e dei entrada na minha nova identidade sem ter que esperar uma manhã inteira e sem ter sido tratada como marginal. Agradeci ao universo, elogiei a funcionária numa tentativa de oferecer reforço positivo para esse novo tipo de comportamento e encorajar o bom atendimento. Mal sabia eu que estava me precipitando em ser tão generosa em meus elogios. 

Duas semanas depois, recebo uma carta deles me informando que a identidade estava pronta e que eu deveria ligar, marcando um horário pra retirá-la. Fantástico! Comecei a achar que realmente a política de Bremen estava começando a perceber o quanto era importante investir no bem estar de seus cidadãos independentemente de suas origens, afinal de contas a cor dos olhos e das peles podem até variar, mas as cores das notas dos euros pagos em impostos dos alemães e dos estrangeiros são iguais. Durante dois dias seguidos tento entrar em contato com eles pra marcar um dia pra pegar o documento. Dois dias de ligações constantes e obstinadas em horários diferentes do dia e nada. Ninguém nem se dava ao trabalho de atender o telefone. Nem uma gravação mandando aguardar, nem uma caixa postal na qual eu pudesse deixar um recado. Resolvi acordar cedinho no dia seguinte e ir lá. Esse departamento abre as 8:00 da manhã, meia hora depois estava lá. Poucas pessoas na sala de espera, “cheguei em boa hora”, pensei animadinha. Minha animação foi logo, logo substituida por horror, quando o funcionário que entrega as senhas de atendimento me informou que as senhas pra aquele dia tinham acabado e que eu deveria voltar no dia seguinte às 6:30 da manhã. 

“É o que? Pirou o cabeção, foi?” foi o que pensei. Se vocês sabem com as coisas funcionam aqui na Alemanha, vão entender o porquê de minha reação. Os alemães são conhecidos na Europa inteira por serem eficientes, confiáveis, trabalhadores sem serem obsessivos, mas cumpridores  de suas obrigações e implacáveis seguidores da ordem. Essa coisa de ir pra fila de madrugada, acampar na frente do prédio pra pegar ficha é coisa impensável por aqui. Afinal de contas se existe uma forma eficiente de se resolver um problema, os alemães com certeza já a estão usando, acreditem. E resolver o problema de muita gente querendo ser atendida é muito fácil. Tudo quanto é de serviço que você precise, toda informação que você desejar obter, qualquer problema que você possa imaginar, pode ser solucionado aqui por telefone, por e mail ou marcando um horário. Você chega na sua hora, é super bem atendido e nem fica estressado nem estressa ninguém.

É, mas isso não se aplica ao Ausländeramt. Lá o que se observa é que não há uma preocupação tão grande em se oferecer serviços de qualidade, como se os usuários desses serviços não compensassem o trabalho e verba que eles teriam de investir para otimizar o atendimento. O departamento de imigração aqui tem poucos funcionários, a maioria mal humorada e completamente despreparada pra lidar com pessoas diferentes deles. Quase ninguém fala inglês e se fala, finge que não fala. Por isso o que se observa lá é de arrepiar os cabelos. E não deu outra. Tive de engolir esse sapo e voltar no dia seguinte às 6:30 só pra ser informada que, outra vez, eles não tinham mais senha. Como geralmente aqui na Alemanha reclamações são levadas à sério e normalmente todo aquele que oferece alguma espécie de serviço se preocupa com o que a opinião pública pensa sobre eles, resolvi manter a calma e dizer “Ok, eu quero então registar uma reclamação formal.”

