quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Socorro!!!

Voltar pra minha terra natal me dá a oportunidade de lançar um novo olhar sobre a minha cultura. Coisas que antes eram super normais, cotidianas e despercebidas de repente saltam os olhos. Este é um momento interessante, que eu faço questão de não deixar passar em branco. O que tem chamado bastante minha atenção recentemente é como a crescente violência em Salvador tem transformado o comportamento das pessoas. Até meus amigos mais relaxados e tranquilões estão virando uma pilha de nervos. Isso me assusta enormemente. Outra mudança de comportamento que eu observei (já de muuuuuuuito tempo, mas agora está demais) é que pra se proteger um pouquinho que seja da violência, os Soteropolitanos abrem de mão de cada vez mais direitos, de cada vez mais liberdades.

Exemplos: já faz tempo que a gente não pode sacar quanto a gente quer de nosso próprio dinheiro nos caixas eletrônicos. Pra evitar que seus clientes sejam completamente roubados, os bancos instituiram limites de saques nessas máquinas. As operadoras de cartões de crédito seguiram a moda e monitoram de perto as compras de seus associados. Também bloqueiam seus cartões assim que uma atividade atípica é detectada. Agora já não se pode usar o celular dentro dos bancos para evitar que marginais alertem seus comparsas do lado de fora do banco sobre quem sacou dinheiro. Outro dia ouvi uma entrevista de um bambambam da polícia dando dicas de como fazer pra sair vivo de um assalto. Me indignei! claro que eu entendo a lógica de tudo isso. Claro que quando alguém é assaltado, depois de passado o susto da situação, é um consolo saber que o bandido não vai poder raspar a sua conta. Claro que eu entendo medidas preventivas, claro que eu entendo o se querer tomar cuidado. Mas eu faço aqui um convite à filosofar e filosofando, o que eu percebo é o seguinte:

Nós abrimos mão de nosso direito de liberdade. Não podemos sacar nosso dinheiro, ficar dentro de nossos carros, entrar em certos bairros, usar nosso celular onde nos der na telha, andar de moto sem virar suspeito, usar nossos cartões de crédito pra sermos espontâneos, nem tirar meleca do próprio nariz, afinal de contas estamos sendo filmados. Ao invés disso, as autoridades responsáveis por garantir nossa segurança e liberdade nos ensina a aceitar o crime como parte normal de nossas vidas. Agem como se fosse ok oficializar o medo, estimular a acomodação. Prendem as pessoas comuns em um estado de pânico eterno enquanto a criminalidade vai crescendo à vontade. Na boa, vocês conseguem pensar uma coisa mais estranha do que viver em um país (que não está em estado de guerra) e ser obrigado a pensar que "graças a deus que ele só levou meu carro, mas não me deu um tiro", "ainda bem que só foi um tiro de raspão" "ele ficou em coma depois de ter recebido uma bala na cabeça, mas sobreviveu". Será que é mesmo engraçado apelidar um golpe, que muitas vezes resulta em morte de pessoas inocentes de "saidinha bancária". É pra ser bonitinho? Vamos nomear a prática para normalizá-la? É isso?
O que é isso, minha gente? O que é que a gente está esperando? Não poder mais sair de casa? O dia em que os ladrões vão distribuir senha pra melhor organizar seus assaltos? A polícia vai dizer o quê? Tente ficar no fim da fila pra atrasar ao máximo a sua vez? Deixe sua porta aberta e sirva um cafezinho pra o marginal não achar que você está oferecendo resistência ao assalto. Quer saber de uma? Eu acho que tá na hora da gente começar a oferecer resistência sim, a esse modo de pensar que nos tornou eternas vitimas pacatas da ineficiência e descaso de nossas instituições e de nossa própria cultura acomodadinha, que parece que só tem força mesmo é pra gritar "gol".

12 comentários:

  1. Puxa, Cris! Assino embaixo! Genial! bjs

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  2. Crisinha, vc está inspirada heim?! 5 postagens em 2 meses... Espero que isso seja devido ao relxamento das férias e nao pelo "aprisionamento" causado pela violência, de ter nao poder beber todas e voltar pra casa na boa:-) Saudades Flora

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  3. Nossa Cris, ce tá inspirada hein ...

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  4. Florinha e Sil a inspiracao vem do Brasil mesmo e nao do aprisionamento. Tô muuuuuito bem amigas. Tá violento sim, mas me recuso a me prender. Continuo a fazer farras mil, tomar todas e curtir minha cidade. Mas estou com saudade de vocês viu...

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  5. Esse é um assunto que realmente me deixa triste e puto ao mesmo tempo. Agora, como você já sabe, eu comecei a dirigir e todos acham um absurdo eu andar com a minha janela aberta quando o sol não está tão quente. Não para economizar gasolina (que eu acho que nem economiza) e nem mostrar meus braços que de musculosos não têm nada, mas sim para respirar um pouco o ar da orla e olhar melhor o mar, que é algo que continua lindo aqui em Salvador. Quando eu digo isso ou quando alguém que eu conheço me vê dirigindo com a janela aberta, os seus olhos são arregalados de forma tal que parecem que vão sair dos seus devidos lugares e parar no chão. Que porra é essa, velho? E que porra é essa também a galera comprando celular de R$50,00 simplesmente porque não podem comprar um de R$100,00? E sim, eu odeio quando dizem "vão-se os anéis, mas ficam os dedos". Será que o esforço que todos temos para comprar tais "anéis" não deve ser levado em consideração? O que eu percebo é que você é roubado / assaltado / molestado e deve agradecer a Deus mesmo. No outro dia você deve ir trabalhar com um sorrisão estampado no rosto, feliz por ainda estar ali e começar a juntar para comprar tudo de novo. Vá tomar no buraco de ozônio, viu! ;(

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  6. Cris,pose lhe dizer q sou refém do medo,medo da violencia e da falta de liberdade q toma conta de nós...fio pensando,como posso crar meu filho em um país como esse....BJS!

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  7. Exatamente Du!

    Obrigada por seu comentário. Muuuuuito bom!

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  8. Você nao é a única Taninha... eu também me sinto assim. Mas acho uma merda. Me recuso mesmo a achar normal. Acho que o perigo quando a gente acha que é normal viver com medo, né?


    Muito obrigada pela visitinha aqui no blog:-)

    Beijos

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  9. Parabéns pelo texto, amiga! Muito bom mesmo! Shi

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  10. Cris, há um tempo vivo um desses dilemas: ocupar o espaço público e me arriscar ou me enclausurar e, talvez, ficar segura? Por enquanto, com todos os meus medos, sempre saio de casa andando, mesmo depois de grandes amigas terem sido assaltadas aqui no meu bairro. Enfim, acho amei os questionamentos, mas nem sei onde vamos parar. Tenho pavor da polícia "pacificadora" e não vejo muita saída enquanto o país continuar tão desigual. Uma lástima...
    bjs, Gal

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