Mostrando postagens com marcador FIT. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FIT. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de janeiro de 2012

Racismo Cordial


Enquanto ainda estava tentando definir um tema pra minha monografia, me deparei com muitos textos e teorias interessantes, que me ofereceram um verdadeira reeducação pra vida. Uma delas foi a teoria de que existe uma coisa chamada de Racismo Positivo Cordial. Apesar de ainda questionar a terminologia, eu concordo que, por mais estranho que pareça, a coisa em si de fato existe.

É difícil definir o racismo em termos absolutos. Esse fenômeno tem tantas formas de se manifestar que muitas vezes nem dá pra saber direito se alguma coisa é de fato racismo ou não, e nessa brincadeira se vacilar a gente corre o risco de pirar e virar paranóico. The Big Bang Theory, série de TV que eu adoro, tem umas cenas hilárias que brincam com essa noção. Por exemplo, no nono episódio da quarta temporada (The Boyfriend Complexity) rola o seguinte diálogo (no qual Raj, um dos personagens, é indiano) que eu traduzi mais ou menos assim:

Sheldon: Você tem certeza que tem quadrinhos o suficiente? Você vai monitorar o telescópio por doze horas e pela minha estimativa, você só selecionou sete horas de material de leitura. E isso considerando sua dificuldade em processar expressões de quadrinhos americanos como “bamf” e “snif”.

Raj: Isso foi racista? Eu senti como se fosse racismo...

Howard: Não seja super sensível. Ele está chamando VOCÊ de analfabeto e não a sua raça.

Raj: Ah, tá. Tudo bem.

Bem, há quem ache que Sheldon foi sim racista, há quem ache que a série inteira é meio racista também e há pessoas que acham que tudo não passa de uma brincadeira. Eu acredito que quando o ser humano se envolve pessoalmente com determinada causa ele acha formas de defendê-la, por isso muitas vezes a mesma situação pode ser percebida como discriminatória por uns e inofensiva por outros. Como diz Marisa Monte em uma de suas músicas “a dor é de quem tem”. (Obrigada por me lembrar, Anginha!!). Essa discussão do ser ou não ser racismo, foi um dos pontos de partida pra teoria de que existe o tal racismo positivo cordial. 

No post anterior eu falei que aqui na Alemanha determinadas culturas são constantes vítimas de associações negativas enquanto outras são adoradas. A impressão que eu tenho é que o estrangeiro aqui sempre recebe logo um carimbo estigmatizante seja positivo ou negativo. Polonês é ladrão, turco bate na irmã, russo é mafioso e russas são piranhas. Os espanhóis vivem dançando e falando alto, italiano é incompetente no trabalho, mas sabe viver que é uma beleza, suecos são exemplo de moral e brasileiro é tudo de bom. Acho que nós somos os mais amados dos estrangeiros aqui na Alemanha. Também, como não amar um povo sexy, de corpo esculpido que se veste como se houvesse um eterno racionamento de tecido, que vive curtindo praia e que é mestre na arte de dançar, cantar e golear?

O único problema é que enquanto a gente fica se achando, pensando que isso é uma beleza e que somos as últimas bolachinhas do pacote, a gente acaba se cegando pro fato de que essa adoração pode ser bastante limitante. Afinal de contas, como levar um povo desse à sério? Antes mesmo de conhecer a teoria do Racismo Positivo Cordial senti rapidinho na pele o seu poder destrutivo. Ao chegar aqui, ficava cansada de ter de explicar e convencer pessoas que ser brasileira e ser uma profissional competente e séria não eram necessariamente qualidades excludentes. Era também muito difícil de fazer certas pessoas entenderem como era possível que eu fosse brasileira e ensinasse inglês e não português, que eu não desse a mínima pra futebol, que não achava o frio ruim, que não chorava todo dia de saudades de minha terra, minhas praias, etc. Me poupe, né? sinto saudades de minha terra sim, mas quem não sente? o fato de ser brasileira não me obriga a viver num eterno banzo.

Como o texto trata exatamente sobre os perigos dos esteriótipos, quero deixar bem claro rapidinho, que nem todo alemão pensa assim. Aqui, como em qualquer outro país, tem pessoas preconceituosas e pessoas que sabem que somos todos diferentes porém iguais. Infelizmente em questões culturais a gente tende a querer colocar a maior quantidade de gente possível em um mesmo saco, mas o importante é constantemente refletir sobre nossas atitudes e nossos padrões de pensamento. 