Só que eu mais uma vez eu tinha me esquecido que eu estava no Ausländeramt, onde as regras de respeito com o cidadão e preocupação com qualidade de atendimento não se aplicam. Aparentemente eles não estão nem aí pro que o público possa pensar deles. Esse descaso é generalizado e vai desde a mulher da portaria, que bloqueiou meu acesso à sala de espera e disse que se eu quisesse reclamar ia ter de esperar até às 8 horas, quando os funcionários chegassem, que não sabia se eu iria ser chamada pra colocar minha reclamação e que se eu quisesse esperar, ela pouco se importaria se eu esperasse sentada ali (e apontou pro chão em frente a sala de espera), até à supervisora do departamento, que me deixou esperando até 11 horas da manhã pra ouvir minha reclamação e não a ouviu. No final das contas, quando ela estaria pronta pra me receber, ouvi o rapaz da portaria fazendo uma ligação pra alguém, no qual ele dizia que eu ainda estava ali e finalmente, quando fui chamada achando que ia poder falar com ela, fui encaminhada a uma sala na qual minha carteirinha me foi entregue e depois o funcionário da portaria me sugeriu que já que eu tinha pego meu documento, deveria deixar a reclamação pra lá.

Quer dizer, como estrangeira, eu não tenho direito de reclamar se um serviço não me agrada, é isso? Devo me dar por satisfeita de ser tratada como persona non grata e ser dispensada como uma criança impertinente para a qual se dá um doce pra ela parar de chorar e não encher a paciência? É assim? Ahhhh, isso é que vamos ver! Eles mexeram com a estrangeira errada! Sorri - incrivelmente ainda consegui fazer isso apesar da raiva, da fome e da sede- e saí dali elaborando meu plano de ação.

Cheguei em casa e contei a situação a meu marido, que ligou pra central geral de atendimento dessa instituição (que é como uma central de atendimento ao cidadão com vários departamentos do governo como Detran, secretaria de segurança pública etc, tipo o SAC em Salvador) e perguntou como ele poderia fazer uma reclamação formal contra o departamento de imigração. Me chame de paranóica quem quiser, mas o som de uma voz falando alemão sem sotaque estrangeiro, deu acesso a uma informação, que eu não pude ter pela manhã: a reclamação poderia ser feita por email diretamente à supervisora. Conseguimos nome, email e até o telefone da criatura sem maiores problemas. Meu marido escreveu uma carta e eu escrevi outra. Nenhuma resposta depois de semanas. Conversei com o repórter de um jornal de grande circulação aqui e um artigo foi publicado sobre isso. Ele descobriu que a supervisora desse departamento pediu demissão, porque estava tendo brigas constantes com o estado por causa da questão de falta de pessoal. O porta voz deles explicou que eles estão em fase de mudança de sistema e estão tentando solucionar o problema do número insuficiente de funcionários. Eu consigo traduzir isso de duas formas diferentes em bom português: “lenga, lenga, lenga, lenga” e  “Tô nem aí, tô nem aí...” Quer saber de uma? O melhor que eu tenho a fazer é virar alemã.

Ass. Christianne Heiligen

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Teste de otimismo

Quando vim pra Alemanha pela primeira vez, não tinha grandes expectativas nem pra mais nem pra menos. Conhecia os fatos históricos e geográficos que todo mundo conhece e era só isso mesmo. Depois de meu primeiro ano vivendo aqui, voltei ao Brasil pra visitar minha família e a pergunta que mais tive de responder foi “Cris, como é essa coisa do racismo por lá?” Essa pergunta dá pano pra manga, viu…

Primeiro porque com ela fica logo muito claro que os alemães se enganam completamente quando acham que sabem o que o mundo pensa deles. Meus amigos alemães se chateiam porque acham que a primeira imagem que o mundo associa à Alemanha, é sempre a da Oktoberfest na Bavária, quando na verdade, pelo menos no Brasil a primeira coisa que vem à cabeça é mesmo Hitler e o massacre aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Acho uma pena isso de verdade. Os alemães que vivem aqui hoje não foram responsáveis pelos erros do passado, que aconteceram aqui nesse território. O que aconteceu aqui poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo, mas os pobres coitados tem de viver com isso até hoje. É pesado. E de forma injusta, porque pra falar bem a verdade, e aproveitando pra mais uma vez responder à pergunta que me foi feita inúmeras vezes, eu tenho mais episódios de racismo e descriminação pra contar de Salvador do que daqui. Sinceramente, a maioria dos alemães nascidos aqui ou não (1), que eu conheci até então foram sempre pessoas muito agradáveis que se não podiam ajudar, também não atrapalhavam ou que realmente fizeram questão de me fazer sentir em casa na terra deles. Infelizmente muitos deles não vão poder ler esse post, mas a todas essas pessoas que cruzaram meu caminho por aqui, tendo elas virado minhas amigas ou não, vielen herlichen Dank(2) por terem me acolhido tão bem. 