Eu tive muita experiência aqui na qual pessoas tentavam me carimbar com todo cliché de brasileiro que existe, mas também tive muita experiência genuinamente positiva, na qual fui vista e tratada apenas como um ser humano e pronto. No final das contas todas essas experiências, todas as leituras sobre a questão do racismo negativo ou positivo cordial, me levaram a questionar a minha própria forma de olhar para as pessoas. Hoje em dia, me vigio pra não cair na armadilha de atribuir suas características boas ou ruins às suas nacionalidades. Não é fácil, viu. Mas pro bem de um mundo mais igualitário, esse esforço individual com certeza vale à pena.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Interrompendo a biografia

Quando a gente pensa em mudar pra outro país, no geral não faz idéia da caixinha de surpresas que está por abrir. Tem um monte de questões complicadas de lidar, tipo a ansiedade da preparação pra nova vida, o processo de adaptação à nova cultura e sociedade e a dor de ter de deixar muita coisa pra trás. Há mais ou menos um ano eu estava lidando com minhas próprias neuras relacionadas ao meu próprio processo de imigração pra Alemanha, quando minha amiga Flora me sugeriu fazer um curso que ela mesma estava fazendo e achando muito interessante. Tratava-se de um curso que tinha como objetivo (trans)formar profissionais com alguma formação na área de humanas (professores, psicólogos, assistentes sociais e por aí vai) em palestrantes e facilitadores aptos à oferecer cursos tanto para imigrantes, (para que eles passassem a entender e melhor lidar com seus processos de imigração e através disso poderem se adaptar melhor à nova cultura) como também para diversas instituições que lidam com imigrantes, como escolas, polícia, empresas e assim por diante.

Esse curso abriu meu olhos pra coisas maravilhosas, interessantíssimas e extremamente importantes tanto para minha formação como profissional quanto para meu ser humano. Como tantas coisas na área das ciências humanas, tive o prazer de abrir portas para conhecimentos de grande magnitude que agora são impossíveis de ignorar. Uma dessas descobertas foi a de um conceito interessante que eu vou aqui traduzir toscamente como "corte biográfico". Deixa eu  tentar explicar bem rapidinho como é isso:

Para isso vou apresentar vocês a uma mulher chamada Tatiana. Tati quando criança morou no Cabula, ali um pouco antes da Uneb. Depois ela e sua família se mudaram para a Pituba, pra uma rua que fazia esquina com a Manoel Dias. Na quarta série ela foi estudar no Teresa e muitas vezes ia andando de lá até o Iguatemi pra filar aula com suas amigas. Uma vez, sua mãe encontrou com ela filando aula no shopping e como castigo ela não pode ir a uma festa de 15 anos que ia ter no prédio dela naquela semana. Mas Tatiana no geral era uma adolescente tranquila. Acabou fazendo vestibular pra Letras, primeiro na Católica, mas se desgostou de lá e depois de três semestres foi pra Ufba onde apesar de muitas greves se formou.

Quem for de Salvador, não só vai entender a estória de Tati, como também vai ser capaz de chegar a certas conclusões sobre ela, apesar de nunca tê-la conhecido. Por exemplo, quem é de Salvador sabe que o Teresa era uma escola bem conceituada nesta cidade, que depois décadas de funcionamento fechou as portas. Só de ouvir essa estória também dá pra ter uma idéia da classe social na qual Tatiana cresceu, só em saber em que bairros ela morrou. Até quem não é de Salvador, mas que é brasileiro, sabe que Iguatemi é um shopping center e o que uma festinha de 15 anos significa pra uma adolescente.

Agora imagine essa mesma Tati contando coisas de sua infância e adolescência para um amigo alemão. Se ela quiser realmente ser entendida, vai ter de dar inúmeras explicações paralelas à estória que só quem já passou por isso pra saber como é desestimulante. E inútil também, porque assim como piada explicada perde a graça, estórias cheias de parêntesis perdem o sentido. Esse é o tal do corte biográfico. Essa quebra da biografia de uma pessoa que a obriga a estar sempre se explicando. Fica complicado falar de seu prédio, sua rua, sua escola, os programas de TV que você assistia, suas experiências enfim,  porque muitas vezes vai ser difícil encontar alguém que possa dizer sendo bem sincero mesmo "eu sei exatamente o que é isso". Nenhuma estória pode ser simples, tudo tem de ser cheio de pausas explicativas e isso cansa. E quem sai de sua terra, mesmo que seja somente pra uma outra cidade já passa por isso. Por esse mesmo motivo também é que a cidade natal no geral tem um lugar especial nas recordações dos imigrantes. E claro, quanto mais você imigra, mais cortes como esse você vive. Não quero dizer que isso seja ruim. É só muito compexo e pode ser cansativo.

Eu me acostumei com a sensação de ter perdido parte de minha estória. No iniciozinho ainda caía nessa de explicar mil coisas pra fazer uma coisinha ser de fato compreendida. Depois aprendi que valia mais à pena me calar, ouvir mais, aprender mais. Foi dífícil, mas hoje em dia é tranquilo. O único problema é que o hábito de me explicar demais persistiu. Por exemplo, agora eu precisei falar tudo isso aí só pra dizer o quanto eu estou feliz de estar de volta a um lugar no qual minhas palavras não precisam de parêntesis nem notas de rodapé.