Claro que aqui tem racismo e preconceito de todos os tipos também. Ultimamente a mídia aqui não para de divulgar casos de grupos nacional-extremistas, ativos em todo o país, atacando estrangeiros e seguidores do islamismo. Não descarto a possibilidade de escrever um post sobre isso no futuro, mas sinceramente: grupos de malucos terroristas com ideologia estranha que resolvem usar de violência contra os outros não é exclusividade daqui. Não acho que seja um problema cultural e sim um problema psiquiátrico e educacional que algumas pessoas tem. Ou seja, os alemães que uma pessoa normalmente encontra ao vir pra cá no dia a dia, são pessoas comuns que podem sem chatas ou divertidas, sinceras ou falsas, inteligentes ou limitadinhas,  super internacionais ou que vivem agarradas à suas origens, ou seja, pessoas especiais em alguns aspectos e normalíssimas em outros iguaizinhas a mim ou a você. Os alemães que eu encontro por aqui diariamente sorriem para mim quando nossos olhares se cruzam, me cumprimentam com educação e nunca me fazem duvidar que Bremen é minha casa.

Mas quero deixar bem claro que quando falo dessas pessoas, não me refiro de maneira alguma nem ao governo alemão, nem aos seus burocratas e suas repartições públicas. O departamento responsável pelos estrangeiros aqui em Bremen, sempre fez um excelente trabalho em me fazer sentir indesejada, diferente, estranha e estrangeira, como um ser inferior em uma das maiores potências mundiais. Triste, mas é verdade. Amo Bremen, minha vida aqui, meus amigos aqui, os alunos e colegas da escola onde trabalho. Mas toda vez que vou ao famigerado Ausländeramt (3), fico com vontade de ir correndo pra o aeroporto e voltar imediatamente pro Brasil, chorando pro colo de meus pais. Essas idas à essa repartição são tão desgastantes e humilhantes que são capazes de fazer explodir qualquer bolha de otimismo e de forçar qualquer um não só a tirar como também pisar e esmagar seus óculos rosinha e vermelhos (4). Felizmente as visitas a essa filial do inferno não precisam ser longas nem frequentes, mas são suficientes para destruir o bom humor de qualquer um e pra fazer qualquer pessoa duvidar que a humanidade é capaz de fazer o bem. E esse sentimento pode durar semanas. Queria ver se Pollyanna seria a mesma depois de passar por eles. Duvido.
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(1) Tem muita gente que nasceu aqui, mas que não se considera alemão de jeito nenhum. 

(2) Muito obrigada do fundo do coração.

(3)Departamento do imigração.

(4) Fiz uma brincadeira com a expressão idiomática da língua alemã "rosarote Brille tragen". Usar óculos rosa-vermelho é a tradução literal e bizonha. Essa expressão significa que a pessoa não vê a realidade como ela de fato é, e sim como se tudo fosse muito melhor e positivo. Enfim, tudo rosinha ou vermelhinho como nos óculos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Criança Feliz

Tudo me lembra criança esse mês.  Não por causa do celebrado dia delas, até porque pelas bandas de cá isso não existe. Tudo me faz pensar em criança no momento porque revi meus afilhados, que estão lindos e enormes e porque K, minha maravilhosa girlfriend, está curtindo uma gravidez planejadíssima e super desejada.

Mas ser criança aqui na Alemanha também é um assunto legal de futucar pra descobrir as semelhanças e diferenças entre culturas. A maior delas, eu acho que é o fato de que no Brasil, a criança é mais celebrada do que aqui. Além de um dia pra se comprar presentes para elas, existe uma acordo tácito de que é proibido não gostar de criança. Aqui não só tem muita gente que não gosta como também tem os que se sentem super à vontade pra dizer isso em qualquer lugar sem nenhum constrangimento. Uma declaração do tipo "Não quero nunca ter filhos" que horroriza muita gente no Brasil e inicia calorosos debates sobre as maravilhas da maternidade, é tratada com muita naturalidade por aqui. Tem um monte de gente casada ha milênios que resolve não ter filhos e não tem mesmo. Normal.

A Alemanha é famosa por ser um país bem velho e talvéz essa escassez de criança seja uma das razões pelas quais as pessoas aqui são menos tolerantes do que no Brasil com os pequenos. É raro se ver gente fazendo bilúbilú pra um bebê qualquer que não conhece. Uma mãe empurrando um carrinho de bebê, segurando uma outra criança pela mão e carregando um saco de compras, nem sempre desperta nas pessoas o desejo de levantar e oferecer o lugar no ônibus. Na verdade, eu diria que não desperta nenhum tipo de sentimento. Aqui os corretores listam como desvantagem o fato de um imóvel estar localizado muito próximo a uma escola. Muito barulho; é como justificam a desvalorização. Tem lugares que aceitam animais, mas não aceitam crianças, muita gente se incomoda com elas em restaurante, no mesmo andar do hotel, com os papos de pai e mãe contando estórias sobre seus filhos. E elas literalmente desaparecem das ruas depois das 18:00 horas. Sério mesmo: há oito anos estou aqui e vi somente uma única vez, um casal com um carrinho de bebê na rua depois das 18:00. Eram 20:00 horas e todo mundo que passava por eles lançava uns olhares fulminantes de condenação.

Talvéz por isso, muita gente acaba se isolando do mundo depois que tem filho. É uma faca de dois gumes: Por aqui é muito mais comum achar gente que muda de personalidade depois de ter filho. Muita gente fica chata e sem assunto nenhum que não seja relacionado a bebê. Mas por outro lado o fato de que nem a sociedade é muito receptiva e nem os amigos dão muita chance às pessoas socializarem com seus filhos junto, torna as coisas mais complicadas pros pais.

Em termos de educação é que eu acho muito legal o que eu vejo por aqui. As crianças alemães são muito mais independentes do que as brasileiras. Ainda bem pequenininhas, elas andam ao lado de suas mães sem necessidade de dar a mão. Muitas vezes elas vão é de bicicleta mesmo, as mães na frente e elas atrás como patinhos seguindo a mamãe pata. Elas são educadas desde cedo a serem bem independentes, questionadoras e decididas. Desde cedo elas escolhem as próprias roupas, ganham mesada pra saber administrar seu dinheirinho e são estimuladas a assumir pequenas tarefas em casa muito antes dos brasileirinhos. Marcus, meu afilhadinho quando tinha 4 aninhos, passou um fim de semana aqui em casa e nessa ocasião, me surpreendia por minuto. Sua pouca idade não o impediu de arrumar sua própria bagunça sem eu ter de mandar, me dizer exatamente quais as comidas que gostava e não gostava, o que ele queria assistir antes de dormir, o que ele queria do supermercado (somente um suquinho e um biscoito - quando eu tinha dado opção ilimitada) e quando eu peguei um chapéu qualquer pra ele colocar porque estava frio lá fora, ele disse que queria o outro porque era mais "cool". 
  
Tenho vários amigos que tem filhos e entre eles sinto uma tendência mais flexível do que a do resto das pessoas aqui. Sinto que meus amigos conseguem aproveitar o melhor que a cultura alemã oferece em termos de educação para seus filhos, mas ainda assim mantém a cabeça aberta e a vida tão flexível quanto o dia a dia com as crianças permite. Esse equilíbrio dos melhores aspectos de duas culturas tem resultados maravilhosos, como é o caso de Stela e Shi duas amigas maravilhosas que são dois dos melhores exemplos de mães que eu conheço. Conseguem curtir a vida, os amigos e os filhos numa boa. Conseguem os educarem dentro das espectativas alemães, mas deixando as nóias e a rigidez de lado. Comigo o que percebo é que continuo a gostar e me dar bem com crianças, mas depois de minha experiência ensinando em uma escola pública aqui, resolvi me aposentar de lidar com elas profissionalmente. Mas esse é um assunto complexo que prometo contar em outro post.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

79 dias


Minha estadia no Brasil esse ano chegou ao fim. Foram muitas alegrias, muitas cervejas, muitas farras, muitos encontros com amigos, muitas comidas deliciosas, muitos quilinhos a mais. Alguns aborrecimentos também, né? Fazer o quê? Assim é a vida. Mas quer saber? Foram 79 dias genuinamente felizes. Feliz pela certeza de que muitas pessoas amadas poderiam ser alcançadas com apenas uma ligação local. Feliz de poder estar perto, beijar, abraçar e ouvir suas vozes enquanto olhava em seus olhos.

Esse tempo maravilhoso, passou super rápido e tão devagar ao mesmo tempo. Curti meus dias aqui ao mesmo tempo que senti uma saudade enorme de minhas pessoas queridas em Bremen. Queria que o dia de voltar nunca chegasse ao mesmo tempo que contava os dias pra ele chegar. Foi uma espécie de “foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos.” Coisas de ser humano que sempre fica querendo o que não tem. 

Só pra pra deixar bem claro: eu amei meus quase três meses de Brasil. Cada minuto com meus amigos  foi especial Mas agora quero mesmo é cantar igual a Chico com pequenas adaptações: pode ir preparando aquele Kohl und Pinkel, coloca uma Weizen pra gelar porque eu estou voltando!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Para Lubi, meu irmão.


Lembro que quando eu era criança tudo o que mais queria nessa vida era ter um irmãozinho. Aliás, um irmãozinho, não. O que eu queria era um irmãozão. Nas minhas fantasias de criança, o irmão que me fazia falta nunca era um bebê chorão menor do que eu e sim um menino que seria sempre um pouquinho mais que eu: mais velho, mais sábio, mais popular, mais conhecido. Muito estranho isso, mas quando criança eu trocaria, sem hesitar, qualquer situação em que eu fosse o centro das atenções pela chance de poder dizer: “O quê? Você conhece fulaninho? Ele é meu irmão.” Eu desejava aquilo com tamanha intensidade que minha cabecinha avoada de criança nem se tocava do óbvio que era a impossibilidade daquele sonho. Eu já estava aqui no mundo, ter um irmão mais velho só poderia virar realidade em outra vida.

O tempo foi passando e com ele aquela fantasia foi dando lugar a outras. Agora queria era passar no vestibular, conseguir juntar dinheiro pra fazer um intercâmbio, comprar um carro, arrumar um namorado legal, comprar uma casa, conseguir aquele emprego bala, ganhar na loto, ter uma ilha. À medida que a gente vai crescendo, nossos sonhos vão ficando mais materiais, mais práticos e comigo não foi diferente. Uns sonhos foram se realizando rápido, outros de forma mais trabalhosa e outros foram mudando ou terminaram sendo completamente substituidos. No geral, me considero uma pessoa de sorte por quase sempre conseguir alcançar minhas metas, meus objetivos.
Mas realizar sonhos leva tempo e dá trabalho. Por isso eu estudei muito, troquei de universidade, trabalhei aqui e acolá, trabalhei por merreca, fiz amigos, perdi amigos, fiz cursos, viajei, galinhei bastante - porque ninguém é de ferro -, me apaixonei, chorei, dei muita risada, caí, levantei, quis mandar tudo pra puta que pariu, virei zen, fiz yoga, perdi a paciência, a recuperei e, durante todo esse tempo (mais ou menos a partir do momento em que eu comecei a deixar de lado o desejo de ter um irmão mais velho para dar preferência a outras fantasias), uma pessoa esteve presente acompanhando tudo isso. Olhando pra trás, lembro exatamente do nosso primeiro contato: eu estava anotando alguma coisa num caderno, apoiado na minha mão, de pé, em frente à sala de aula, antes de o professor chegar. Ele estava encostado na parede, bem ao lado do papel que eu queria ler. Tentei ignorar sua presença, mas ele não é o tipo de pessoa que alguém consiga ou queira ignorar. Era um adolescente lindo, alto, com cabelos longos e brilhantes de dar inveja a qualquer menina, seus olhos eram super meigos, era muito, mas muito charmoso mesmo e como era cheiroso! Simpático como ele só, começou a brincar comigo, tentando me atrapalhar com minhas notas. Dei risada e senti meu coração se aquecer. Mal sabia eu que meu sonho de menina estava se realizando. Naquele exato instante, estava nascendo para mim meu irmão mais velho.Desde então, Lubi, meu irmão esteve presente em minha vida em todos os momentos. Nas fases ruins ele me ouve, aconselha, oferece outra perspectiva da situação. Quando eu passo dos limites, meu irmão me dá umas chamadas pra real também. Coisas de irmão mais velho. 

domingo, 4 de setembro de 2011

Choque musical


Quem disse que é preciso sair do próprio país pra se ter um choque cultural? Recentemente tive o prazer de vistar a Cidade Maravilhosa com a minha família e tive algumas experiências interessantes. A que eu quero relatar aqui hoje é de ordem musical. Quando estavamos no Rio, tivemos o prazer de conhecer pessoas muito legais que nos ofereceram experiências maravilhosas naquela cidade espetacular (um grande abraço pra Norma e Seu Raimundinho e Lena. Cláudia, valeu por nos ter apresentado!!). Eu disse que tinha curiosidade de ver um Baile Funk e Lena, mais do que depressa arrumou um pra gente ir. Ela contou que ia ter um show de pagode e que nos intervalos e no final do show rolava o funk.

Quando ela falou em pagode, imaginei algo assim como “Foge, foge Mulher Maravilha, foge,foge com o Superman”. Baixaria pura, foi o que pensei, mas como minha filosofia de vida é “se foi pro funk, vá descendo até o chão”, coloquei minha roupa de piriguete e me juntei à galera pra ir pro baile. Chegando lá, não me deixei incomodar pelo fato de o nosso grupo ser prehistórico em comparação com os adolescentes que estavam lá. Fui chegando e chacoalhando meu esqueleto. Meu primeiro contato com o mundo funk carioca me deu a impressão que a mídia o tratava com muita injustiça e exagerava muito os fatos. Não achei as danças escabrosas e nem me senti no meio do inferno. Tudo muito normal, adolescentes se divertindo, explorando sua sexualidade com outros adolescentes de forma muito saudável, foi o que pensei.

Mas aí o show da banda de pagode começou e minhas elocubrações deram espaço ao meu primeiro choque cultural com a cultura carioca. Não ouvi o que eu achava que ia ouvir. O que os cariocas chamam de pagode é o que nós baianos simplesmente chamamos de samba. Tenho que admitir que foi uma surpesa agradável. Os pagodeiros cariocas tocaram “Tudo está no seu lugar” de Benito de Paula e “Testamento de um partideiro” de Candeia. Naquele instante me lembrei de uma aula que tinha recebido alguns anos antes de meu priminho querido Samyr. Samyrzinho do Cavaco, nascido e criado no estado de São Paulo, já tinha me advertido para certas diferenças na nomenclatura musical das regiões sudeste e nordeste de nosso Brasil. O que eles chamam de pagode pra gente é samba, o que a gente chama de pagode para eles é Axé e essa miséria toda é música baiana. Faz sentido. Ainda na mesma aula ele chamou minha atenção pra não queimar meu filme falando asneiras do tipo “banda de samba”. Se toca samba é grupo, Cris. Grupo de samba.

Depois de relembrada a lição e de ter dançado muito ao som do samba, quer dizer, pagode, ou melhor samba, ah vocês entenderam, né? Foi a vez do Funk mostrar sua verdadeira cara. Não sou uma pessoa que se choca fácil com as coisas, mas as letras daquelas músicas fizeram meu cabelo arrepiar. As danças eram de fazer o pessoal de Sodoma e Gomorra corar de vergonha. Me encostei na parede pra proteger a retaguarda e bati em retirada, afinal de contas como diria o sábio filósofo Roger Murtaugh “I’m too old for this shit”.